quarta-feira, 20 de setembro de 2017

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Coelho Mau - Carlos Conceição


É o primeiro plano de Coelho Mau (2017) e já estamos em viagem. Seguimos uma mota e a câmara passa, de forma elegante, das rodas da viatura e da estrada alcatroada até aos seus dois jovens ocupantes - João Arrais, presença obrigatória do imaginário de Carlos Conceição, e Julia Palha. Ele tem um chapéu de orelhas de coelho, ela uma máscara de oxigénio. Adereços de juventude ou necessidades de idade adulta? O filme, claro, não dará resposta evidente, pois é nesse "entre" que habita. As oposições criativas entre a carne "culpada" e a alma inocente (penso precisamente em Carne de 2010), entre a turbina da juventude e a desaceleração da velhice [o mesmo Arrais e Isabel Ruth em Versailles (2013)], e finalmente, entre o moralismo dos contos de fadas e o fetichismo dos contos de fodas, são tudo terrenos onde Carlos Conceição quer plantar as sementes da sua discórdia cinematográfica.

A atitude não parece ser uma curiosidade por ver o "sangue" que resulta do embate destas realidades tradicionalmente separadas. Trata-se de fazer ver que, como aqui neste seu último filme, não há uma verdadeira separação entre o coelho e o lobo, entre o maravilhoso e o perverso, entre o desejo sexual e o acto de abnegado sacrifício. Por isso é tão importante aquele momento em que a personagem do João, depois de entregar a sua irmã "às feras", cá em baixo junta à sua casa na árvore, imita um mocho e é do bosque que lhe vem a reposta: um uivo de lobo. Ao contrário do que acontece algumas vezes no formato curto - onde cada plano, pelo seu apuro formal, poderia ser em si mesmo uma curta-metragem - em Coelho Mau as personagens vêem o seu universo expandido pela noite que as habita e que aos seus problemas lhes responde. Estamos assim na arte de tornar o curto-longo, na capacidade de sugerir pelos indícios um mundo mais aberto, onde ao espectador "desamparado" lhe vem, simultaneamente, a inocência demencial de James Stewart e o seu amigo em Harvey (1950), a bizarria cool que foi o filme de Richard Kelly em 2001, Donnie Darko, e claro, o monstro nocturno de látex, de O Fantasma (2000), de João Pedro Rodrigues, realizador que é, por cá, o parente mais natural para o seu cinema.

RACCORDS DO ALGORITMO

Amigos, a partir deste mês, no "À pala de Walsh", vou assinar uma nova crónica dedicada a estabelecer relações/raccords entre vídeos e imagens exclusivamente encontradas online. Chama-se "Raccords do Algorítmo" e neste primeiro número, que funciona como uma espécie de prefácio, tentei lançar as bases teóricas do que me motivou a escrever. Nela falo dos problemas da "algoritmização do quotidiano" e ainda encontro um espacinho para escrever sobre a forma como o David Lynch cozinha quinoa, sobre o vídeo mais visto do Youtube, e a maneira como Sternberg dirige os seus actores. Espero que gostem.

domingo, 17 de setembro de 2017

Árvore da Cinefilia #19- Rui Alves de Sousa


Na minha vida o cinema surgiu muito antes de o ter descoberto no lugar mais apropriado (e, se não me engano, isso aconteceu com a primeira sequela de «Toy Story» numa das salas do centro comercial das Amoreiras, com a minha Avó). Graças à televisão e a uma série de VHS de filmes da Disney ou derivados (que foram utilizadas para visionamentos incontáveis – resultando em algumas fitas partidas e avarias ocasionais do videogravador), comecei a ter desde cedo um contacto permanente com o cinema. É claro que, na infância, esse contacto não se reveste de cinefilia. No entanto, algumas das “bases” do meu gosto pelo cinema encontram-se aí, entre a sequência das vassouras do «Fantasia» e o momento magnífico de «Pinocchio» em que o boneco ganha vida graças ao condão da fada azul.

Andemos o “filme” da minha vida uns anos mais para frente, precisamente para o Natal de 2006, e mudemos de formato. «The Great Dictator» (Charles Chaplin, 1940) foi o primeiro filme em DVD que recebi. O VHS ainda imperava lá em casa (ainda era muito utilizado e não tinha sido ainda totalmente aniquilado pelo seu opositor), mas os discos versáteis começavam a fascinar-me. Era todo um mundo novo, mais high-tech e sofisticado, que não incluía os incómodos do rebobinanço nem da deterioração constante da imagem.

De Chaplin já conhecia algumas coisas, graças a algumas curtas que apanhara ocasionalmente na televisão. Na santa ignorância dos meus 11 anos, não sabia que ele tinha feito filmes falados! Daí que tinha mais uma razão para descobrir, o mais depressa possível, o conteúdo daquela caixinha que, mais tarde, percebi que continha também um conjunto de valiosos extras.

É difícil descrever exactamente o que «The Great Dictator» fez por mim desde então, mas é até hoje um dos filmes mais importantes, um dos que me “definem” enquanto cinéfilo. Não sei escolher a melhor coisa dele, mas houve muitas que foram importantes. Estão são algumas: ver pela primeira vez como Chaplin era bem mais do que um homem da slapstick; perceber como o cineasta, a falar, conseguia ser tão forte como se não utilizasse essa ferramenta; e olhar para o cinema como uma porta para o que há de melhor e pior na humanidade. Há tudo isto e tantas coisas mais, numa sátira genial e corajosa com alguns dos mais belos planos (recordo-me por exemplo, do momento em que a câmara se fixa numa gaiola e no seu pássaro, enquanto algo de muito grave se passa no “meio humano”, na ditadura opressiva, e tão actual).

No dia em que vi «The Great Dictator» pela primeira vez, tudo mudou. Senti que o meu gosto pelo cinema passara para um outro patamar. Não queria só ver os filmes, mas também ir mais além e perceber tudo – as intenções do realizador, o contexto, a linguagem cinematográfica, etc. O filme deu-me muito, e a sua importância aumenta na minha vida a cada dia que passa.

Passaram-se mais de dez anos e ainda tenho esse DVD, que já revisitei muitas, muitas vezes. E continua impecável. 

*Rui Alves de Sousa

*O Rui é o autor do podcast À Beira do Abismo, redactor da Take Magazine e stand up comedian nas horas vagas.


Para saber mais sobre a rubrica Árvore da Cinefilia.
Edições anteriores: #1 Francisco Rocha
                                    #2 Pedro Correia
                                    #3 Carlos Alberto Carrilho
                                    #4 Álvaro Martins
                                    #5 Leandro Schonfelder
                                    #6 Samuel Andrade
                                    #7 Vítor Ribeiro
                                    #8 José Marmeleira
                                    #9 Maria João Madeira
                                    #10 João Lisboa 
                                    # 11 Ricardo Vieira Lisboa  
                                   #12 Daniel Curval  
                                    #13 Inês N. Lourenço
                                    # 14 Alexandre Andrade
                                    # 15 Vasco Câmara
                                                    # 16 Bruno Andrade
                                                    # 17 Carlota Gonçalves
                                   #18 Luís Mendonça


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Da série "daqueles dilemas"

 #1- Há filmes que, das duas uma, ou possuem uma simplicidade demasiado complexa, ou a sua complexidade é demasiado simples.


 #2- Há filmes que, das duas uma, ou têm personagens que são natureza mortas, ou têm naturezas mortas que desejam ser personagens.

domingo, 10 de setembro de 2017

Árvore da Cinefilia #18- Luís Mendonça


Lembro-me perfeitamente do momento em que se deu a minha cine-filiação. Foi na RTP2, na apresentação de João Bénard da Costa a Spellbound. Bénard isolava de todo o filme a sequência do beijo entre Ingrid Bergman e Gregory Peck. Hitchcock filmava o pico da paixão através de uma metáfora: várias portas que se abriam em direcção ao infinito. Era a suprema imagem da volúpia. A paixão não conhecia obstáculos. Não havia segredos atrás da porta, mas somente puro êxtase. Este beijo não é só um beijo, parecia que explicava assim João Bénard da Costa. Através do cinema, aquele encontro de lábios rompia com o espaço e com o tempo. Esta lição de Bénard, prévia ao filme, deu-me a ver uma possibilidade que me abriu os olhos acerca da potência de um cinema – o da Hollywood clássica – que me iria habituar a ter como uma casa: se o encontro daqueles dois lábios pode tudo, também o encontro do olho com a superfície das imagens permite todas as viagens. E como podemos sonhar à boleia de refinados – e até docemente envergonhados – momentos de paixão fílmica apresentados num filme com mais de 60 anos...

Por portas e mais portas. É este o percurso do cinéfilo no encontro com os objectos do seu desejo – os filmes e, neles, os rostos das estrelas, os gestos dos corpos, os movimentos de câmara, os embates da luz no cenário, uma cosmologia que existe apenas ali, na cabeça. Não, Bénard era um romântico e punha a cinefilia sob o signo do coração. Punha, desse modo, o coração a ver, e a rever, e a rever-se, num filme psicanalítico filmado por Hitchcock, sonhado por Dali. Quando vi a sequência do beijo, previamente lida por Bénard, já não vi outra coisa senão a leitura dessa sequência que o ex-director da Cinemateca Portuguesa me presenteara. O cinema estava no modo, tão contagiante, como olhamos e sentimos os filmes. A cinefilia é o feitiço que permite que o cinema nunca se esgote ou se canse de nós ou nos "feche a porta". Uma história de amor sobre portas e mais portas que se abrem para lado nenhum. Até ao infinito.

*Luís Mendonça

*O Luís além de ser um dos membros fundadores do site À pala de Walsh é também doutorado em Ciências da Comunicação pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. É ainda autor do livro "Fotografia e Cinema Moderno: Os Cineastas Amadores do Pós-Guerra".

Para saber mais sobre a rubrica Árvore da Cinefilia.
Edições anteriores: #1 Francisco Rocha.
                                    #2 Pedro Correia.
                                    #3 Carlos Alberto Carrilho
                                    #4 Álvaro Martins
                                    #5 Leandro Schonfelder
                                    #6 Samuel Andrade
                                    #7 Vítor Ribeiro
                                    #8 José Marmeleira
                                    #9 Maria João Madeira
                                    #10 João Lisboa 
                                    # 11 Ricardo Vieira Lisboa  
                                   #12 Daniel Curval  
                                    #13 Inês N. Lourenço
                                    # 14 Alexandre Andrade
                                    # 15 Vasco Câmara
                                                    # 16 Bruno Andrade
                                                    # 17 Carlota Gonçalves