sábado, 31 de janeiro de 2015

Advogado do diabo

Fascinam-me os advogados do diabo. Aqueles que, por natureza retórica ou fraqueza interior, fazem do debate um mero mecanismo de poder. Aqueles que, procurando o contrário de A para se fazer valer perante o autor de A, podem até mentir. E mentir-se quando num súbito instante se transformam em defensores da causa de anti-A. Há que dizê-lo, que, por vezes, a necessidade do argumento contrário fomenta a convicção. Mesmo assim, a procura da batalha da discussão como protótipo de sociabilidade, na qual há que emergir um vencedor, não pode fazer esquecer que o conteúdo daquilo que se diz, frequentemente exige aquilo que se chama: o "concordar". Os advogados do diabo são incapazes de concordar pois isso é dar a mão à palmatória.

Se fizer o exercício de ser advogado do diabo de mim próprio posso dizer que talvez estes estejam, ao procurar o oposto, apenas a dar rugosidade à conversa, a promover um instante de dificuldade que entretenha a mente. Contudo, se esse "esforço" for canalizado para a procura do que se aceita e não se aceita numa posição contrária, poder-se ia obstar à imobilidade do conhecimento. O advogado do diabo odeia conhecer o novo, pois essa "invasão" da sua safety zone implica encontrar novos anti-corpos que o combatam e que promovam o antigo e já despedaçado eu como ditador absoluto de uma nova população de eus, clamando revolução.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Love laughs at locksmiths


Cops - Buster Keaton e Edward Cline (1922)

No primeiro plano de Cops (1922), Buster Keaton surge enquadrado sob grades de ferro. São de um jardim mas ele não está menos preso, uma vez que o seu amor, que se encontra à esquerda do plano a falar com ele, lhe diz que só quererá casar, caso este se torne um big business man. Nos outros 21 minutos do filme, Keaton e Edward Cline encenaram algumas das mais engenhosas cenas de perseguições com centenas de polícias de fato negro a irromperem em correrias desenfreadas pelo quadro tentando alcançar aquele que pensavam ser um anarquista bombista que lhes perturbou a parada policial. Ou seja, um dos emblemas da história do cinema no retrato (pitoresco, é certo) da perseguição policial, persegue incansavelmente alguém que preso estava já de início. O falso criminoso, que falsamente rouba um homem na rua, que falsamente desaparece com as coisas de um casal em mudanças, que falsamente manda uma bomba (da qual se havia servido antes como isqueiro) em praça pública, é o verdadeiro preso que, no final (escapando àqueles que o podem prender materialmente, mas não escapando da prisão sob a qual se encontrava já) decide entrar de livre vontade na esquadra. Junta-se assim às centenas de polícias que ele próprio havia prendido na prisão e resta-lhe ali ficar, sem amor, sem esperança, até que surja o "the end" sob uma lápide. 

Cops é uma comédia sobre a libertação, sobre a incapacidade de escapar. Tudo no filme supõe o avanço, a corrida, a progressão mas pouco ou nada sai do sítio. Por isso também empaca o cavalo que Buster compra erradamente a um transeunte e que lhe leva as coisas que erradamente leva como suas. Por isso liberta-se ele de um baú onde num gag um agente o achava preso. Mas o baú não tinha fundo e Keaton escapa. Ninguém pode prender Keaton, assim como ninguém consegue libertar Keaton. Mas no intertítulo inicial, mesmo antes das grades, já estava tudo explicado: love laughs at locksmiths.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Apareçam


quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

The Theory of Everything

Rezam as boas línguas que quando Stephen Hawking viu finalmente The Theory of Everything (A Teoria de Tudo, 2014) a sua biografia baseada no romance da sua ex-mulher “Travelling to Infinity: My Life with Stephen”, uma enfermeira limpou-lhe uma lágrima que escorria do seu rosto. Não era para menos até porque James Marsh que até trabalha sobretudo no registo documental [em 2008 ganhou um óscar por Man on a Wire (Homem no Arame)], tendo visto o telefilme da BBC de 2004 com Benedict Cumberbath a fazer de Hawking e o de Errol Morris de 91, A Brief History of Time, decidiu apostar em três focos menos explorados: a decadência de um corpo afectado pela “doença do neurónio motor”; os feitos de Hawking no campo da física; e, por fim, a história de amor que o uniu durante 25 anos a Jane Hawking. Sobretudo o primeiro e o último são temas universais que Marsh sabia poderem servir um filme de cariz mainstream que homenageasse a vida do génio britânico. E homenageou.

Além do affair das lágrimas que certamente se multiplicarão por esse mundo fora com as mensagens de código universal “enquanto há vida há esperança” ou o verdadeiro “amor que triunfa apesar das adversidades”, há uma outra questão bem mais bicuda que o filme de Marsh suscita. Aos olhos do leigo, assim como é tentador descobrir como passa o artista da inspiração criativa à genial criação, também é grande a vontade de perceber o enigma da passagem do homem comum ao homem acima dos mortais. Como mostrar esse passo de gigante, a visualidade do que é isso de ser um génio? Neste aspecto não há nada de especial por aqui a reter ficando apenas a ideia de que o génio que o espectador quer que se lhe apresente é esse homem de todos os dias que ama, que brinca com os filhos, que se compromete com uma causa. É a humanidade em todo o seu esplendor, de novo.

Este ano se não for Micheal Keaton a ganhar o óscar [na narrativa tradicional do cameback do actor tornado mito que retorna meio amassado das trevas: há uns anos foi Mickey Rourke com The Wrestler  (Wrestler, 2008), lembrem-se] a luta parece ser entre quem é o mais génio? Ou, perdoem-me a expressão, quem é o mais deficiente. Na corrida estão Eddie Redmayne na cadeira de rodas como Stephen Hawking e o já referido Benedict Cumberbath, retratando o olhar vago e maquinal de Alan Turing. Como já tinha escrito a propósito de The Imitation Game (O Jogo da Imitação, 2014) falamos destas prestações como de corpos especiais, mais do que seres de estirpe superior.


terça-feira, 27 de janeiro de 2015

E eu cuspo sobre o seu caixão de veludo viscontiano...




Louis Skorecki - "Contre la nouvelle cinéphilie" (1978)

Mas quem é você, afinal?



Louis Skorecki -
"Contre la nouvelle cinéphilie" (1978)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

O multitasking, a adição e, claro, ratinhos