segunda-feira, 13 de julho de 2020

Em criança, lembro bem da primeira vez que um adulto quebrou uma promessa que me havia feito. Felizmente foi já bem tarde. Ou não, pois que dela guardo memória de espinhos. Há realidades que parecem não ter nome na linguagem infantil. Quando as descobrimos, por exemplo, a mentira, a traição ou o engano, o choque é tão ou mais profundo por não termos ainda à nossa disposição palavras para delas dar conta.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

O poder e desalento da dessincronia


Que bonito, e ao mesmo tempo triste, é o final de "It Must Be Heaven", de Elia Suleiman. Um realizador que parece não poder filmar, mas que vai convertendo o seu olhar numa espécie de câmara ambulante. E o que vê ele? Uma juventude dançando, em êxtase, mesmo que, saiba ele - foi o cartomante que lho disse - vai existir um Estado da Palestina, mas já não será durante o seu tempo de vida. Um filme, portanto, acerca da dessincronia de um desejo, de um direito, de um modo de olhar. É um filme que faz pensar também na infância, quando olhamos e o mundo parece desajustado, tantas coisas para fazer, mas ainda não são para nós. “Lá havemos de chegar”, dizem-nos. No inverso, o envelhecimento também produz o maravilhoso e produtivo choque da dessincronia. O mundo parece ir encolhendo, sendo cada vez menos à nossa medida. O olhar de Suleiman é o de Tati, por outros meios, por outros tempos. Um mundo degradado, ruidoso, desatento, cada vez menos sincronizado com uma forma de vida na qual Suleiman foi crescendo e lançando as raízes de um olhar e de uma postura, críticas e construtivas. Por isso, tão certeiro o momento em que Suleiman deverá falar para um grupo de jovem estudantes e progressivamente vamos vendo todos de fatos, mascarados, estranhos cartoons ambulantes de um presente ao qual já pouco pertence. Por isso, tantos os momentos em que Suleiman pensa, a medo, ser o alvo das pessoas e não o é, ou, inversamente, quando o deseja ser e nele não reparam. Um filme feito por uma sombra? Por um olhar encolhendo? Ainda uma desincronia entre o silêncio e a palavra, magnificamente filmado nesse momento das palmas síncronas para não perder tempo para as palestras. Um mundo onde o ruído, o apoio sonoro à causa, ameaça a expressão da própria causa. Talvez que para Suleiman lançar "It Must Be Heaven" na estranheza deste mundo tenha como "missão" acarinhar o espaço da dessincronia naquilo que tem de produtivo, uma distância para sentir, para julgar o que vamos vivendo.

domingo, 5 de julho de 2020

O poder do ponto final: um chuto no traseiro. A sedução de uma vírgula, espera só um pouco por mim. Que me dizes, ponto e vírgula? Quero tudo para mim, ter-te e não te ter. Que escondeis vós, oh benditos parênteses? (Um sonho que se vai adiando). Malditas aspas, pior que as melgas. Não nos trates mal, só não gostamos de javardice, cada um a seu "dono". Sobes comigo para um copo, travessão? Hoje não estou a fim, prefiro começar nova relação. Ponto de interrogação, questiono a tua presença. Sou como as crianças, sempre a querer saber porquê. Excitas-me, exclamação! Compreendo, mas eu elevo o nível quase sempre para esconder a fragilidade. Onde vão, reticências? Ainda não sabemos, levamos tempo a decidir...

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Quo Vadis multidão?

Estamos em 1912 ou 1913. Enrico Guazzoni realiza "Quo Vadis?", a partir do romance de Henryk Sienkiewicz. Este plano, perto do final do filme, é o momento trágico no qual Petronio, sentenciado à morte por Nero, decide antes disso cortar os seus pulsos juntamente com a sua amada, a sua escrava Eunice. Este é o seu beijo derradeiro antes de serem amparados, já mortos, pelos convidados do banquete de despedida. Uma das marcas que sinalizou o início dos blockbusters - os filmes monumentais italianos mas também em Griffith ou DeMille por exemplo - era o talento dos seus realizadores para encenar multidões. Planos com imensa gente, uma gestão das diferentes linhas de movimento de pessoas, animais, lutas, acenares, correrias, que podíamos ter num plano, na maioria das vezes ainda estático do ponto de vista da câmara. Se pensarmos nos blockbusters dos últimos anos a marca deixou de ser a possibilidade de encenar a multidão (ela foi-se do cinema, era cara e há o CGI). Por exemplo, neste plano de "Star Wars: A Ascensão de Skywalker" temos uma multidão de naves. Em teoria as pessoas/seres que as manipulam estão no seu interior. São elididas ou pressupostas. Essa passagem do plano cheio de gente ao plano cheio de máquinas como condição do "filme monumental" é um reflexo sobre o qual valia a pena pensar mais e melhor.






quinta-feira, 2 de julho de 2020

O realismo de Sísifo



 


Segunda-feira: lavar a louça, removendo as crostas de comida ressequida dos pratos. Terça-feira: passar a ferro a camisa azul. Quarta-feira: trocar os lençóis sujos da cama. Quinta-feira: lavar as janelas. Sexta-feira: descascar legumes para a sopa. Sábado: aspirar e limpar o pó. Domingo: passar lixívia na sanita. Segunda-feira: lavar a louça, removendo as crostas de comida ressequida dos pratos...


quarta-feira, 1 de julho de 2020



terça-feira, 30 de junho de 2020

Lembram-se disto

Cá está!