quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

The Eyes of My Mother

No terror, quando a fonte do mal provém da psicopatia humana, é corrente tomar uma de duas opções. Muitas vezes o assassino, mesmo que sugerida a causa do distúrbio, age como mera máquina da matar, transferindo a psicologia para a faca ou para a motosserra (Michael Myers ou Leatherface) e fazendo do filme um correr de perseguição e vísceras. Essa é uma opção. A outra é aquela que transfere a psicologia do mal para o quotidiano do psicopata, advindo daí muitas vezes quer a fonte do seu trauma, quer a total inconsciência dos seus tresloucados actos. É por esta segunda via que o jovem de 26 anos, Nicolas Pesce, vindo de um carreira até então feita no universo dos videoclipes, resolve seguir ao estrear-se no cinema com este The Eyes of My Mother(Os Olhos de Minha Mãe, 2016).
Do quotidiano da menina Francisca (não confundir com a outra Francisca do cinema português) faz parte uma mãe de origem portuguesa e com formação em cirurgia que conta à filha sobre as perturbações da vista que teve São Francisco de Assis (que o levaram à cegueira e à morte), das relações entre solidão e psicose e que ainda lhe ensina, nos tempos livres, a extrair os olhos às vacas. Bastam estes elementos para perceber que todo o filme se irá construir sobre o tema do olho. Não apenas nos planos buñuelianos dessas referidas operações, como mesmo em tudo aquilo que não se vê. Não se vê vivalma no espaço rural habitado pela família de Francisca (e só a televisão fala, praticamente), as vítimas vão deixar de poder ver, assim como a própria Francisca não «vê» a dimensão dos seus actos.
Ainda sobre o tema da visão há que dizer que The Eyes of My Mother, sendo um filme curto – quer no seu orçamento, quer mesmo no alcance do seu episódio de terror gótico – usa o preto e branco para gerir de forma mais hábil o que é para ver. O sangue confundido com a água leitosa da banheira, a papa que há para comer que pode muito bem ser feita de ratos mortos, os saquinhos de conteúdo implícito/explícito, o fundo sombrio do celeiro ou o breve brilho dos esqueletos. Da ausência de cor nasce assim a compensação de uma história de desarranjo mental que se prolonga nos planos das linhas oblíquas, nos pontos de vista aéreos ou distantes da violência prestes a acontecer (a interessante sequência da morte do assassino da mãe com o trabalho sobre o som), na tranquilidade suave do horror. Essa qualidade «grim» que possui todo o filme faz com que em vários ocasiões se sinta a falta de antagonismos à altura capaz de gerar um maior interesse no espectador, além da composição sugestiva que estende o realismo a seu belo prazer: lembro a cena em que Francisca dança uma música de Amália enquanto o cadáver do seu pai e uma boneca assistem à bonita performance.
Por tudo este cumular de elementos sugestivos e ambientais várias conclusões se podem tirar. A relação entre o drama e o horror e o uso do preto e branco fazem lembrar outra estreia, a de Ana Lily Amirpour em A Girl Walks Home Alone at Night (Uma Rapariga Regressa à Noite Sozinha a Casa, 2014). Depois, a relação familiar de Francisca oscila entre uma versão estática de The Texas Chain Saw Massacre (Massacre no Texas, 1974) e a conservação dos valores e dos corpos no muito conhecido Motel Bates de Psycho (Psico, 1960). Já as relações «extra-curriculares» de uma amizade extrema provém de filmes como Misery (1990) de Rob Reiner ou a mais recente folia do torture porn, neste caso, um slow torture porn.
Resta-me terminar fazendo um pequeno exercício de especulação: o que terá motivado a decisão de estrear The Eyes of My Mother em Portugal? Terá sido o facto de Nicolas Pesce filmar cabeças de vaca na mesa da cozinha como uma elegância fora do comum? Talvez sim. Ou terá sido a produção da «Borderline Films» de Sean Durkin, Josh Mond e Antonio Campos? Talvez também. Mas a aposta mais certa é que o filme estreia em Portugal por causa da jovem protagonista Kika Magalhães, actriz portuguesa, que com os seus olhos grandes e gestos subtis, aporta alguma da dualidade que o filme projecta algures entre o drama familiar e a tragédia sanguínea.
Curiosamente, sendo The Eyes um filme espelho de Portugal ele é também um filme que usa os diferentes sotaques portugueses (o brasileiro, a açoriano, o do continente) de forma indiscriminada, além de usar o fado como raccord para construir o sinistro, uma música provinda de um país que abre as suas vacas para ver o que têm dentro. Daqui se presta a perguntar se o «português» enquanto todo, no filme de Pesce, não ocupa o lugar desse espaço mítico e grotesco de onde se serve este singelo pesadelo.

Lei do clímax

Lei do clímax: don't give a fuck+shoot+reload+black.


Poesia


sábado, 18 de fevereiro de 2017

Estou a pensar numa iniciativa legislativa que proíba a lavagem de tachos onde foi cozinhado arroz após uma hora de serem utilizados. O arroz que por lá fica, só e abandonado, enrijece e depois é o costume, os interesses instalados, os lobbies, os preconceitos. Tudo isto faz com que seja muito difícil, mesmo que usemos esfregão forte e anti-corrupção, remover esses arrozes do sítio onde um dia foram felizes, de onde estão hoje instalados e apegados à mais básica das rotinas. É preciso terminar com esta pouca vergonha. Quem está comigo?

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O modo alemão de acumular riquezas

«Pois bem, é exactamente como nos livrinhos ilustrados de moral alemã: em cada casa há um Vater (pai), terrivelmente virtuoso e extraordinariamente honrado. Tão honrado que temos medo de nos chegarmos a ele. Não posso suportar as pessoas honradas que inspiram medo. Cada um destes Vater tem a sua família e à noite, reunidos todos eles, leem em voz alta livros instrutivos. Sobre o telhado da casa rumorejam os ulmos e os castanheiros. O Sol que se põe, a cegonha no telhado, tudo isto é extraordinariamente poético e comovedor.

(...)

Bom, aqui todas as famílias se encontram sob o jugo e a submissão mais completa do Vater. Trabalham como bois e acumulam dinheiro como judeus. Suponhamos que o Vater reuniu já uns tantos florins e espera legar ao primogénito o seu táler ou a sua parcela de terreno. Para isso, não dá qualquer dote à filha e esta fica para tia. Para isso vende o filho mais pequeno como criado ou como soldado, e este dinheiro é incorporado no capital familiar. Faz-se assim, acreditem-me. Procurei informar-me. E fazem tudo isto movidos pela honradez, por um exaltado espírito de honradez, até ao ponto de o filho mais pequeno, que foi vendido, estar convencido que o venderam movidos pela honradez. E isto é o ideal: a própria vítima alegra-se por ter sido oferecida em holocausto. O que acontece depois? As coisas também não correm de feição para o primogénito: há ali uma certa Amalchen à qual o seu coração de sente unido. Mas não pode casar-se porque não arrolou os florins necessários para fazê-lo. Ficam também à espera, digna e sinceramente, aceitando o holocausto com um sorriso nos lábios. Amalchen continua extenuada e fraca. Finalmente, ao cabo de vinte anos, os bens foram multiplicados: dispõem de florins honrada e virtuosamente poupados. O Vater dá a benção ao primogénito, de quarenta anos, e à Amalchen, de trinta e cinco, peitos flácidos e nariz avermelhado. Chora, dá-lhes conselhos e morre. O primogénito transforma-se, por sua vez, num virtuoso Vater, e a sua história volta a repetir-se. Aos cinquenta ou sessenta anos, o neto do primeiro Vater dispõe, na verdade, de um capital considerável, que lega ao seu filho, e este ao seu, e assim ao cabo de cinco ou seis gerações, deparamos com um barão Rothschild ou um qualquer Goppe & Ca. Não é um espectáculo grandioso? Um trabalho permanente de cem ou duzentos anos, paciência, inteligência, honradez, carácter, decisão, cálculo, a cegonha no telhado! Que mais querem? Porque nada há superior a isto, e a partir deste ponto de vista começam a julgar o mundo e a castigar os culpados, quer dizer, aqueles que se diferenciam deles um milímetro que seja. Eis a questão: prefiro a agitação do estilo russo ou enriquecer à roleta.»

in «O Jogador» de Fiódor Dostoiévski