quinta-feira, 1 de julho de 2010

O dilema de Cleópatra ou o triunfo de Flor(ence)

Cléo de 5 à 7 usou como poucas obras a liberdade temática e estilística que o movimento da Nouvelle Vague proporcionava. O curioso é que se o filme de Varda se transformou numa espécie de hino obscuro, segredado, da Nouvelle Vague, a sua autora, a “avó” do novo cinema parisiense, sempre manteve uma distância cautelar face ao núcleo duro Godard, Truffaut, Rhomer. Esse lugar reservado explica-se por Varda ser uma cineasta cuja subjectividade se ergue como critério anterior ao programa da Nouvelle Vague...

Desde a sequência inicial, em que as cartas de Tarot prevêm o cancro de Cléo (Corinne Marchand) que há espaço para a referida obsessão pelo drama mais convencional, uma angústia de morte. Ainda para mais, com a opção da falsa continuidade temporal a sublinhar a dureza dessa angústia (estrutura que aliás rompe com a estrutura fragmentária e banal do resto do corpus da Nouvelle Vague). Mas aqui a subjectividade de Varda traz o dilema para as margens da preocupação colectiva das sociedades ocidentais de 60 que começava a ser o cancro. Ao invés, o terror de Cléo, corporiza-se num tema de Varda: a passagem de um tempo inexorável e finito, uma degradação trazida pelo tempo, uma imagem da beleza a esvair-se, a transitoriedade da vida humana como sintoma da doença de …viver. . (“Ta beauté est ta santé”).

É do facto de Cléo ser a esfíngica Cleópatra, que apenas é observada e não observa, que nasce a verdadeira doença da protagonista de Varda. Esse seu mal-être advém da sociedade pomposa que, entre ideais revolucionários e anúncios a shampoo (no fundo a Paris da nova vaga), age como espaço de pressão performativa. É preciso participar no mundo, olhar para as pessoas e ficar nu ou comer sapos para poder parar o tempo que jamais pára. E essa incomunicação é outra vez o “tema” de Varda, como se vê no olhar documental que a cineasta tem sobre a cidade, seus habitantes e lojas. Lado documental muito mais possuído por uma visão quase activista, que, por exemplo, Godard só viria a ter muitos anos mais tarde e com bastante mais estardalhaço. Todos olham, grotescos, decadentes, reais, para Cléo. Todos sabem da sua “doença”? Ou ela não sabe como ver?

Contudo, Cléo de 5 a 7 não deixa de ser um filme jovem, impertinente, porque Varda também filma Paris, pelos seus cafés, balaustradas, discussões artísticas apaixonadas, num programa mais ou menos estabelecido. Mas fá-lo ao serviço de algo que não pode ser performatizado, por um Belmondo, por exemplo: uma relação de desintegração entre uma mulher e a realidade.

Esse enfado com o mundo soluciona-se tomando parte, fazendo triunfar “Flora”, mesmo que esta já seja a manifestação de uma Primavera atrasada.

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