segunda-feira, 6 de julho de 2015

domingo, 5 de julho de 2015

Não, não, não, não.

sábado, 4 de julho de 2015

Mad Max




Quando o louco Max, que aqui o é pouco, e Furiosa, regressam à casa de partida não podemos deixar de sorrir ao perceber que George Miller está profundamente consciente de que a sua saga tem hoje espaço apenas na rota circular de uma montanha russa. Depois podem acrescentar-se pensamentos sobre a busca constante de si próprio, ou até da felicidade como caminho e não como meta, mas sem esse disfarce o que há por aqui é o elogio da cinética, onde o sangue, a luta, a acrobacia são apenas mais elementos de uma orgiazinha que se pensa a si própria muito selvagem. Nesta ideia de um cinema convertido em atracção de feira popular, com freaks e modelos ao som dos bandoleiros do heavy metal, há a tentação de pensar que o espírito barroco e pós-apocalítico da série se encontra em lifting, em actualização. Contudo, se bem estou lembrado, a bizarria do mundo já depois do mundo de Mad Max é que ela se dava a ver num espelho mais ou menos sereno para o qual se olhava e onde se via a diferença daquele que olha. A montagem "Furiosa" de Fury Road só mima o que já lá está, em que a "redenção", os espaços "verdes" da esperança, o "amor" são tudo apenas palavras lançadas para o abismo da velocidade e do avanço. Desta forma estamos sempre na ausência de diferença entre o "pós" e o "apocalíptico", resultando que as "wacky races" metálicas, os sentidos do desértico e do árido, se desvanecem, tornando-se este em mais um filme anónimo de acção. Tão concreto e superficial deseja ser que só a abstracção alcança. Entre o início e o fim, de facto, há só tempo que passa, sem marca, sem mácula. Sem avanço. 

Sobre a banda sonora, a história é outra. Genial, genial é o que vos digo.

sexta-feira, 3 de julho de 2015

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O jogging e as erecções


Tenho de confessar-vos que tenho por estranho hábito o de manter regulares a inspiração e a expiração quando vou na rua a mais de 3 km por hora. Eu chamo a isto corrida embora desconfie bem que haja opiniões contrárias. Ia eu portanto ontem a subir e a descer costelas, ordenadamente, pela estrada da luz abaixo quando ouço na rádio as primeiras palavras inflamadas durante a apresentação aos sócios daquele outro treinador de quem já não se pode dizer o nome e que se chama Jorge Jesus. O tom assertivo de quem tinha acabado de chegar às bodas de Canã (alguém me diz se esta palavra sofreu alterações com o novo acordo ortográfico? Estou muito curioso em relação a isto.) fizeram-me desordenar a respiração, meter uma abaixo para os 2 km por hora e esboçar um ligeiro sorriso que coincidiu, pelo que me lembro, com uma espécie de pequeno arroto e uma ainda menor erecção (mas na palavra erecção posso manter os dois cês, não é? Se puder escolher, prefiro, pois fá-la parecer maior).

Chegando a casa vejo as imagens de tal evento e confirmo a expressão matadora de Jorge Jesus, que, enquanto salvava verbos de serem assassinados pela sua gramática, prometia que a água ia mesmo transformar-se em vinho, e portanto, o Sporting Clube de Portugal ia mesmo passar a ser novamente um dos três grandes. Qual dos três? Isso agora não vem ao caso. Mas não há-se ser difícil completar a charada. Desta feita, perante tais promessas o próximo ano avizinha-se extremamente rico para a vossa aprendizagem sobre a vida em geral (sobre a minha menos porque eu já sei o que isto vai dar). Mas para vocês apenas há duas hipóteses: 1) ou Jesus e São Virgulino inauguram mesmo uma nova fase no clube de Alvalade, culminando com o triunfo na Liga dos Campeões, provando-nos assim que o crime compensa (nada que o eurogrupo não nos tenha já ensinado); 2) ou toda esta história de resgates, sms encabotados e rasteiras em pré-época terá um desfecho justo e cristão. Os maus serão castigados e cairão numa das sete sarjetas do inferno, momento no qual Bruno de Carvalho engordará mais um quilo, dirá que todo o sistema sub celestial se encontra em plena cabala contra o clube e porá mais um post no seu facebook denunciando, para quem quiser ver, o seu pé atolado em caca até à eternidade.

Em qualquer destas duas opções voltarei a utilizar o meu velho ipod para fazer jogging uma vez que este não apanha rádio.

Igrejas e Bordéis

"A igreja e o bordel chegaram ao mesmo tempo ao Oeste. E ambos teriam ficado horrorizados se soubessem que não passavam de diferentes facetas da mesma necessidade. Porque, na realidade, ambos pretendiam alcançar o mesmo fim: os cânticos, os ritos, a poesia da igreja ofereciam ao homem o esquecimento da sua tristeza; o bordel, esse, oferecia-lhe outros esquecimentos. As diversas seitas chegaram de cabeça levantada, cheias de suficiência,e seguras da sua missão. Desprezando as mais simples leis económicas, mandaram construir igrejas que ainda não acabaram de pagar. Combatiam o mal, é certo, mas também se combatiam umas às outras com um vigor diabólico. Em nome duma doutrina, não havia nenhuma que não condenasse as outras às chamas do Inferno. Só numa coisa estavam de acordo: todas se gabavam de Serem fiéis intérpretes das Escrituras que definiram anossa estética e as nossas relações com os outros humanos. Seria necessário um homem sagaz para descobrir onde residiam as diferenças entre as seitas, mas toda a gente podia ver o que elas tinham de comum. Todas ofereciam a música, talvez não a melhor, mas qualquer coisa que dela tinha a forma e o som. Todas traziam, também, a consciência ou talvez fosse preferível dizer que aguilhoavam as consciências adormecidas... Não eram puras, mas possuíam um potencial de pureza como uma camisa branca que estivesse suja. E todos os homens se podiam apoderar do melhor para o fazer germinar em si. Quando o Reverendo Billing foi preso, verificaram que era ladrão, adúltero, libertino e zoomaníaco, mas isso não alterava o facto de ele ter comunicado muitas coisas boas a um grande número de fiéis. Prenderam o Reverendo Billing, mas o que nunca prenderam foi o que ele tinha libertado. E pouco importa que ele tenha obedecido a intentos impuros. Os seus materiais eram bons e o que ele construiu ainda se conserva de pé. Apenas cito o caso de Billing como um exemplo extremo. Os pregadores honestos tinham energia e eram dinâmicos. Combatiam o mal e expulsavam Satã de todos os lugares onde se introduzira. Poder-se-á talvez dizer que cantavam a verdade e a beleza da mesma maneira que uma foca canta o Hino Nacional ao som das cornetas dum circo. É possível mas ainda sobravam beleza e verdade bastantes e o hino era reconhecível. Contudo, as seitas fizeram mais do que isso. Criaram as bases da vida mundana no vale do Salinas. O jantar no presbitério é avô do clube local e as sessões poéticas que se realizavam à terça feira na cave da sacristia apadrinharam o teatro.
 
Enquanto as igrejas, carregadas do suave odor da piedade, investiam como ajaezados e impetuosos cavalos de cervejaria em dia de festa, a sua parente pobre entrava com pezinhos de lã, toda curvada e velada, para evangelizar os corpos. 

Talvez já tenham visto palácios de vício e de deboche no Far West truncado e artificial dos filmes; alguns até, podem ter existido. Mas não havia nenhum assim no vale do Salinas. Os bordéis eram calmos, ordenados e discretos. E, na verdade, se depois de terem escutado os gritos de êxtase dos fiéis, pontuados pelos acordes dos harmónios, ouvissem os murmúrios que saíam duma casa de prostituição, era natural que confundissem as identidades dos dois ministérios. O bordel era tolerado, mas não reconhecido."

John Steinbeck (A Leste do Paraíso)

quarta-feira, 1 de julho de 2015

O sotaque dos padres irlandeses embebeda



Calvary é um bom filme para explicar como o mecanismo do overwriting pode ser uma qualidade. Diálogos de um nível besta-metafísico, com uma estranheza linchiana a tentar controlar o riso do bizarro. John Michael McDonagh ao mesmo tempo que quer recriar o sacrifício crístico do padre James, coloca o magnífico Brendan Gleeson entre 12 lunáticos discípulos, cada um deles a muito bem poder matar um padre ao fim-de-semana. O filme tem uma dessas premissas genuinamente loucas e improváveis: um pecador confessa-se ao padre dizendo-lhe que sabe qual o sabor do sémen, que foi abusado repetidamente em criança por um seu colega eclesiástico e que por isso mesmo, no próximo domingo, vai matar o seu confessor, culpando-o pelos pecados do outro. A partir desta insanidade temos uma semana de calvário em que Brendan se vai preparando para a execução. O whowilldunit é nosso pois o padre sabe quem é o culpado. Mas o mais incrível em Calvary é que esta premissa doida, à primeira vista, comporta o "pecado" de ser demasiado subserviente à alegoria espiritual e religiosa que se concluirá no domingo seguinte. E até sabemos o local, na praia. Mas se nos pusermos a pensar um bocadinho, esta motivação vaga, displicente, serve apenas para desinvestir no thriller e apostar tudo na redenção. Qualquer um podia ter morto o padre James. Qualquer um podia não tê-lo feito. Tal é indiferente ante a forma como McDonagh joga o "erro" da escrita como trunfo. Desta forma, as cenas, verdadeiras set pieces de actuação e escrita (a cidade é pequena e o orçamento ainda menor, põe-no como evidência) podem muito bem deixar-se ir, resvalar ao ridículo, voltar à crise de fé e deixar que no final o espectador se sinta tão pecaminoso como qualquer das personagens. E sem saber bem porquê. Ou melhor, o único crime foi ter gostado de cinema e ter achado o sotaque irlandês algo que se bebe tranquilamente ao fim-de-semana em direcção à anestesia etílica.