sábado, 21 de janeiro de 2017

As cuequinhas de Tallulah Bankhead


There was this story sidelight: Bankhead eschewed undergarments, and freely exposed her private parts. Some people, including Slezak, were offended. "In order to step into the boat we had to go over a little ladder", Zlezak recalled. "The first day she lifted her skirt to under her arms  - with nothing underneath. She carried on that tired joke for about fifteen weeks, while I was on the picture. Every day, three, four, or five days, she showed she wasn't wearing panties. Maybe I'm a prude, but I don't like vulgar women."

Not Hitchcock: One day, according to Cronyn a visiting lady journalist from a women's magazine took umbrage at Bankhead's exhibitionism, and complained to the publicity department. The publicists pressed the issue with production manager Ben Silvey, who passed the buck to Hitchcock. Joseph Cotten vouched for what happened next: he was visiting the set when he noticed cameramen Glen MacWilliams slide over to Hitchcock and whisper that whenever Bankhead spread her legs, the shot was ruined.

The director lifted up his stomach, stuck out his bottom lip, and pronounced loud enough for everyone to hear, "This is not for me to handle. We shall call the hairdresser."

"Alfred Hitchcock - A Life in Darkness and Light", de Patrick McGilligan

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Salvar o essencial

Desde que comecei a ver cinema sempre tive um fascínio especial por filmes em que as suas personagens se encontrassem em espaços confinados, fossem eles um hotel no meio da tempestade, uma ilha deserta, uma sala de estar, um caixão, um barco, etc. Duas coisas me agradavam sobretudo: a forma como a tensão era mais facilmente construída (e a acção concentrada) em função dessa compressão espacial; e depois, essa espécie de colocação do espectador no lugar de Deus ou cientista de bata que observa e faz experiências com ratinhos no seu laboratório. Por estas razões é natural pois que o Motel da família Bates, a janela de James Stewart em "Rear Window" ou as salas de "Rope" ou "Dial M For Murder" façam parte do meu desconforto confortável hitchcokiano.



A juntar a estas está o barco salva-vidas de "Lifeboat", um dos filmes do período de guerra de Hitchcock. Revendo-o, não é que me tenha afastado das razões que escrevi acima. O filme possui essa tensão, além da situação alegórica de personagens em tempos de guerra (o que desagradou aliás Steinbeck, um dos escritores do projecto). Contudo, a chegada das séries de televisão ou a pirotecnia do cinema contemporâneo mainstream deixam à mostra outra qualidade de "Lifeboat", e, porque não dizê-lo, dos tais filmes passados em confinados espaços. É que a compressão espacial diminui a possibilidade de uma dispersão no espaço: esse "suster" da respiração implica estar ali naquele espaço, mais tempo, com aquelas pessoas, como quem prefere conviver num jantar em casa, em vez de ir ao restaurante.

O problema com "Lifeboat" foi aliás de convivências, porque Willi, a personagem de Walter Slezak, o alemão, responsável pelo naufrágio inicial do barco em que seguiam aquelas personagens (e portanto "autor" daquela situação de sobrevivência a partir do qual o filme arranca) não devia ser representado como alguém heróico, ou mesmo, razoável. Um carrasco ao mesmo nível da sua vítima? Nem pensar. Mas Hitchcock não queria tanto dizer que as vítimas estavam ali e os maus acolá. Era mais uma questão de auscultar o procedimento humano numa situação extrema de sobrevivência e a forma como, nessas ocasiões, as dualidades - bom/mau ou material/imaterial - se esbatiam. E aqui reside o paradoxo mais rico de "Lifeboat". Hitchcock é por natureza o realizador dos objectos - os anéis, as algemas, as facas, as tesouras, os copos de leite, a lista é interminável. E aqui, esses objectos sendo determinantes - lembro o papel da bússola que se faz passar por um relógio, a faca que amputa Gus, o álcool que anestesia Gus, a pulseira de Connie que servirá de isco para peixe; já para não falar da água e da comida) - vão perdendo importância à medida que avançamos para o essencial da sobrevivência: a comida acaba, a garrafa da água parte-se, e Connie, a mais materialista de todas aquelas personagens, aprende o sentido do despojamento, perdendo ao longo do filme a sua câmara de filmar, a sua máquina de escrever, a sua pulseira de brilhantes.

Essa perda da instância materialista ilustra bem o interesse dramático de "Lifeboat", com as suas personagens a despirem-se progressivamente: de preconceitos, de roupas, ficando apenas com o passado, uma sede e a vontade de continuar a viver. Esse essencial permanece vivo no filme e transmite ao espectador de 2017, tantos anos depois, algo daquilo a que podíamos qualificar como essencial. Algo que pouco muda quando mudamos da arte para a realidade, parece-me.


Um livro é um espelho

Um livro é um espelho: se um macaco nele se mira não é, evidentemente, a imagem de um apóstolo a que aparece.

in "Aforismos"- Lichtenberg

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Escrevo na intensidade do vento, contra as árvores que sangram, contra aquele ponto do éter com aroma a eternidade. Escrevo pela exclamação de um povo, em letras parvas, no caminho de uma acidentada língua, língua de domingo intransitada. Escrevo esparramado numa vírgula, esquilo gramatical de Outono, fruto de adjectivo incomestível. Escrevo como quem coça os dedos, como quem tem dó da passividade e se acomoda na sombra do fazer. Escrevo por dá cá aquela palha, feito berloque esquecido numa cómoda, apaixonado pelo pó e pelo teu pescoço felino. Escrevo como uma caça campestre ao esquecimento ou uma manada de passarame preso ao tempo da degustação das cerejas. Escrevo nos buracos da terra: um arado de palavras contra o podre e o desperdício. Escrevo como funcionário de frutaria, pesando o doce e o amargo, o verde e o maduro. Escrevo como quem faz a guerra e procura beijar os feridos. Escrevo como quem quer celebrar o silêncio.

Lucky Star - Cineclube de Braga

                             

Quem anda atento ao panorama da programação cinematográfica nacional já deve concerteza ter reparado no excelente trabalho que o Cineclube de Braga tem vindo a apresentar já há mais de um ano. O projecto Lucky Star, com a benção de Frank Borzage, propõe-se dar a ver um filme todas as 3ª feiras à noite no Estaleiro Cultural de Velha a Branca. Por detrás deste projecto estão duas das pessoas que actualmente melhor escrevem sobre cinema no país, um deles inclusive tendo já colaborado com o site À pala de Walsh. Falo de João Palhares, cujos textos podem ler quer no site do Lucky Star, quer no seu blogue, Cine Resort, e de José Oliveira, também cineasta, programador e crítico que há já vários anos mantém o seu indispensável blogue Raging Bull.

Há uns meses tinha escrito sobre um projecto parecido em Famalicão, o "Close Up- Observatório Cinema" dirigido pelo programador Vítor Ribeiro. Quando digo parecido não falo de estruturas de programação ou conteúdos, e sim porque ambos parecem prosseguir dois objectivos que muito me sensibilizam. O primeiro, o de descentralização da oferta cinematográfica de Lisboa, lutando pela importância que o cinema deve ter em outras cidades do país. O segundo, a luta contra a "supermercadização" do cinema, trabalhando com eventos de dimensões "humanas"que procuram colocar os filmes e os espectadores no centro da equação. Mostrar filmes para ser vistos e discutidos por pessoas (não consumidores) e levar as pessoas até aos filmes.

No caso do Lucky Star, embora não tenha tido ainda a oportunidade de assistir a uma sessão in locu (algo que espero poder fazer em breve), posso destacar já outra característica. Além das sessões organizadas, a disponibilização dos textos contextualizadores e críticos no seu site, assim como a junção dos vídeos de apresentação, permitem que a actividade de programação se expanda para o online, atingindo um número maior de pessoas. A cinefilia sem fronteiras mas dotada de um pensamento de estrutura.

Passem também no seu canal de youtube, onde estão compilados estes vídeos, pérolas instantâneas para qualquer cinéfilo, nos quais nomes como Tag Galhagher, Craig Keller, Adriano Aprà ou Pierre Rissient apresentam e falam sobre os filmes escolhidos. E nem é preciso falar aqui dos filmes que compõe a programação, basta espreitar só o programa de Janeiro, ali em cima.

Do mundo para Braga, de Braga para o mundo: how lucky (star) are we?

domingo, 15 de janeiro de 2017

Primeiras palas de 2017


sábado, 14 de janeiro de 2017

Bitchy

Judá escolheu para Er, seu primogénito, uma mulher chamada Tamar. Er, primogénito de Judá, desagradou ao SENHOR e Ele feriu-o de morte.

Gn 38: 6-7