quarta-feira, 14 de novembro de 2018

A Comunidade



"Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos, lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o vómito; fui até ás entranhas da Besta e não me arrependo. Nada sei do Futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi pior. Conheci gente estranha nesta viagem. Gente pobre: estúpidos de medo, doidos espertalhões, toscos patarecos, foliões e parasitas da Vida, parasitas (os mais criminosos, estes) chulos do talento próprio (por ex., o Manuel de Lima, o Vítor Silva Tavares, eu), desperdiçando tudo: as horas do relógio deles e dos outros, e os defeitos de todos, que tudo tem seu calor e seu exemplo; os frustrados falhados tentando arrastar os mais para o poço onde se deixaram cair por impotência de criar, lazeira ou cobardia (mas o coveiro nada perdoa!). Cadáveres adiados fedorentos viciosos de manhas e muito mal mascarados. Uma caca a respirar". 

Pergunto-me se será possível acabar de ler "Comunidade" e não ficar embasbacado, todo a tremer? Do murro na tromba, da felicidade por ter encontrado uma jóia como esta, uma obra-prima da literatura. De toda a literatura. Esqueçamos o batatal da nossa pequena existência e o à beira mar plantado. Ainda não sei o que me empolga mais. Por um lado, o sentir-me entrar naquela cama como uma entrada de rei no espaço de toda a humanidade - um livro que nos aproxima, a todos, um a um. Como se todo o espaço que nos liga fosse pouco, juntos, amontoados nas certezas daquilo que dá gozo na vida. Por outro lado, a forma como Pacheco nos mostra isso através do seu toque de Midas: convertendo o simples em opulento, a simplicidade em riqueza, o jacto de vómito, de merda, de mijo, nos líquidos literários da autenticidade, do que faz respirar, tremer, apreciar tudo isto. "Caralho estou vivo!" É isso que me apetece dizer depois de ler "A Comunidade".

Cubismo existencial



Há uns dias surgiu-me assim meio de improviso, num debate em que participei acerca do excelente Happy Hour (Happy Hour: Hora Feliz, 2015), a expressão “cubismo existencial”. O que queria defender era a capacidade do filme de Ryûsuke Hamaguchi sempre ir frustrando a nossa tendência de engavetar situações, de pôr de um lado as coisas melhores e do outro as piores. Tudo era possível, de todas as perspectivas, sem hierarquias, com todas as acções e suas consequências, umas boas outras más. Nada melhor do que tudo o resto. Ora, pegando num expressão trabalhada por filósofos como Étienne Souriau ou Bruno Latour – a noção de modo de existência – podemos ser tentados a adicionar algo mais a esta ideia de cubismo existencial. Tal como a noção de modo de existência precisa quer de uma forma específica de ser, quer de condições que veridicção, podemos acrescentar que ao cubismo existencial de Hamaguchi poderiam ser adicionadas as condições de percepção visuais de uma criança, tal como expressas neste Estiu 1993 de Carla Simón.

O fito da autora é autobiográfico. Um filme sobre uma menina de seis anos que perde a mãe (já havia ficado orfã de pai anos antes) e vai viver com o tio, sua mulher e prima para uma aldeia longe da sua Barcelona Natal. Podemos dizer que, narrativamente, o filme busca compilar pequenos episódios vividos por Carla na altura, misturados com sensações, emoções próprias das crianças. E depois um silêncio e mistério muito Víctor Ericianos. Podemos até ir ao ponto de perceber aquele Verão como o momento em que as lágrimas pela morte da mãe (as mesmas que, quando o filme abre, estão secas e invisíveis) hão-de sair cá para fora. Mas aquilo que deslumbra neste Estiu 1993 é precisamente a forma como reinventando o ponto de vista da criança, vamos tendo acesso a fogachos de mundo, de baixo para cima, a brincadeiras, a birras, a cenas incompletas. Ou fugas, asneiras, injustiças e, nos seus interstícios,  lá vem o “grande drama”, aquele que se vai instalando aos poucos, aquele para os quais os adultos vão e vêm como que sendo chamados, pontualmente, a uma boca de cena. Carla Simón ganhou um prémio para melhor primeira longa em Berlim e Estiu 1993 vai aos óscares em representação espanhola para um filme rodado em catalão (a arte prega destas partidas à política). Mas o que me parece mais relevante, e que proponho, é que vejamos esta obra como um certo modo do cinema esculpir a percepção infantil. De nos dar acesso a um cubismo perceptivo – tudo é vago e nítido, irrelevante e central ao mesmo tempo -, que é condição de veridicidade desse referido cubismo existencial que podemos ver em Happy Hour. Dois dos melhores filmes do ano que podem ser vistos como ponto e contraponto de um dado multi-perspectivismo, de uma relatividade que vai da couve à alface, do casamento ao divórcio, no espaço de segundos.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

imprecisões de Outono

A Alexandra do blogue imprecisões convidou-me, muito amavelmente, a ocupar o espaço dela com um texto. O tema era livre e como estamos no Outono... Obrigado a ela.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Os poemas que escrevo
são moinhos
que andam ao contrário
as águas que moem
os moinhos
que andam ao contrário
são as águas passadas.

Adília Lopes

terça-feira, 6 de novembro de 2018

(...) porém não acabaram aqui os problemas dir-se-ia que verdadeiramente começaram aqui porque primeiro os consensos foram difíceis escolheu-se finalmente do conjunto de propostas das escolas o começo de um texto mais antigo que era assim “as estrelas em seus halos brilham com brilhos sinistros”

Depois não foi fácil disponibilizar a verba necessária para a impressão do novo texto do exame foi necessário recorrer às farmácias que têm sempre remédio além do mais o papel de exame usado para o respectivo reclame estava mais que esgotado disse um irresponsável

É inacreditável mas nenhum analista tinha encarado a possibilidade é que elas vieram todas as estrelas nenhuma quis faltar ante um texto afinal de novo tão bisbórnia fizeram questão de vir levantar de nova a história do esplendor da sua tão alta costura

Roupas desassossegantes like divertir-se com os velhos amigos repor o seu nome e em nome de boa causa angariar fundos para o combate ao crime mostrar que os seus brilhos não eram nada sinistros lá estavam Sarah e Angelina e Zosma e Scheat e Natalie e Rosie e Rastaban e Achernar e Megan e Anna e Zaniah e Adara e Marcelo e Avigdor e Agena e Princeps e até Kevin e Nushaba e Dan e James e Albireo e Robbie menos envelhecido que já dois anos e Rihanna e Alhena e Charles e Jason e Hedwig e Rodrigo e Alioth e Mizar e Eric e Enriço e Mintaka e Clarence e Rafael e Raphaell e Marco e Lucy e Joachim e Altair e Marc e Steve e Rasmussen e Rosmarin e Menkar e Elton e Nick e Lusis e Anon e Danny e Chris e Andy e Armus e Angell e Norman e Harry e Mário e Markab e Markeb e Manu e Dave e Ascella e Malband e Hayley e Bos e Kifa e Perry e Brian e Berenice e Priscilla e Nelly e Lykke e Bungula e Kaspar e Arto e Chucho e Bellatrix e Earl e Lincoln e Igor e Bauke e Caphir e Kephir e Aaron e Castor e Pollux e Morrissey e Kazu e Dahib e Ellery e Gary e Valdir e Harvey e Cpula e Xanye e Deneb e Simon e Noah e Susan e Bem e Polis e até o António e Dubhe e Masha e Bella e Duda e Graffias e Karina e Nika e Hugh e Hamal e Samantha e Han e Khanmalia e Brandon e Ray e a Popa do Navio e Abraham e Santa Klau e Joy e Alex e Cynda e Jack e Larry e Jorma e Eddie e Jim e Scott e Burt e Dorothy e Jewell e Tori e Alanis e Nacho e Martin e Sorbo e toda a tão falada família e atrás delas os fãs de todos os lados like até da Austrália com grandes cangarus e do Alaska com karibus like centenas milhares muitos milhares e milhares de fãs incontáveis milhares e milhares like que além de rapidamente esgotarem todas as reservas de cerveja ocuparam todos os espaços disponíveis jardins praças escadinhas ruas calçadas betesgas até balcões particulares para as ouvir cantar nos auriculares as conhecidas canções like

Coffee tea or me tea coffee or fucky coffee tea or me coffee fucky or tea tea coffee or fucky me

ou seja em português porque também as e os havia nacionais estrelas e fãs

miro-te adrmiro-te abro-te abraso-te adivinho vinho abro-te e atravesso-te carinho-te atraio-te traio-te apre aproximo aproveito-te apalpo-te aparto profundo apeteço teço aperto-te toda a a parte like baby (…)

Alberto Pimenta in "al Face-Book" (2012)

domingo, 4 de novembro de 2018

"De acordo com Jesus Cristo, é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Quem já tentou fazer um camelo passar pelo buraco de uma agulha tem a noção exacta da dificuldade da tarefa, sobretudo se usou o mesmo método que se aplica às linhas, e que consiste em humedecer-lhes a ponta. Humedecer a cabeça de um camelo exige alguma coragem, muita salivação e um bom elixir oral. Cirilo de Alexandria acreditava que as palavras do Messias tinham sido mal reproduzidas. Em grego, o vocábulo que designa camelo (kamelos) é muito parecido com o que designa corda (kamilos), e quem registou as declarações do Senhor pode ter feito confusão (já se sabe como são os jornalistas). Uma vez que a corda também não passa facilmente pelo buraco de uma agulha, os ricos foram forçados a engendrar uma estratégia para entrar no reino dos céus, a saber: não possuir quaisquer bens em seu nome. (...)"

 Ricardo Araújo Pereira