segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Provérbios actualizados

Inspirado pela proposta do PAN de alterar alguns provérbios populares que sejam ofensivos para os animais, proponho que pensemos numa actualização de outros provérbios. Começa aqui um work in progress para o qual se pedem mais sugestões:

Mais vale um pássaro da mão do que dois a voar. // Mais vale uma PPP na mão, do que duas a voar.
É preciso é agarrar o touro pelos cornos. // É preciso é agarrar o político pelo saco azul.
Em briga da marido e mulher, ninguém mete a colher. //Em briga da marido e mulher, nem a PSP, nem os tribunais metem a colher.
Quem não está esquece. // Quem não está, marca-se presença na mesma.
A cavalo dado não se olha o dente //. A subornozinho dado, não se olha o dente.
Amigos, amigos, negócios à parte. // Políticos, políticos, negócios em toda a parte.
A galinha da vizinha é sempre melhor do que a minha. // O imóvel do vizinho paga sempre menos IMI do que o que eu tenho no Minho. 
Em terra de cegos quem tem olho é rei. // Em terra de ignorantes, quem tem olho é político.
Pau que nasce torto, nunca se endireita. // Político que nasce torto, nunca se endireita.
Sustentar burros a pão de ló. // Sustentar políticos a pão de ló.
Atirei o pau ao gato, mas o gato não morreu. // Atirei o imposto ao Estado, mas o Estado não cresceu.

Fazes-me falta: das asmas de Mozos aos bailes de Olmi

Queria contar-vos uma cena de …Quando Troveja (1999) que não me sai da cabeça. Creio, sem ter a certeza, ter sido filmada ali na Guerra Junqueiro, em Lisboa. Mas antes contextualizo: António foi abandonado pela namorada que o trocou pelo melhor amigo. Desde então, desgostoso, traído e infeliz, vive uma vida dos infernos. Copos e noitadas, trabalhos mal pagos para se sustentar, cigarros uns atrás dos outros, um fiozinho de esperança e a casa partilhada com Rosa, uma infeliz asmática que vive numa casa atravancada de cacarecos, aquários e penumbras. Nesta cena os dois, ele bêbado, ela doente, vão passear e param em frente de uma montra de roupas. O diálogo que se segue, transcrevo, porque qualquer descrição apressada seria crime de lesa-cinema:

Ele: “fazemos um casal de sonho: tu que nem um espantalho e eu a cair de podre”. (Vide still.) / Ela: “anda vamos embora!” (puxa-o pelo braço). / Ele, segurando-a ali em frente da montra: “Sabes uma coisa? Vou comprar-te um vestido”. / Ela, irónica: “boa ideia! Um vestido novo para o caixão”. / Ele, põe-lhe a mão no rosto: “Rosa, Rosa, ainda não é desta que vamos ao teu funeral. Vais ficar bonita, vais ver”. / Ela: “estou cansada, António”. / Ele insiste: “não estás nada! Precisas de um vestido de Verão. Não tens vestido de Verão! Dantes, you were always so charming!” / Ela, triste e tentando puxá-lo novamente para irem embora: “dantes eu era muita coisa. E tu tinhas juízo”. / Ele: “Nunca tive juízo no Verão, está demasiado calor”. / Ele dá-lhe uma volta e entra com ela numa loja, para logo voltarem a sair, a rir-se. Enganaram-se na loja. Não eram ali, os vestidos de Verão. / Cá fora de novo, a câmara mais perto deles. / Ela: “Anda vamos embora!” / Ele, bastante alto: “Rosa, Rosa! OS HOMENS, ROSA! Tu precisas de um vestido, ok?”. (O par voltará a entrar noutra loja mas o vestido não haveria de ser comprado. Um ataque de asma e têm mesmo de ir para casa.)

Este cena bela, brutal e directa de dois heróis amparados na “miséria sentimental” mostra bem que, no que diz respeito ao cinema, Manuel Mozos é o nosso poeta da desolação e da melancolia.


Aquela que por caminhos ínvios acaba por ser a primeira longa de Mozos a estrear em Portugal é uma obra sobre a ausência e a reconstrução, lenta, que se faz a partir da ruína que o amor pode deixar. Miguel Guilherme desenha na perfeição um desses heróis à Mozos, aqueles que parecem ser os “derrotados”, pára-raios das pazadas da vida. Contudo, ser poeta da desolação significa filmar contra a pena, a piedade, e aqui reside o grande twist artístico da sua obra. Mostrar plantas que, estando à beira de secar, sofrem o milagre e, como que inexplicavelmente, reflorescem. Seria um raccord surreal ligar esse viço à cena em que a diabinha onírica abraça António, numa chuva de alagar este mundo e o outro?

Uma das pistas do ressorgimento, da ressurreição de António, talvez esteja na forma como Mozos sempre sacode o tom trágico do seu protagonista – que se ouve que não “está nada bem”, que “dá pena”, que “só faz merda” – através de outros mundos. Um deles já referi: pertence à noite, à boémia, reconhecemos locais de diversão nocturna numa Lisboa por si documentada, mas também são os seus espaços de lar improvisado, um “tecto que apesar de tudo não cai”, o espaço ao qual voltar depois de se levar umas pêras – a tal casa de Rosa. O outro mundo é o do casal de duendes/diabos, amores impossíveis, espaço do onirismo, coro de fábula. E qual é a chave desse mundo? Um caroço e um calendário. António e Rosa comem cerejas e a dada altura ele atira um dos caroços ao calendário que tem uma imagem que devém plano: uma floresta de noite e névoa. Aqui está o casal mágico – Violeta e Gaspar (Anabela Brígida e Bruno Bravo) que seguiremos, paralelamente à vida de António. Vemos como se conhecem, em miúdos (uma presença curiosa do jovem João Salaviza, no papel de Gaspar) e como esse “amor” é maldito, dificultado pela mãe de Violeta. Uma das pistas deste mundo é essa superação da maldição – ao contrário do que acontece na realidade – que faz com que o amor destes triunfe. Este aliviar da tensão da desgraça, essa poesia que se filma a partir do trágico é portanto feita através de um vai e vem a esses espaços dos interiores. Espaços mentais, do poder da fantasia e da arte, espaços de fuga. Talvez só este ir e vir explique como é que Mozos consegue fazer um cinema que parte da encenação de situações de dor e piedade, e que chega ao seu contrário, a uma exaltação pela melancolia criativa, pela doçura cantada à beira do precipício. Pois uma coisa sabemos: no cinema de Mozos não se cai e, sobretudo, não se deixa cair.

E como é que esta ideia – de mergulhar a ferida no lago da reparação – tem alcance cinematográfico? No tal caroço de cereja. Este é apenas um dos raccords selvagens que mostram a montagem de um rebelde. Também me lembro de outra: a água podre do lavatório e o peixe do lago, que sabe a lodo. São detalhes de uma montagem rough, mata-cavalos, que não tem medo da elisão, dos espaços da obscuridade e da degradação. Venham elas de uma prótese de perna, uma asmática que se mija, umas mãos de bêbado que tremem, um trejeito na boca de Miguel Guilherme que não sabemos explicar se do whisky ou da dor. Straight to the point. Anti-herói: filhos como cancros, nuvens, névoas, xilofones, pesadelos realistas, insónias produtivas, moitas que roncam, lobos, trovões, sinos e preservativos. E quando alguém cai, podia ser o nosso herói. Ele próprio o diz. Mas não, como já disse, no cinema de Mozos não se cai. Levita-se. Por milagre? É o poder gravitacional da melancolia, da delicadeza. Quando tudo desce, a câmara sobe e “um passo, outro passo e depois…”



E se falava desse ir e vir, há também um ir e voltar. Uma espécie de dança. E entro assim, num outro filme que discorre sobre a falta que pode fazer o amor, a separação. Falo da obra prima de Ermanno Olimi, I fidanzati (Os Noivos, 1963). O filme costuma ser emparelhado numa trilogia acerca da realidade laboral italiana do pós-guerra, e em que este seria o último tomo. Os outros dois, Il tempo si è fermato (1959) e Il posto (O emprego, 1961). Aliás a comparação com este último é bem interessante pois o seu herói, o jovem Domenico (Sandro Panseri) acaba por funcionar como uma versão mais nova de Giovanni (o também não actor profissional, Carlo Cabrini). No filme de 61 o rapaz vem para Milão trabalhar numa empresa e acaba por encontrar uma hipótese de amor, já em I fidanzati o movimento é inverso: Giovanni , já na casa dos 40 tem de se afastar da noiva e vir trabalhar para uma fábrica no sul, na Sicília. Como refere o próprio Olmi numa entrevista, o que estava em causa em ambos o filmes era a perturbação da divisão de uma certa paisagem rural e artesanal da Itália, com o boom económico do pós-guerra e a sua industrialização. A transformação que havia sido filmada em Il posto aqui tem uma continuação, nomeadamente nos efeitos colaterais dessas perturbações nas comunidades, na forma como os casais/famílias se podem separar em virtude do trabalho que passa a implicar deslocação. Aliás, um filme chave dos anos 60 italianos aborda precisamente esses efeitos de deslocação, de uma certa “orfandade” civilizacional, fruto de transplantes desta natureza. Falo de Rocco e i suoi fratelli (Rocco e os Seus Irmãos, 1960) de Luchino Visconti.

Quanto às influências de Olmi, elas não podiam ser mais claras. Quem passar os olhos pela sua filmografia percebe como o apelo de um olhar documental pesou na sua carreira. Naturalmente que Rossellini e Pasolini são os nomes que melhor configuram o cinema nessa relação com a realidade, não como uma forma de fugir a esta, mas de a compreender. Como em Roma città aperta (Roma, Cidade Aberta, 1945) ou Paisà (Libertação, 1946)], por exemplo, se descobre o cinema que há nas ruas. A viagem de Giovanni para o Sul – pelas suas festas tradicionais onde todos olham e dançam perante a câmara, pelos quartos atravancados, pelas tempestades de ferro e pinturas industriais dessa nova realidade metalizada das fábricas – é no fundo uma espécie de revelador emocional de uma relação que ficou em pausa. Por isso, me parece fazer sentido emparelhar o filme de Olmi ao de Mozos, sobretudo na forma como ambos estão a filmar um herói a quem lhe falta algo (ou alguém). Mas enquanto a estratégia de Mozos é, como escrevi, mais interior, de uma falso afogamento em si mesmo e nos seus potenciais oníricos, a do italiano permanece uma resposta exteriorizada. Uma balada de observação (de resto, já era o olhar incrédulo e humilde de Domenico que preparava o de Giovanni) que é também uma forma de procurar em si o espaço que deve ocupar. O dele na nova realidade e da noiva Liliana (Anna Canzi) nele próprio.

Outro elemento comum nestas duas obras de “resposta” à ausência é a dimensão transportadora da montagem. A de Mozos, já o disse, opera esse ir e vir entre mundos. Em I fidanzati estamos num certo território modernista de estilhaçamento do tempo, de trabalho sobre a memória. Em muitos momentos, a montagem agrafa tempo e espaços que não existem na realidade exterior, mas apenas numa visão subjectiva, num rememorar. Três exemplos de entre muitos. O primeiro é um raccord impossível entre um homem que cai na referida festa siciliana e o pai de Domenico que vemos levantar-se da cama no seu lar. O segundo pertence à maravilhosa sequência de abertura, a do baile, no qual os olhares tristes do casal de noivos e os momentos de dança vão fazendo aparecer, lentamente, os motivos de tal tristeza. A montagem entrecorta, sempre com a mesma música de baile, o serão aos momentos do passado em que Domenico é chamado pelos patrões com a proposta de ir para longe trabalhar e a conversa que este tem com Liliana. O último surge já quase no final, quando o casal de noivos trocam cartas e Olmi os vai aproximando, como se caminhassem na direcção um do outro, embora estejam a muitos quilómetros de distância. Montagem com poder de atracção magnética, como é o poder de evocação da literatura epistolar.

Evocação é uma palavra importante para definir I fidanzati. Sendo um filme sobre a memória, as imagens juntam-se para Olmi para dar uma certa visibilidade à lembrança, alternando momentos do presente e do passado. Podemos dizer, creio, que aqui a música acaba por funcionar como o grande combustível da lembrança. Em muitas cenas ela faz aparecer, isto é, evoca, uma lembrança ou assedia mesmo para uma acção. A maravilhosa abertura do baile, não por acaso é toda ela começada em silêncio. Ouvem-se passos, os homens e as mulheres posicionam-se, a câmara idem, os pós lançam-se à pista de dança. Depois chega o feiticeiro do ritual: o pianista cego que prepara o piano, que se prepara para dar corpo à música. Ou seja, o espectador espera pacientemente pela música, e é quando surge que ela vai fazer aparecer toda uma narrativa: do casal, dos grupos que dançam, da já referida proposta laboral. Numa cena adiante, Domenico começa por ouvir uma música no seu quarto de hotel e depois resolve sair para ir beber um café em frente. Só aí percebemos que a música vem de um radiozinho de pilhas no próprio estabelecimento. Contudo, Olmi ao dar-nos a música num outro espaço, muito antes, ultrapassa a convenção realista, mostrando o poder assediador, enfeitiçante da música. Música que faz aparecer na memória, música que faz fazer. Talvez esse fosse o poder originário da música e da dança dos salões de baile da altura, únicos momentos em que os casais se podiam tocar.

Olmi era um artesão do cinema e como tal I fidanzati não deixa de parecer como uma espécie de dança artesanal que se vai prolongando. Uma dança na qual o par de fidanzati se afasta, perdendo fiducia, para no final reganhar a tal confiança, em nova dança. Como alguns viram era esse regresso meio bressoniano: O Jeanne, pour aller jusqu’à toi, quel drôle de chemin il m’a fallu prendre! Como podemos de certa forma falar de drôle de chemin para António que depois de dançar com a perdição e o álcool acaba abraçado ao anjo de sombrinha vermelha e uma nova relação. Nesse caminho drôle, Mozos ri-se na cara da perdição e Olmi mostra-nos o cão que entra na igreja fazendo distrair os meninos, as partidas dos colegas de trabalho, o pai bêbado a olhar para a câmara ou mesmo a vizinha com os calores. Uma dança de alegria e melancolia, como um poderoso licor que fôssemos bebendo e saíssemos embriagados e ressacados de vida, embriagados e ressacados de risos e lágrimas. Mas sempre dançando. Sempre.



domingo, 9 de dezembro de 2018

Leonardo Da Vinci não era do benfica

Creio que Leonardo Da Vinci, numa das suas famosas fábulas, terá escrito avant la lettre sobre a crise recente do Benfica, sobretudo à sombra do que também sucedeu no Verão ao rival de Lisboa. A fábula intitula-se: "A Águia" e passo a transcrevê-la, tomando a liberdade de substituir a palavra mocho por leão e duas ou três nuancezinhas mais. Aqui vai:

«Certo dia, uma águia, olhando lá de cima do seu altíssimo ninho cá para baixo, viu um leão.

—Que animal gracioso! — Disse para consigo —. Não deve ser um igual a mim.

Picada pela curiosidade abriu as suas grandes asas e, descrevendo um enorme círculo, começou a descer.

Quando estava perto do leão, perguntou-lhe:

—Quem és tu? Como te chamas?

— Sou o leão — respondeu a tremer o pobre bicho, tendo esconder-se atrás de um ramo.

— Ah, ah, que ridículo que tu és! — Riu a águia dando voltinhas à roda da árvore —. És todo olhos e pelo. Vamos a ver — continuou, pousando num ramo —, vejamos mais perto como é que tu és feio. Deixa-me ouvir melhor a tua voz, terei que tapar os ouvidos,

A águia, entretanto, ajudando-se com as asas, procurou abrir caminho pelo meio dos ramos para se aproximar do leão.

Mas entre os ramos da árvore um camponês tinha posto umas varias ligadas umas às outras e espalhara nas mais grossas abundantes quantidades de visco.

A águia, de repente, ficou com as patas coladas à árvore e quanto mais se tentava libertar mais penas se pagavam ao visco dos ramos.

O leão disse:

—Águia, daqui a pouco virá o camponês [vulgo Ministério Público]. Ele agarrar-te-á e fechar-te-á numa gaiola. Tu que viveste sempre no céu, livre de perigo, que necessidade tinhas de descer tanto para te rires de mim?»

sábado, 8 de dezembro de 2018

«É pá! Nem me digas isso, pá, o Namora é abaixo de cão, nem é abaixo de Namora, é abaixo de cão, isso eu escrevi! E, aliás, ainda por cima é gatuno, roubou lá umas coisas ao Virgílio Ferreira. Nesse ponto o Virgílio Ferreira tinha uma posição de grande valor intelectual e bagagem ensaística. Agora foi ultrapassado por este, o Saramago, que é muito mais novo. É inteiramente justo. Eu comprei o "Evangelho", ele costumava-me mandar, mas eu comprei: li duas páginas e depois fui ver que faltavam ainda 500 ou 400 e não li mais nada.»

Luiz Pacheco in "O Crocodilo que Voa"

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Rui Rio (mas eu também me ri) disse no outro dia que as pessoas andavam arredadas da política e que eram como aqueles casais em que ele pedia em casamento a uma ela e lhe prometia: uma vivenda com piscina; um bruto carro na garagem; uma viagem por ano. E que depois casavam e nenhuma promessa era cumprida: a casa era fraca, a ida era piscina municipal, etc, etc. A piada é esta, este imaginário, pobre, triste, materialista. Sim, as pessoas estão arredadas da política porque não podem ter piscinas, BMWs, e vivendas. Ele Rio, eu ri-me.

As imagens que se seguem


Volta e meia esbarro com a expressão "as imagens que se seguem podem ferir a sensibilidade dos espectadores mais sensíveis". Expressão que, como sabemos, não quer dizer absolutamente nada e tem tanta eficácia quanto o poema "fumar mata". Fumar também pode ferir a sensibilidade dos fumadores mais sensíveis, assim como as imagens também podem matar, por isso dá para ver o grau de seriedade da coisa. O que me pergunto é se a expressão "as imagens que se seguem podem ferir a sensibilidade dos espectadores mais sensíveis" não deveria vir já com a própria televisão, dando-se o caso de adquirirmos uma. É que as imagens que se seguem, quaisquer que sejam, sobretudo as mostradas na televisão, com elevado grau de certeza hão-de ferir a sensibilidade dos espectadores mais sensíveis. Sensíveis, isto é, com os olhos abertos, aqueles que não estão a cagar da mente ao final do dia (pois a estes tanto se lhes dá ver uma criança lá longe a ser esquartejada ou o Marcelo ali em Custóias a tocar xilofone). Para os espectadores ditos "sensíveis" (no sentido de sentirem alguma coisa que seja), a imagem que se segue não pára de ferir a sensibilidade. Porque é pornográfica e porque é, simplesmente, má. Por isso, autocolantezinho no cimo dos aparelhos com o dizer "as imagens que se seguem hão-de ferir a sensibilidade dos espectadores mais sensíveis". Pode ser que a moda pegue. Como os pirilampos mágicos. Afinal de contas, é Natal.



Que dizer desta monstruosidade, feita ao correr da pena durante o aninho de 1950? Apetece louvar cada página como cada grão de areia no deserto. Mais do que ler este livro pela avidez e curiosidade das referências, há essa relação puxada para o título entre os livros e a vida. Ler não para se distrair, ler nunca a cagar, mas ler como uma filosofia de vida, daquelas calçadeiras que vão ajudando a pôr o sapato ao longo dos tempos. Miller escreve: "Considero o meu contacto com os livros muito semelhante ao que tive com outros fenómenos da vida ou do pensamento. Todo os contactos são "configurados", não isolados. Nesse sentido, e neste sentido apenas, os livros fazem tanto parte da vida como as árvores, as estrelas ou os excrementos. Não me inspira qualquer reverência per se." Por isso os livros não têm de ser os certos (os clássicos), podem ser pessoas ("os livros vivos") e ajudam nessa ciência da vida como as plantas, os animais, o sexo. Como refere mais do que uma vez: a vida sempre primeiro. Os seus heróis eram esses doutorados na ciência de viver e é esse movimento entre o pensamento no papel, que salva ou dá a perdição, e as viagens, as conversas, a dureza dos trabalhos e dos dias aquilo que me ensina Miller. 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Cansado das estrelinhas que damos aos filmes, proponho a partir de hoje novo método de classificação. Os filmes passar-se-ão a dividir em:

1- Dantes é que era.
2-A partir de agora é que vai ser.
3-Olha, é o que é.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

« A mente é infinita e capaz de entender tudo o que lhe põem à frente; não há limite para a sua compreensão. O limite é a pequenez das coisas e a estreiteza das ideias que lhe são apresentadas. As filosofias dos tempos antigos e as descobertas da investigação moderna nada são para ela. Não a enchem.  Depois de as decifrar, a mente segue em frente e pede mais. As mais complexas, todas elas juntas, constituem um simples nada. Essas coisas foram reunidas por meio de um trabalho extremo, de um trabalho tão árduo que só o pensar nele se torna fatigante; porém, tudo considerado, a mente recebe tudo isso com a mesma facilidade com que a mão colhe flores. É como uma frase, que se lê e que se esquece. »

 in Story of my Heart de Richard Jefferies
« Vou ser vago voluntariamente; poderia ser completamente explícito, mas não é essa minha intenção. Isto porque, uma vez que uma coisa é definida, morre.»

 Krishnamurti      

domingo, 2 de dezembro de 2018

Eu sou o pavão mais belo

«Não creio que um pavão inveje a outro pavão a sua cauda, pois todos estão persuadidos de que a sua é a mais bela do mundo. Por consequência, os pavões são aves pacíficas. Imaginai agora como seria infeliz a vida de um pavão se lhe tivessem ensinado que é feio ter boa opinião a respeito de si mesmo. Sempre que visse um pavão exibir a sua causa, pensaria: “Não devo imaginar que a minha cauda é mais bela do que aquela, isso seria uma presunção, mas, oh, como eu desejaria que fosse! Essa ave odiosa está tão convencida da sua magnificência! Vou arrancar-lhe algumas penas! Então não teria receio de comparar-me com ela.” Ou talvez imaginasse fazê-lo cair numa armadilha para provar que um tal pavão era culpado de atitudes contra a sociedade dos pavões e o denunciasse à assembleia dos chefes. Gradualmente, estabelecer-se-ia o princípio de que os pavões com caudas particularmente belas são quase sempre maus e que como chefe sábio do reino devia ser escolhido um humilde pavão, cuja cauda fosse constituída somente por algumas penas sujas. Uma vez estabelecido este princípio, mandar-se-iam matar os pavões mais bonitos, até que por fim uma cauda realmente esplêndida se tornasse recordação obscura do passado. Tal é a vitória da inveja mascarada de virtude. Mas enquanto cada pavão pensar que é mais belo do que todos os outros, não haverá necessidade de uma tal repressão. Todos esperam alcançar o primeiro prémio na competição e cada um, porque estima a sua pavoa, julga que o conseguiu.»

Bertrand Russell in "A Conquista da Felicidade"

sábado, 1 de dezembro de 2018

A PORTUGAL

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço.
És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não

Jorge de Sena

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Manto da literatura

Uma das recordações mais nítidas que tenho da minha infância envolve mantas pesadas e escuridão. Era de noite e toda a gente devia dormir. Haveria algo importante no dia seguinte? Pouco importa. Tinham-me mandado apagar a luz e eu estava a meio de um livro, não me recordo qual, provavelmente um daqueles infanto-juvenis de aventuras policiais, mistérios de trazer por casa. Pouco importa também. De que me lembro é do prazer, praticamente pré-sexual, de infringir a regra e de, depois de tudo às escuras, ligar uma pequenina luz, espécie de mini lanterna, e continuar a ler até que o sono, o cansaço, me apagassem definitivamente. Sentia que estava numa espécie de casulo, a sós com a fonte do meu prazer, satisfazendo a minha curiosidade de seguir aquela aventura, e de o fazer na escuridão, sem distracção, sem nada que me proibisse ou desviasse. Como se alguém me entregasse, a mim e só a mim, um segredo. 

Desde essas noites de frenesim pela leitura proibida devem ter passado trinta anos. Ou quase. Contudo, creio que desde aí nada se alterou substancialmente na forma como me relaciono com os livros. Continuam a ser o meu espaço debaixo das mantas, o meu esconderijo, no qual me sussurram  - ao abrigo da tagarelice dos dias e das frases de verniz e de circunstância do quotidiano  - coisas acerca do segredo da vida. A literatura, pelo menos para mim, é, sempre foi, esse manto. Esse espaço meio escondido - da biblioteca, da solidão, do silêncio - onde dou por mim a chorar o mais alto, a rir o mais elevado, a conversar com os reverentes, os mendigos, os animais, as plantas, as ruas, o meu pai, a minha mãe, todos nesse espaço abrigados, convocados, sem tempo ou espaço pré-destinados. Uma reunião de grinaldas, de pedras, mafarricos, duendes e paixões. A literatura é, pelo menos para mim, uma toca de coelho, um para lá do espelho, um espaço secreto, um esconderijo onde se vai discutir o eu, a multidão, o todo e o único. Uma senha secreta para aquele engodo, aquela ficção que nos penetra, a que chamamos real. Quando a claridade se suspende, quando as paredes da biblioteca apertam, a dança na escuridão, a conversa muda começa...

Conferência de piolhosos

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

A arte de desencorajar

« Não deveríamos ter medo de ler demais ou de menos. Seria aconselhável entregarmo-nos à leitura da mesma forma que nos alimentamos ou fazemos exercício. O bom leitor será atraído pelos livros bons. Descobrirá com os seus contemporâneos o que é inspirador, ou meramente aprazível, na literatura do passado. Seria desejável que tivesse o prazer de fazer essas descobertas por si, à sua maneira. O que tem valor, encanto, beleza ou sabedoria, não pode ser perdido ou esquecido. Mas as coisas podem perder todas estas qualidades se nos arrastam para elas pelos cabelos.Não repararam já, depois de muitas angústias e desilusões, que, ao recomendar um livro a um amigo, quanto menos dissermos melhor? Sempre que louvamos demasiado um livro, suscitamos resistência no nosso ouvinte. Temos de saber quando devemos ministrar a dose e em que quantidade – e se esta tem ou não de ser repetida. Refere-se frequentemente que os gurus da Índia e do Tibete praticaram durante séculos a importante arte de desencorajar o ardor dos seus futuros discípulos. O mesmo tipo de estratégia pode ser aplicada no que respeita à leitura de livros. Desencorajem um homem de maneira correcta, isto é, com o objecto certo em vista, e ele enveredará pelo bom caminho muito mais depressa. O importante não é que livros, que experiências um homem deve ter, mas o que deposita neles de si próprio. »

Henry Miller

terça-feira, 27 de novembro de 2018

« O livro que se torna vivo é o livro que foi penetrado até ao âmago pelo coração devorador. Até ser acendido por um espírito tão vivo e flamejante como aquele que lhe deu origem, uma obra está morta par nós. As palavras desprovidas da sua magia não passam de hieróglifos mortos. As vidas despojadas de curiosidade, de entusiasmo, de dádiva e de capacidade de receber, são absurdas e estéreis como letras mortas. Encontrar um homem a quem posso chamar um livro vivo é alcançar a própria fonte da criação. Ele permite-nos ver o fogo que consome o universo inteiro e que não emite apenas luz e calor, mas também uma visão, uma força e uma coragem perenes.»

Henry Miller em "Os Livros da Minha Vida"

Suspiria (2018) de Luca Guadagnino

Creio que talvez seja um erro, ou pelo menos uma leitura apressada, separar a versão original de Suspiria (1977) de Dario Argento e esta de Luca Guadagnino com base numa simples oposição entre uma narrativa e uma forma. Este raciocínio implicaria catalogar o filme de Argento de acordo com uma história coesa, um witch tale com corpo de giallo (talvez com pedaços de corpo, pois o filme de Argento não é um todo ele um giallo) e o filme de Guadagnino como uma obra que coloca à frente de tudo um formalismo exuberante e onanista. Contudo, tal não me parece corresponder à verdade. E não o é, porque, convém não esquecê-lo, a obra-prima do mestre do terror italiano tinha alguns plot holes e era ela própria de um formalismo maravilhosamente exasperante. Mas então o que é que tira brilho (e terror) a este retake de Guadagnino ? Aquilo que faz do filme de 77 um filme impactante é precisamente o facto de ele se construir sobre uma linha de subtil equilíbrio entre a sua forma e o seu conteúdo. Quer dizer, ele constrói uma dada situação narrativa - à qual não falta sequer uma mitologia própria, gótica, política, policial -, que vai tendo os seus altos e baixo ao nível do grau de tensão e surpresa sobre o espectador, e é depois sobre esta manta que Argento coloca as cores, o sangue, a música, em momentos claros, precisos, delineados.

O que se perde com o Suspiria dos tempos modernos é precisamente essa subtileza, esse equilíbrio. Talvez pelo peso da responsabilidade (ou mesmo pelo ensimesmamento de Guadagnino que viu aqui a possibilidade de "criar arte", de "esculpir o novo") o que era leve passa a pesado, o que era subtil, pornografiza-se. Tudo é curto, grosso e evidente. Quer mensagem verbal, quer mensagem pictórica, chamemos-lhe assim. Um bom exemplo é a forma como o filme de 2018 tenta tornar evidente o subtexto político da narrativa: as facções políticas no exterior e no interior da escola de dança, a clandestinidade das bruxas e a clandestinidade dos resistentes políticos. Esta abordagem política, assim clarificada, no fundo o que faz é "formalizar um conteúdo latente" na obra de Argento. E se a mensagem precisa aqui de uma dada forma, clara, o inverso também é verdade. Ao contrário das set pieces no original, aqui o formalismo parece querer tomar um espaço de conteúdo. Um corpo substancial, uma filosofia apressada da forma que aqui é explorada até à exaustão e que se prende com o uso do corpo e da dança associado a uma escrita cinematográfica. Talvez Suspiria precisasse de um realizador menos romântico (mas já não era o miscast do realizador, e por razões semelhantes, o problema do retake de Halloween?), alguém que não visse no terror um short cut para o inefável. Que percebesse que mesmo o gótico era assunto do quotidiano, de lamas, de escuridões, de castelos associados à vida de pessoas. A câmara de Guadagnino acaba por dançar por este Suspiria, tornado coreografia interminável, como uma entidade tomada por uma musa da inspiração a tempo inteiro. E a comprová-lo são as várias cenas à mesa, dentro e fora da escola, onde as palavras não são concedidas às suas personagens. Ouvimo-las mas não das suas bocas, provindas antes da voz da banda sonora. Um mistério que logo se desfaz pois quem fala pela banda som, assim como pela banda imagem é o grande demiurgo Guadagnino.



segunda-feira, 26 de novembro de 2018


quinta-feira, 22 de novembro de 2018

A espécie dos eubemdisses

Já ouviram falar da espécie exótica dos "eubemdisses" ? Não? Então estejam bem atentos pois eles não são fáceis de avistar. E porquê? Porque hibernam durante longos períodos, precisamente quando faz bom tempo, há sol lá fora, e a terra parece ser feita de delícias e facilidades. Contudo, mal começam as tragédias - ele é um carro que cai num abismo, um edifício que colapsa ou uma amiga que vem chorando de desgosto de amor não correspondido - e a espécie dos "eubemdisses" sai de rompante da sua sombria caverna. Saem cá para fora, envergando as melhores vestes e plumagens (a elas não se lhes conhece um vinco, pois estão sempre impecáveis, como se nem fossem usadas) e olham muito empertigados à volta, o mundo agora feito calamidade. É então que começam a dança pela qual são conhecidos, acompanhados do seu grito característico que proferem alta e incessantemente: "Eu bem disse! Eu bem disse! Eu bem disse!".

terça-feira, 20 de novembro de 2018

cheiro nauseabundo

Eis uma reflexão de um animalista confesso: à medida que todas as televisões seguem, exaustivamente a recuperação dos corpos, um a um, de mais uma tragédia a comparação é inevitável. A televisão portuguesa é cada vez mais aquele cão pisteiro treinado à nascença para farejar obsessivamente o mais leve odor a cadáver.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Hitchcocks finais, diferença e repetição


Tenho estado a ver os últimos filmes do Hitchcock. Alguns nunca tinha visto, outros não tinha lembrança. Falo de filmes como Marnie, Torn Curtain, Topaz. O entusiasmo, devo dizer, fica aquém do esperado. Mas para mim, mais do que relatar uma dada reacção, interessa-me reflectir sobre a razão destas "semi-decepções". Um autor produz-se numa certa unidade no tempo - uma série de diferenças e repetições que se vão acumulado, aos poucos, variando aqui ou acolá, evoluindo num mundo cada vez mais constituído, mais ou menos estável em seus alicerces. Contudo, nestes últimos filmes é mais difícil deixar vir à tona (revelar, no sentido fotográfico) a diferença do que a repetição. Como se ela fosse ínfima, subtil e necessitasse de um olhar muito atento e apurado, um olho que veja e reveja, um olho-microscópico. Ao mesmo tempo, as cenas dos thrillers de espionagem, as suas obsessões, perseguições, traumas, funcionam para o espectador do mundo hitchcockiano como aquelas atracções do parque de diversões que, já se tendo experimentado uma e outra vez, sabemos o local onde as mesmas se encontram e até nem recusamos, uma vez ou outra, voltar a andar nelas. Por exemplo, a perseguição a Paul Newman em Torn Curtain, com a presença sonora dos passos, o passado encoberto e "vertiginoso" (no sentido da vertigem do Vertigo) de Tippi Hedren em Marnie, o próprio local da sala de espectáculo como espaço de tensão de Torn, os eternos macguffins que deglutimos, talvez um pouco cansados da cenoura que nos faz mover o olhar. Contudo, há uma outra dimensão, talvez melancólica, algo revisionista, que estes filmes contêm. A facilidade com que neles mais facilmente detectamos a repetição e menos a diferença transporta a nossa subjectividade para um certo passado. Ver estes filmes finais de Hitchcock e neles detectar sobretudo estrutura e esquema é como olhar para um urso de peluche da nossa infância todo descarnado, com as molas interiores já de fora. É um "esventramento" que não deixa contudo de ter uma dimensão de álbum de recordações. O Hitchcock maduro é também uma lembrança do Hitchcock vigoroso, um folhear, sequência a sequência, do seu passado, uma passagem pelos locais onde tivemos medo, sentimos culpa, de quando o sangue nos subiu à cabeça na sala escura. No fundo, os hitchcocks finais são ecos do seu toque, uma pressão que vai afrouxando aos poucos mas da qual ainda recordamos a marca na carne, na mente.

domingo, 18 de novembro de 2018

"Na verdade, não há razão para invejar o filho-da-puta, mesmo porque a inveja é o quarto traço distintivo e identificativo do filho-da-puta. O filho-da-puta vive preocupado, roído de inveja; o desejo do filho-da-puta é que ninguém estivesse nunca no meio do novo, do belo, do agradável, porque isso dá satisfação a quem lá está; que ninguém fizesse nunca nada de novo, de belo, de agradável, que isso vem alterar a ordem das coisas, e o filho-da-puta só se sente à vontade quando as coisas estão na ordem e ele à frente delas. Por isso, tudo quanto os outros fazem o inquieta e preocupa. Por isso também é sabido que gosta de dizer mal de tudo o que é novo, belo e agradável, pôr em causa tudo quanto lhe causa surpresa; sente-se presa da novidade, gosta de dizer mal e de pôr em dúvida, gosta de rebaixar, de destruir tudo quando é novo, belo e agradável, gosta de abalar, de estragar, de não deixar fazer tudo quanto é novo belo e agradável. Porque isso tudo, na sua ideia, desfeia. O gozo dos outros, sobretudo o amoroso, línguas que se lambem, na sua ideia, desfeia. Faz a boca feliz mas, na sua ideia, desfeia. O amor faz-lhe inveja, por isso ele o proíbe ou inibe, embora o permita e admita a imagem porque, como a imagem cria o desejo e não o gozo, dele nasce mais o desespero que o esperado. O lema do filho-da-puta é amar a humanidade em geral e odiar toda a gente em particular."

in Alberto Pimenta in "Discurso sobre o filho-da-puta"

sexta-feira, 16 de novembro de 2018


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Lazzaro felice (Feliz Como Lázaro, 2018) de Alice Rohrwacher



Lazzaro felice, vencedor do prémio para o melhor argumento em Cannes este ano, é baseado em parte num caso verídico acerca de uma marquesa italiana que, tendo uma propriedade rural isolada, escondeu dos seus camponeses que o feudalismo havia terminado. Uma perversa e conveniente máquina do tempo digna de um argumento de M. Night Shyamalan ou de um episódio de The Twilight Zone. A realizadora Alice Rohrwacher quis expandir um pouco tal bizarria transportando-a para o seu mundo de fábula, na qual a ruralidade surge como posto último, sagrado, celestial, oposto a uma certa perversão urbana. Em Le meraviglie (O País das Maravilhas, 2014) já isso se explorava, tendo este por base o mundo dos reality shows por oposição a uma infância passada no campo, junto das abelhas (o seu pai era apicultor). Neste seu último filme, a oposição campo/cidade não surge tanto como forma de nos fazer tomar partido por um dos lados, mas é mais o palco de uma recorrente e intemporal luta de classes.

Por isso, Lazzaro estrutura-se em duas partes: na primeira Rohrwacher filma a tal condessa (Nicoletta Braschi) enganando os seus camponeses e na segunda, já após descoberto o “esquema”, a mesma exploração continua, por outros meios, na cidade. As maravilhas de Lazzaro começam aqui, na forma como o caso verídico devém fábula, e a fábula, acto verídico. A transição destes dois espaços nunca é puramente lógica, os raccords de planos e espaços saltam idades impossíveis de comprovar pela razão. Depois temos o jovem Adriano Tardiolo, escolhido entre mais de 1000 candidatos, que faz de Lazzaro. Escolha impressionante a mostrar como o casting pode ser o ponto de partida para uma certa transcendência do rosto e da expressão. A bondade pura – como o burro em Bresson [Au hasard Balthazar (Peregrinação Exemplar, 1966)] -, que, contra a exploração, se ergue como Lázaro e sempre regressa. Independentemente desta leitura funcional e política, há uma outra “política” que importa aferir. Embora se tenha visto este Lazzaro felice como uma espécie de Miracolo a Milano (1951), convém dizer que o “eterno retorno” da bondade pode muito bem passar pelo “eterno retorno” de um rosto que inaugura um mundo. Uma ressurreição do cinema italiano que visse surgir em Adriano, o seu novo Ninetto Davoli. E Pasolini não está 100 por cento arredado deste universo, embora, há que dizê-lo, o filme de Rohrwacher termine com a arma do lirismo apontada à cabeça do espectador. Bach, música esvoaçante, um lobo nobre, um apedrejamento crístico e urbano. Isto, creio, Pasolini nunca filmaria. Mas tudo somado, é um dos mais interessantes filmes do ano.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

A Comunidade



"Não sei nada. Duvido de tudo. Desci ao fundo dos fundos, lá onde se confunde a lama com o sangue, as fezes, o pus, o vómito; fui até ás entranhas da Besta e não me arrependo. Nada sei do Futuro, e o passado quase esqueci. Li muito e foi pior. Conheci gente estranha nesta viagem. Gente pobre: estúpidos de medo, doidos espertalhões, toscos patarecos, foliões e parasitas da Vida, parasitas (os mais criminosos, estes) chulos do talento próprio (por ex., o Manuel de Lima, o Vítor Silva Tavares, eu), desperdiçando tudo: as horas do relógio deles e dos outros, e os defeitos de todos, que tudo tem seu calor e seu exemplo; os frustrados falhados tentando arrastar os mais para o poço onde se deixaram cair por impotência de criar, lazeira ou cobardia (mas o coveiro nada perdoa!). Cadáveres adiados fedorentos viciosos de manhas e muito mal mascarados. Uma caca a respirar". 

Pergunto-me se será possível acabar de ler "Comunidade" e não ficar embasbacado, todo a tremer? Do murro na tromba, da felicidade por ter encontrado uma jóia como esta, uma obra-prima da literatura. De toda a literatura. Esqueçamos o batatal da nossa pequena existência e o à beira mar plantado. Ainda não sei o que me empolga mais. Por um lado, o sentir-me entrar naquela cama como uma entrada de rei no espaço de toda a humanidade - um livro que nos aproxima, a todos, um a um. Como se todo o espaço que nos liga fosse pouco, juntos, amontoados nas certezas daquilo que dá gozo na vida. Por outro lado, a forma como Pacheco nos mostra isso através do seu toque de Midas: convertendo o simples em opulento, a simplicidade em riqueza, o jacto de vómito, de merda, de mijo, nos líquidos literários da autenticidade, do que faz respirar, tremer, apreciar tudo isto. "Caralho estou vivo!" É isso que me apetece dizer depois de ler "A Comunidade".

Cubismo existencial



Há uns dias surgiu-me assim meio de improviso, num debate em que participei acerca do excelente Happy Hour (Happy Hour: Hora Feliz, 2015), a expressão “cubismo existencial”. O que queria defender era a capacidade do filme de Ryûsuke Hamaguchi sempre ir frustrando a nossa tendência de engavetar situações, de pôr de um lado as coisas melhores e do outro as piores. Tudo era possível, de todas as perspectivas, sem hierarquias, com todas as acções e suas consequências, umas boas outras más. Nada melhor do que tudo o resto. Ora, pegando num expressão trabalhada por filósofos como Étienne Souriau ou Bruno Latour – a noção de modo de existência – podemos ser tentados a adicionar algo mais a esta ideia de cubismo existencial. Tal como a noção de modo de existência precisa quer de uma forma específica de ser, quer de condições que veridicção, podemos acrescentar que ao cubismo existencial de Hamaguchi poderiam ser adicionadas as condições de percepção visuais de uma criança, tal como expressas neste Estiu 1993 de Carla Simón.

O fito da autora é autobiográfico. Um filme sobre uma menina de seis anos que perde a mãe (já havia ficado orfã de pai anos antes) e vai viver com o tio, sua mulher e prima para uma aldeia longe da sua Barcelona Natal. Podemos dizer que, narrativamente, o filme busca compilar pequenos episódios vividos por Carla na altura, misturados com sensações, emoções próprias das crianças. E depois um silêncio e mistério muito Víctor Ericianos. Podemos até ir ao ponto de perceber aquele Verão como o momento em que as lágrimas pela morte da mãe (as mesmas que, quando o filme abre, estão secas e invisíveis) hão-de sair cá para fora. Mas aquilo que deslumbra neste Estiu 1993 é precisamente a forma como reinventando o ponto de vista da criança, vamos tendo acesso a fogachos de mundo, de baixo para cima, a brincadeiras, a birras, a cenas incompletas. Ou fugas, asneiras, injustiças e, nos seus interstícios,  lá vem o “grande drama”, aquele que se vai instalando aos poucos, aquele para os quais os adultos vão e vêm como que sendo chamados, pontualmente, a uma boca de cena. Carla Simón ganhou um prémio para melhor primeira longa em Berlim e Estiu 1993 vai aos óscares em representação espanhola para um filme rodado em catalão (a arte prega destas partidas à política). Mas o que me parece mais relevante, e que proponho, é que vejamos esta obra como um certo modo do cinema esculpir a percepção infantil. De nos dar acesso a um cubismo perceptivo – tudo é vago e nítido, irrelevante e central ao mesmo tempo -, que é condição de veridicidade desse referido cubismo existencial que podemos ver em Happy Hour. Dois dos melhores filmes do ano que podem ser vistos como ponto e contraponto de um dado multi-perspectivismo, de uma relatividade que vai da couve à alface, do casamento ao divórcio, no espaço de segundos.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

imprecisões de Outono

A Alexandra do blogue imprecisões convidou-me, muito amavelmente, a ocupar o espaço dela com um texto. O tema era livre e como estamos no Outono... Obrigado a ela.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Os poemas que escrevo
são moinhos
que andam ao contrário
as águas que moem
os moinhos
que andam ao contrário
são as águas passadas.

Adília Lopes

terça-feira, 6 de novembro de 2018

(...) porém não acabaram aqui os problemas dir-se-ia que verdadeiramente começaram aqui porque primeiro os consensos foram difíceis escolheu-se finalmente do conjunto de propostas das escolas o começo de um texto mais antigo que era assim “as estrelas em seus halos brilham com brilhos sinistros”

Depois não foi fácil disponibilizar a verba necessária para a impressão do novo texto do exame foi necessário recorrer às farmácias que têm sempre remédio além do mais o papel de exame usado para o respectivo reclame estava mais que esgotado disse um irresponsável

É inacreditável mas nenhum analista tinha encarado a possibilidade é que elas vieram todas as estrelas nenhuma quis faltar ante um texto afinal de novo tão bisbórnia fizeram questão de vir levantar de nova a história do esplendor da sua tão alta costura

Roupas desassossegantes like divertir-se com os velhos amigos repor o seu nome e em nome de boa causa angariar fundos para o combate ao crime mostrar que os seus brilhos não eram nada sinistros lá estavam Sarah e Angelina e Zosma e Scheat e Natalie e Rosie e Rastaban e Achernar e Megan e Anna e Zaniah e Adara e Marcelo e Avigdor e Agena e Princeps e até Kevin e Nushaba e Dan e James e Albireo e Robbie menos envelhecido que já dois anos e Rihanna e Alhena e Charles e Jason e Hedwig e Rodrigo e Alioth e Mizar e Eric e Enriço e Mintaka e Clarence e Rafael e Raphaell e Marco e Lucy e Joachim e Altair e Marc e Steve e Rasmussen e Rosmarin e Menkar e Elton e Nick e Lusis e Anon e Danny e Chris e Andy e Armus e Angell e Norman e Harry e Mário e Markab e Markeb e Manu e Dave e Ascella e Malband e Hayley e Bos e Kifa e Perry e Brian e Berenice e Priscilla e Nelly e Lykke e Bungula e Kaspar e Arto e Chucho e Bellatrix e Earl e Lincoln e Igor e Bauke e Caphir e Kephir e Aaron e Castor e Pollux e Morrissey e Kazu e Dahib e Ellery e Gary e Valdir e Harvey e Cpula e Xanye e Deneb e Simon e Noah e Susan e Bem e Polis e até o António e Dubhe e Masha e Bella e Duda e Graffias e Karina e Nika e Hugh e Hamal e Samantha e Han e Khanmalia e Brandon e Ray e a Popa do Navio e Abraham e Santa Klau e Joy e Alex e Cynda e Jack e Larry e Jorma e Eddie e Jim e Scott e Burt e Dorothy e Jewell e Tori e Alanis e Nacho e Martin e Sorbo e toda a tão falada família e atrás delas os fãs de todos os lados like até da Austrália com grandes cangarus e do Alaska com karibus like centenas milhares muitos milhares e milhares de fãs incontáveis milhares e milhares like que além de rapidamente esgotarem todas as reservas de cerveja ocuparam todos os espaços disponíveis jardins praças escadinhas ruas calçadas betesgas até balcões particulares para as ouvir cantar nos auriculares as conhecidas canções like

Coffee tea or me tea coffee or fucky coffee tea or me coffee fucky or tea tea coffee or fucky me

ou seja em português porque também as e os havia nacionais estrelas e fãs

miro-te adrmiro-te abro-te abraso-te adivinho vinho abro-te e atravesso-te carinho-te atraio-te traio-te apre aproximo aproveito-te apalpo-te aparto profundo apeteço teço aperto-te toda a a parte like baby (…)

Alberto Pimenta in "al Face-Book" (2012)

domingo, 4 de novembro de 2018

"De acordo com Jesus Cristo, é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Quem já tentou fazer um camelo passar pelo buraco de uma agulha tem a noção exacta da dificuldade da tarefa, sobretudo se usou o mesmo método que se aplica às linhas, e que consiste em humedecer-lhes a ponta. Humedecer a cabeça de um camelo exige alguma coragem, muita salivação e um bom elixir oral. Cirilo de Alexandria acreditava que as palavras do Messias tinham sido mal reproduzidas. Em grego, o vocábulo que designa camelo (kamelos) é muito parecido com o que designa corda (kamilos), e quem registou as declarações do Senhor pode ter feito confusão (já se sabe como são os jornalistas). Uma vez que a corda também não passa facilmente pelo buraco de uma agulha, os ricos foram forçados a engendrar uma estratégia para entrar no reino dos céus, a saber: não possuir quaisquer bens em seu nome. (...)"

 Ricardo Araújo Pereira

sábado, 3 de novembro de 2018

"As coisas como se vê são assaz complicadas e às vezes até um pouco contraditórias. Se se disser que certos filhos-da-puta morrem com o seu tempo, então há que convir que eles mesmo são a fénix da lenda, a que renasce das próprias cinzas (software novo em folha e respectivo hardware). É assim que em cada época e lugar o filho-da-puta encontra os processos mais adequados à realização das suas preocupações de filho-da-puta, mas sucede que com cada nova época alarga também a sua esfera de ocupações e preocupações. Hoje o filho-da-puta conduz subtilmente à greve da fome aqueles que outrora executava publicamente, o filho-da-puta em tempos chamava escravos aos que hoje chama emigrantes."

Alberto Pimenta in "Discurso sobre o filho-da-puta"

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Lampreia, uisques e fodilhões de matiné

"No passado sábado, no Jornal, marcámos uma reunião para avançar com o Dicionário, 4º feira, às 17:30. Todos de acordo, tudo muito bem. 4ª feira levanto daqui com a Tribo quase toda às cinco e meia da madrugada, seguimos para a Capital onde chegámos às 8 da manhã. Estou no Jornal às 10 (da manhã) para confirmar a minha chegada, confirmar a reunião, dizer que teria de regressar às 8 da noite, por causa da família, etc. Ninguém dos reuniantes se encontrava na Redacção. Começo a telefonar. Ninguém. Às 16 volto à Redacção. Ninguém. Às 17 chega o Doutor. Avisa logo que tem de sair às 19 para regressar às 20:30 (depois se soube, foi visto, que ele dá uma foda todas as quartas-feiras, àquelas horas, numa mulher gorda). Começo a ver que a reunião é mirífica. Telefona o Bruno: resumindo sabe-se que estiveram, ele e o Lima, numa noitada maluca com os Herbertos, um italiano, vinhos no Hotel Borges e que o Lima ficara lá e só chegava às 19; o Bruno viria também às 19. Como já não estava o Doutor, nem tinha dinheiro para o regresso resolvo ficar em Lisboa com a Tribo, pagar pensão (paciência!), fazer a reunião e levantar dinheiro por conta das fichas do maldito "Dicionário" e da colaboração. Chega o Bruno, às 19 e tal. Pouco depois telefona o Lima, ainda no Hotel Borges. O Bruno de seguida telefona à Margarida e vai dar uma foda. Eu fico fodido de todo à espera que estes três cavalheiros ejaculem. Aproveito e faço telefonemas. às 20:30 e picos, começam a chegar, algo fatigados, os fodilhões. De que se trata no momento, é de jantar ,reparar forças. Mas falta o Lima. Começamos à espera do Lima, para jantar (eu estava admirado que, neste transe, ele não desse sinal de si; deu); às quase dez horas, telefona o Lima. Tudo para o Leão de Ouro, para jantar bem, antes da trabalhosa reunião e depois da fodilheira matiné. Pego num táxi e meto a Tribo na pensão da Madalena, todos a dormir; e vou comer lampreia à minhota que às 22 e picos me faz o efeito de chumbo nas tripas.O jantar, entre muita treta por causa da ópera, prolonga-se. À sobremesa, o Bruno alvitra que, por estarem todos muito cansados, o trabalho da reunião não iria render... o melhor era ser adiada. Ainda esperei que o Mecenas também prejudicado como boss naquela casca de banana reagisse. Concordou logo!... E marcou-se nova reunião para hoje, sábado, ao meio-dia, a que jurei faltar com os meus botões, desse lá por onde desse. Como estávamos todos muito cansados (e eu, também, que acordara às cinco da manhã) mas como a lampreia é pouco recomendável para tornar os sonhos mais alegres, decidiram ir para um lugar pacato conversar. Viena Bar. Uisques para os senhores, água do luso para este teu amigo. A conversa ignorou sistematicamente temas do "Dicionário" ou do Jornal; caiu-se de chofre na teosofia, Karma, e outras merdas pós-terrenas, astrais de 2ª, e 20ª categoria. Por esta altura, eu só tinha ouvidos para tanto dislate e esta pergunta na cabeça: quanto é que eu vou sacar no fim de tudo a estes filhos da puta? Eram já quase duas da manhã, e depois de todos cansadíssimos de discutir se os mundos eram habitados ou não, mas um pouco mais aliviados do peso da lampreia à minhota, cada um recolheu a suas casas. Meti na algibeira 150$00+10$00 (do mano Alexandre) recebidos contra, só em passagens e pensão 210$00... Vale a pena trabalhar para estes foliões da Trampa?"


Excerto de uma carta de Luiz Pacheco a Mário Cesariny, in "Pacheco versus Cesarini"

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

AMIGOS, recorro a vós

AMIGOS, recorro a vós na esperança de sincera ajuda, de uma mãozinha que me auxilie - nesta hora de perdição - a acabar com o vício, a cortar com esta miserável existência de agarrado. Vou contar-vos acerca da minha dependência. Não me julguem, ouçam-me apenas. Um dia descobri que estava a ficar com paredes a menos e estantes a mais. Livros empilhados, em série, desordenados, debaixo de recantos e cantinhos mal frequentados. Tinha pós acumulados. Sonhava secretamente obter o auxílio de um bibliotecário que me organizasse a livralhada, que viesse falar comigo, me compreendesse o desnorte, a dispersão de tudo isto. As abelhas, o comunismo, o Tchekov, os guias de ópera, tudo me serve para apaziguar o vício. Tarde ou cedo descobri que tinha um problema, mas não tem sido fácil. Dou por mim: a poupar nos cafés para comprar um livrinho aqui outro acolá; a pedir doações a familiares para o "ministério da cultura" do meu escritório (é assim que eu assedio os mecenas); a perder manhãs de trabalho nas pornográficas secções da amazon. Vou à inglesa, à americana, à francesa, à espanhola, à brasileira e - quando acordo mesmo sem pudor nenhum - vou à alemã e à italiana. Tudo me serve. Já tentei contornar a Fnac e os alfarrabistas da Baixa nos passeios de fim-de-semana, já pensei em bloquear a wook para não cair em tentação, já saltei mesmo idas à feira do livro (e só deus sabe o que me custou) e quando passo no Colombo o meu coração acelera em frente da Bertrand e é a minha Filipa que me agarra, firme, pela mão e me leva à volta. E eu lá vou, em nervos e choro contido. Tentei já também a igreja universal dos e-books, dos kindles, dos formatos mobi, epub, pdf e até - imagine-se! - converter um livro em documento do word. Aquilo a que uma pessoa chega... Mas, não me levem a mal, tudo isso é metadona. Onde estão os rabiscos, os marcadores de livros, as páginas dobradas, pintalgadas, o pó incrustado, as manchas de café, de comida, de velhice. Como é bom apalpar um livro, folheá-lo, lê-lo todo, à bruta, e depois ficar com dores no corpo das más posições da leitura. E eu já não sou um jovem... Como é bom o cheiro do napalm e do livro lido logo pela manhã! Mas sim... tenho vergonha de mim e das minhas impulsivas compras, empréstimos, e todos estes vis actos a me leva o desespero. Agora tenho ido a bibliotecas e tenho estado muito nervoso. Há tantos livros por lá... Juro-vos que não sei mais o que fazer. A única coisa que tem funcionado, apesar de tudo com algum grau de sucesso, é o Facebook. Mas não sei... ajudem-me!

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Sandes de merda

Quando a falta de amor faz crack

domingo, 28 de outubro de 2018

Na grelha

"Na "Legenda Áurea", Tiago de Voragine conta a história da morte de São Lourenço - que, aliás, morreu por causa de uma piada. Décio, não sei de por ganância ou necessidade, ordenou a Lourenço que lhe trouxesse o tesouro da igreja. O diácono percorreu a cidade e arrebanhou todos os doentes e pobres que conseguiu encontrar. Depois apresentou-se perante o imperador com esse exército de desgraçados e disse: «Cá está. É este o tesouro da igreja.» O imperador não achou graça e condenou-o a uma morte macabra: Lourenço morreu queimado numa grelha. E reza a lenda que as suas últimas palavras foram qualquer coisa como: «Este lado já está. Podem virar.»
in "A Doença, o sofrimento e a morte entram num bar" de Ricardo Araújo Pereira.