quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Arquitectura

Mandei os planos da tarde de hoje às urtigas para ler furiosamente "Jóquei" de Matilde Campilho. Jorra dele a alegria vistosa da vida, aparentemente sem caminhos impossíveis: do Cristiano Ronaldo às finanças, do aniversário do super-homem às revoluções como "lugares certos para a descoberta do sossego".

De todos estes trajectos-sentidos há um, breve poema, que, sem ser sequer dos melhores, resume aquilo que também sinto, desculpem-me, pela arquitectura.

"Aprenderei a amar as casas
quando entender que as casas
são feitas de gente
que foi feita por gente
e que contém em si a possibilidade 
de fazer gente."

Agora que penso talvez fosse também possível substituir a palavra "casas" pela palavra "política".

A primeira hora em que o filho do sol brincou com chumbinhos



"Meu querido, as árvores falam. Os tigres correm olimpíadas em pistas muito mais incríveis do que aquelas feitas de cimento laranja. Usain Bolt vezes vem, o sorriso de Usain Bolt vezes mil. A matemática não é difícil se você comparar tudo ao aparecimento de um cardume. Alguns frutos nascem no chão, outros caem nos ramos. É preciso estar atento. Certas canções despertam em nós a vontade de uma história que já aconteceu mas que não vai acontecer mais. Algumas histórias têm a duração exata de uma música rock, outras se dividem em cantos. No intervalo dá para comprar pipocas. Poucas pessoas contaram as riscas de uma zebra, mas todos os que o fizeram regressaram diferentes. O alvo de um humano está no terceiro olho e um dia alguém vai explicar para você como afagar ele e onde ele fica. Nunca aponte ao terceiro olho, como aquilo é só cuidados. Algumas vezes vão te empurrar e você vai empurrar de volta, provavelmente vai até querer pegar uma pedra para jogar no peito de quem te feriu. Isso não está certo, mas é humano. Quase tudo o que é humano é justo, não deixe que ninguém te diga o contrário – só não vale enfiar o dedo no tal olho porque isso é igual a matar. A morte é o contrário da justiça. Os peixes respiram debaixo de água e se você mergulhar entre as rochas e se concentrar muito também vai conseguir. Ah é: os peixes brilham mais do que as chamas, e alguns deles vão morar dentro de seus pulmões. Segure-se. Faça por polir seu riso, principalmente ao entardecer. Afine diariamente a pontaria e reze para que nunca seja necessário o disparo. Não existe proteção melhor do que a consciência de que podemos decidir atirar ao lado. Sim, daqui a muitos anos você vai conseguir acertar direitinho nessa lata de coca-cola que a gente suspendeu no sobreiro. Só acho que que não vai querer. Também vai saber por que razão é melhor segurar uma arma descalço – é que é na terra que está a consciência do mundo, e é preciso escutar o seu ruído para agir em verdade. Saiba também, querido, que muitas vezes a sombra de um desenho é bem mais bonita do que o desenho que está à vista. É preciso estar atento, e descobrir o bichinho que se mexe debaixo da folhagem. Não o mate: se cubra de flores e entre para brincar com ele."


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Purgar




Em THE PURGE há uma visão para a sociedade "perfeita" de controlo e hiegienização de violência. O governo autoriza uma noite especial, doze horas, em que o homicídio é possível, legal e em que os instintos destruidores devem ser libertados para que tudo funcione pelo melhor nos outros 364 dias do ano. Set up que permite a celebração dionisíaca, de libertação dos constrangimentos civilizacionais e pulsionais. Quem quer dar um tiro ao patrão ou ao vizinho, (que esfrega na sua cara o sucesso no trabalho), só tem de esperar pela purga anual.

Se o terror é na sua essência também ele uma purga o espectador confrontado com esta sinopse pensa duas coisas. Primeiro, com pudor, vai reflectindo na contenção da violência como o máximo do controlo possível de uma estrutura societária que não se poupa a hipocrisias para manter o equilíbrio do ecosistema. Depois, esse mesmo espectador pega numa faca, corta essa glândula parasita chamada consciência, e começa a imaginar que o filme James DeMonaco pode e deve mostrar todo o caos que essa purga permite. O terror só teria a ganhar.

Há uma certa desilusão então quando a opção é pela situação do encarceramento caseiro (um pouco como a esquadra de Carpenter) de uma família que não precisa de usar a purga para se libertar. Nessa invasão, os micro acontecimentos não estão à altura do contexto de base, as máscaras dos invasores querem sublinhar desnecessariamente o sadismo de toda a situação e o alvo principal, um negro sem-abrigo, surge apenas como clarificação pleonástica da discriminação e do diferente.

Tudo somado é o caos contido, o caos possível que parece, contudo, nos ser revelado pela via da ordem. Ainda assim darei uma chance ao segundo volume da purga, ao que parece transportada para o lá fora, o lugar por excelência de Dionísio e da libertação.



 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

proporcionalidade

Qualquer pequena acção precisa de um grande objectivo. 
Qualquer grande acção precisa de um pequeno objectivo. 

Qualquer objectivo dispensa a violência da intenção.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Razões


"Estou metido até ao pescoço nos meu problemas; a minha teoria, segundo a qual o mundo do bem e mal é um mundo unicamente aparente e perspectivista, representa uma inovação tal que às vezes fico completamente pasmado." (Nietzsche, carta a Overbeck, 1884)

"O drama neste mundo é que cada um tem as suas razões." (Renoir, 1937)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

the geranium didn't look like a flower



Um dos primeiros contos que Flannery O' Connor escreveu é sobre um gerânio e uma cidade com pessoas umas a olhar para as outras através das janelas dos prédios. O gerânio parte-se e com ele o passado: de uma pensão de velhas e caves definidas (sem corredores infinitos na horizontal ou escadas intermináveis como cavernas), de uma escravatura de caçadas mas sem palmadinhas nas costas do branco.

O presente surge assim já na velhice das flores partidas (que não são flores mas o rosto dos doentes ou a roupa alegre das velhas), das armas imaginárias e do ganhar alento para descer os degraus até à rua. Não se lá vai para reconstituir o gerânio despedaçado que caiu do parapeito da janela (vizinho descuidado) "with the roots in the air", mas para deixar que as costas sejas tapeadas pelo Outro subserviente, pela multidão de uma Nova Iorque acabada de sair de um postal.