quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

No último post do ano, cãezinhos a dançar


Na véspera de mais um ano novo apercebo-me que a minha grande resolução para 2015 é não ter resoluções.

Boas entradas.

Quem pode escrever/governar?

Além dos diversos triunfos platónicos ao longo da história - entre os quais, o cristianismo é o mais saliente - há um outro menos visível, o da condenação da escrita. Esta era atacada por Platão como o espaço de enfraquecimento da memória, mas por detrás desta objecção "mediática", existia uma luta subterrânea bem mais importante pelo sistema correcto de governo. Desta feita, quando hoje a escrita - que na sua génese é o espaço da "literariedade democrática"- se encontra encerrada em mecanismos de mercado (que ditam, invisivelmente, quem pode escrever, como e quando) é ainda essa desconfiança platónica quanto ao igualitarismo de quem podia/devia governar a cidade que está presente.



terça-feira, 30 de dezembro de 2014

“O real deve ser ficcionado para ser pensado.”, escreve Jacques Rancière. Então talvez também a ficção deva ser realizada para ser pensada. Eu é que nunca percebi muito bem se a minha vida é uma ficção ou um documentário.

Your slip shows, dear


Ann Grayle: Sometimes I hate men. ALL men. Old men, young men... beautiful young men who use rosewater and... almost heels who are private detectives. 

Helen Grayle: Oh, I'm sorry, darling, I couldn't help laughing; but you should know by now that men play rough. They soften you up, throw you off guard, and then belt you one. 

Helen Grayle: That was a dirty trick; but maybe it'll teach you not to overplay a good hand. Now she doesn't like you. She hates men. 

Ann Grayle: That was only the first half of the speech. The rest of it goes like this: I hate their women, too - especially the "big league blondes". Beautiful, expensive babes who know what they've got... all bubble bath, and dewy morning, and moonlight. And inside: blue steel, cold - cold like that... only not that clean.

Helen Grayle: Your slip shows, dear.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

A ponte


Nem sempre, mas às vezes, intuo por detrás de certos discursos sobre o interface ou o dispositivo um certo laxismo do fazer. Como se precisássemos sempre de uma ponte que una o "artista" que há em cada um de nós ao "revolucionário" que lá mora também. E bem vistas as coisas o problema nem é a ponte ou o material de que a ponte é feita. É antes o caminhar nela que faz com que cada vez que cheguemos ao mezzo del cammin já não saibamos de onde viémos nem para onde queríamos ir.

Aritmética/Geometria

"(...) a aritmética pode ser tema das cidades democráticas, pois ela ensina as relações de igualdade, mas somente a geometria deve ser ensinada nas oligarquias, pois demonstra as proporções na desigualdade." - Michel Foucault in "A Ordem do Discurso"

domingo, 28 de dezembro de 2014

Os 10 melhores filmes de 2014

  1. E Agora? Lembra-me de Joaquim Pinto
  2. Mommy de Xavier Dolan
  3. The Congress de Ari Folman
  4. The Immigrant de James Gray
  5. Història de la meva mort de Albert Serra
  6. Maps to the Stars de David Cronenberg
  7. Only Lovers Left Alive de Jim Jarmusch
  8. L’image manquante de Rithy Panh
  9. The Babadook de Jennifer Kent
  10. Boyhood de Richard Linklater
Cada vez que tenho de fazer um top de qualquer coisa vem-me sempre à cabeça que o ano que colocamos a seguir à expressão “top” é tão importante quando esta. Isto para dizer que há algo de prospectivo nesta tarefa respigadora: por que filmes queremos nós que cada ano se recorde? Se acreditarmos que a lógica de mais um ano, corresponde a um avanço (mas não necessariamente melhor, como com os ideólogos do progresso) então há que ter o terceiro olho aberto para esses sinais de movimento, de um sítio para outro, neste caso de 2013 para 2014. É neste sentido que não me revejo inteiramente na posição maioritária que coloca sistematicamente no top apenas filmes que recuperam, declinam ou actualizam o cânone. Como se no futuro estivéssemos condenados a apreciar somente a grandeza de John Ford ou a astúcia de Hitchcock (e os “bons alunos” que a eles se colam) ad aeternum. Paradoxo de um cânone imóvel da arte das imagens em movimento. Contudo, pur si muove. Este intróito explica o raciocínio que me leva a deixar de fora filmes que assentam na “solidez narrativa”, no “desenvolvimento das personagens” ou “re-aquecem um determinado clima cinematográfico”. Curto e grosso: Fincher, Garrel, Reichardt, Leigh, Vítor Gonçalves, mesmo Wes Anderson desta vez, este ano assinaram todos bons filmes (alguns dos quais gosto genuinamente, por exemplo A Vida Invisível é um deles) mas promovem, pelo seu estilo, valores, posição, uma certa imobilidade do cânone contra a qual eu me bato e é e por isso que ficam de fora.


O ano foi muito melhor do que a “seca” do ano anterior. Tendo ainda por ver alguns filmes que pelo buzz poderiam ter assento nesta tribuna – como são os casos do celebérrimo Cavalo Dinheiro de Pedro Costa, os últimos dois filmes do já saudoso Alain Resnais ou o genial-ignóbil Joshua Oppenheimer – nunca mais me saiu da memória o caderno de apontamentos do Joaquim (e do Nuno) como alguém que podia estar a trabalhar sobre a exaustão, até por ser um tema recorrente do ano (Cronenberg, Jarmusch, Folman), mas decidiu filmar a vitalidade do quotidiano com uma honestidade difícil de esquecer. E é por que não me esqueço dele, porque o lembro, que está no topo. Outros temas do ano: a maternidade ou a animação como um espaço do desancantamento. No primeiro, Xavier Dolan assinou um filme incrível, sobre uma mãe que tem de lidar com um filho hiperactivo. O mais extraordinário num jovem de 25 anos já com 5 longas-metragens é essa indiferença perante os que criticam, cononicamente, a sua “vaidade” e excessiva experimentação. The Babadook é o filme de terror do ano sobre a simetria dos sustos na infância e na idade adulta. A maternidade e paternidade é ainda também parte do tema do filme de Linklater (um cineasta que nem gosto particularmente) mas que inaugura um método “esquizofrénico” de produção e que tem de ver esse esforço inaudito premiado. Sobre o segundo tema, o contraste entre a falta de imagens, o excesso de mortes e a candura dos bonecos de argila de Rithy Panh colocam os sentimentos de qualquer espectador num milk shaker do qual já não se sai direito. The Congress é um filme visionário, intenso, sensível que continua a pontuar a angústia da desmaterialização, desta feita no cinema. (Reparei que não tenho espaço para louvar o “melhor cineasta do mundo”, Albert Serra, mas não faz mal pois ele sabe fazer isso bastante bem.)

(publicado em À pala de Walsh)

sábado, 27 de dezembro de 2014

O inferno como esgoto

Nunca tinha pensado na coisa mais óbvia: a geografia das cidades assente no labirinto escuro e subterrâneo do sistema de esgotos como uma metáfora arquitectónica do inferno.

Para repor níveis de crueldade

Nos jantares a seguir ao Natal há sempre dois tipos de resoluções: as de desintoxicação do corpo feitas ainda com a boca cheia de filhós e as de desintoxicação da alma (ou de lavagem das réstias de espírito natalício) feitas com a boca cheia de palavras duras sobre estes ou aqueles que tivemos de suportar.

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

"She would of been a good woman," the Misfit said, "if it had been somebody there to shoot her every minute of her life."

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

A rotina, a regularidade

Talvez por ter uma natureza fundamentalmente indisciplinar e indisciplinada sempre me senti intrigado pela relação entre a rotina e a regularidade. Os gestos, as palavras, as atitudes, quando colocadas numa circularidade sem fecho parecem entrar no domínio pejorativo do rotineiro, da imposição maciça de uma fórmula de vida. Contudo, não vivendo nós sem padrões, numa fuga de sobrevivência à incompreensão do caos, temos o lado positivo do padrão: a constituição de uma regularidade como sinal de perseverância, consequência e carácter.


Intriga-me então como se define o momento a partir do qual o regular se torna rotina ou qual é a linha de demarcação entre a fuga ao caos e a construção aritmética da vida. Esta minha preocupação não se prende com nenhuma vontade de ter um manual de know how para a vida. Interessa-me bem mais relacionar os ditos padrões com uma correspondência visual. 

Ainda há uns dias falava com um amigo sobre a distinção entre uma mulher atraente e alguém com o sexo escrito no rosto. Também aqui a regularidade e a irregularidade do rosto são sinais dessa predisposição à ordem ou à desordem. Se juntarmos a ideia de que a noção de clássico na arte parte da harmonia das linhas e estruturas e é aquilo que é passível de reprodução (Lembro-me de uma frase, penso que um dos editores de Flannery O'Connor que dizia que o clássico é o livro que nunca fica out of print ) e que o moderno rebenta a estrutura e trabalha sobre o único e o perene, há então uma correspondência a fazer:

-talvez a escolha entre a regularidade e a irregularidade, para a vida, para o rosto, seja uma decisão sobre o tipo de obra de arte que queremos ser; isto sem contar que o envelhecimento, a desordem da carne e da natureza são, por natureza, modernos. Modernos porque mortais.







domingo, 21 de dezembro de 2014

"Porque, de repente, estávamos perante uma situação completamente nova: podíamos objectivar aqueles dois homens, sem ser de uma maneira abstracta, chamar-lhes Ricardo e Zé Maria como quem diz Bouvard e Pécuchet. E objectivar — Bourdieu disse-o com insistência — é exercer um poder. (...)."

É também dessa objectivação que vive a estrutura e o poder dos breves textos do melhor cronista português da actualidade.

O diferente, o igual

“Admeto fica parado, primeiro,

depois quase levanta o braço, mas contém-se,

É um amigo de Admeto que impede que o
                                                   [braço suba
acima da mais antiga das convenções e do

                                                   [bom senso.

Um pai permanece pai e filho, filho,

Até que um dos dois morra e passe pelo menos

                                                   [um século

por cima de tudo o que é cortesia e normalidade;

mas enquanto tal não sucede, enquanto esse tal

                                                   [século não passa,

não há troca possível de posição desse bem essencial

     que é o sangue.

Quem primeiro pousou os pés no solo é mais velho,

e tal tem consequências:

o braço do filho não pode subir mais alto

                                                   [que o braço do pai,

assim ditam as leis não escritas, mas que ninguém

                                                   [esquece.”,

Gonçalo M. Tavares in "Os Velhos Também Querem Viver"

Eu pela minha parte nunca sentirei falta de "narrativas mais convencionais". Talvez seja porque me interesse sobretudo pela literatura de Gonçalo M. Tavares como mapa filosófico sobre e do real. Já as histórias faço-as eu, se tiver pachorra.

O mercado (o Natal, agora) exige do Gonçalo M. Tavares ou do Herberto Hélder aquilo que exige da Margarida Rebelo Pinto ou do Murakami. Neste espaço da venda, as palavras parecem, ameaçadoramente, tornar-se todas iguais, assim como todas as televisões mostram a estátua no nosso "cristo" Ronaldo, assim como nessa estátua estão todos os traços e linhas do herói igual e intercambiável: de Tom Cruise a David Beckham, o herói hoje quer-se apenas um. Na Madeira, o filho da terra subiu mais alto do que o pai e o filho torna-se pai, a Madeira nasce da semente de Ronaldo, nesta festa orgiástica de consagração em tempo real. Quem pôs primeiro os pés no solo?

No jogo das diferenças, uma estrela ao livro "Os Velhos Também Querem Viver", além da reprimenda dura ao bom aluno e do fascínio contra hype, parece um pouco fazer parte da demissão dessa tarefa da procura da diferença naquilo que se quer igual, da distinção dos traços de cada rosto e dos tijolos de cada façanha.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Arquitectura

Mandei os planos da tarde de hoje às urtigas para ler furiosamente "Jóquei" de Matilde Campilho. Jorra dele a alegria vistosa da vida, aparentemente sem caminhos impossíveis: do Cristiano Ronaldo às finanças, do aniversário do super-homem às revoluções como "lugares certos para a descoberta do sossego".

De todos estes trajectos-sentidos há um, breve poema, que, sem ser sequer dos melhores, resume aquilo que também sinto, desculpem-me, pela arquitectura.

"Aprenderei a amar as casas
quando entender que as casas
são feitas de gente
que foi feita por gente
e que contém em si a possibilidade 
de fazer gente."

Agora que penso talvez fosse também possível substituir a palavra "casas" pela palavra "política".

A primeira hora em que o filho do sol brincou com chumbinhos



"Meu querido, as árvores falam. Os tigres correm olimpíadas em pistas muito mais incríveis do que aquelas feitas de cimento laranja. Usain Bolt vezes vem, o sorriso de Usain Bolt vezes mil. A matemática não é difícil se você comparar tudo ao aparecimento de um cardume. Alguns frutos nascem no chão, outros caem nos ramos. É preciso estar atento. Certas canções despertam em nós a vontade de uma história que já aconteceu mas que não vai acontecer mais. Algumas histórias têm a duração exata de uma música rock, outras se dividem em cantos. No intervalo dá para comprar pipocas. Poucas pessoas contaram as riscas de uma zebra, mas todos os que o fizeram regressaram diferentes. O alvo de um humano está no terceiro olho e um dia alguém vai explicar para você como afagar ele e onde ele fica. Nunca aponte ao terceiro olho, como aquilo é só cuidados. Algumas vezes vão te empurrar e você vai empurrar de volta, provavelmente vai até querer pegar uma pedra para jogar no peito de quem te feriu. Isso não está certo, mas é humano. Quase tudo o que é humano é justo, não deixe que ninguém te diga o contrário – só não vale enfiar o dedo no tal olho porque isso é igual a matar. A morte é o contrário da justiça. Os peixes respiram debaixo de água e se você mergulhar entre as rochas e se concentrar muito também vai conseguir. Ah é: os peixes brilham mais do que as chamas, e alguns deles vão morar dentro de seus pulmões. Segure-se. Faça por polir seu riso, principalmente ao entardecer. Afine diariamente a pontaria e reze para que nunca seja necessário o disparo. Não existe proteção melhor do que a consciência de que podemos decidir atirar ao lado. Sim, daqui a muitos anos você vai conseguir acertar direitinho nessa lata de coca-cola que a gente suspendeu no sobreiro. Só acho que que não vai querer. Também vai saber por que razão é melhor segurar uma arma descalço – é que é na terra que está a consciência do mundo, e é preciso escutar o seu ruído para agir em verdade. Saiba também, querido, que muitas vezes a sombra de um desenho é bem mais bonita do que o desenho que está à vista. É preciso estar atento, e descobrir o bichinho que se mexe debaixo da folhagem. Não o mate: se cubra de flores e entre para brincar com ele."


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Purgar




Em THE PURGE há uma visão para a sociedade "perfeita" de controlo e higienização de violência. O governo autoriza uma noite especial, doze horas, em que o homicídio é possível, legal e em que os instintos destruidores devem ser libertados para que tudo funcione pelo melhor nos outros 364 dias do ano. Set up que permite a celebração dionisíaca, de libertação dos constrangimentos civilizacionais e pulsionais. Quem quer dar um tiro ao patrão ou ao vizinho (que esfrega na sua cara o sucesso no trabalho) só tem de esperar pela purga anual.

Se o terror é na sua essência também ele uma purga, o espectador confrontado com esta sinopse pensa duas coisas. Primeiro, com pudor, vai reflectindo na contenção da violência como o máximo do controlo possível de uma estrutura societária que não se poupa a hipocrisias para manter o equilíbrio do ecosistema. Depois, esse mesmo espectador pega numa faca, corta essa glândula parasita chamada consciência, e começa a imaginar que o filme de James DeMonaco pode e deve mostrar todo o caos que essa purga permite. O terror só teria a ganhar.

Há uma certa desilusão então quando a opção é pela situação do encarceramento caseiro (um pouco como a esquadra de Carpenter) de uma família que não precisa de usar a purga para se libertar. Nessa invasão, os micro acontecimentos não estão à altura do contexto de base, as máscaras dos invasores querem sublinhar desnecessariamente o sadismo de toda a situação e o alvo principal, um negro sem-abrigo, surge apenas como clarificação pleonástica da discriminação e do diferente.

Tudo somado é o caos contido, o caos possível que parece, contudo, nos ser revelado pela via da ordem. Ainda assim darei uma chance ao segundo volume da purga, ao que parece transportada para o lá fora, o lugar por excelência de Dionísio e da libertação.



segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

proporcionalidade

Qualquer pequena acção precisa de um grande objectivo. 
Qualquer grande acção precisa de um pequeno objectivo. 

Qualquer objectivo dispensa a violência da intenção.

sábado, 13 de dezembro de 2014

Razões


"Estou metido até ao pescoço nos meu problemas; a minha teoria, segundo a qual o mundo do bem e mal é um mundo unicamente aparente e perspectivista, representa uma inovação tal que às vezes fico completamente pasmado." (Nietzsche, carta a Overbeck, 1884)

"O drama neste mundo é que cada um tem as suas razões." (Renoir, 1937)

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

the geranium didn't look like a flower



Um dos primeiros contos que Flannery O' Connor escreveu é sobre um gerânio e uma cidade com pessoas umas a olhar para as outras através das janelas dos prédios. O gerânio parte-se e com ele o passado: de uma pensão de velhas e caves definidas (sem corredores infinitos na horizontal ou escadas intermináveis como cavernas), de uma escravatura de caçadas mas sem palmadinhas nas costas do branco.

O presente surge assim já na velhice das flores partidas (que não são flores mas o rosto dos doentes ou a roupa alegre das velhas), das armas imaginárias e do ganhar alento para descer os degraus até à rua. Não se lá vai para reconstituir o gerânio despedaçado que caiu do parapeito da janela (vizinho descuidado) "with the roots in the air", mas para deixar que as costas sejas tapeadas pelo Outro subserviente, pela multidão de uma Nova Iorque acabada de sair de um postal.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014



“ (…) cada ponto de interrogação que colocais à frente das vossas palavras e doutrinas favoritas (e ocasionalmente à frente de vós mesmos) encerra uma veracidade mais digna de louvores que todos os vossos gestos solenes e argumentos invencíveis apresentados perante os vossos acusadores e juízes!  Ponde-vos antes à margem! Fugi para a solidão! Conservai a vossa máscara e subtileza para que vos confundam! Ou para que vos receiem um pouco! E não esqueçais o jardim, o jardim de grades douradas! Rodeai-vos de homens que sejam como um jardim – ou como música soando sobre as águas ao cair da noite, quando o dia se converte em recordação: - escolhei a boa solidão, a solidão livre, frívola e ligeira, aquela que vos dá o direito de permanecerdes bons, num qualquer sentido!”- in “Para Além de Bem e Mal”, p. 47 (Nietzsche)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Do cimento




O que é interessante em LOCKE de Steven Knight é destruir a ideia de que um filme onde se verifique a compressão espacial precise de uma outra tensão dramática espacial noutro sítio, invisível, que a compense. Destruir é uma palavra forte, pois o filme vive das incertezas familiares e morais do seu lockiano "contrato social". Ele apenas faz com que o espectador venha consigo medir a segurança das fundações, preparar-se para o cimento do erro e da incerteza. Por isso, nos momentos de maior aflição em que o espectador pensa, "epá e agora?", Knight corta para telefonemas menos urgentes do seu protagonista. A metáfora da construção, do edifício muito bem planeado que no momento de se concretizar pode vir a dar para o torto exige essa alternância entre desespero de acção e compasso de espera.

domingo, 7 de dezembro de 2014



No último capítulo do livro "[After the Media]", chamado "Be Offline and Exist Online", o teórico alemão dos media Siegfried Zielinski escreve sobre os utilizadores das redes sociais:

"They do not want to be merely associates within a functional mechanical network where the best possible sensation they can have is to be permanently wired. Their communicative activities are driven by the hope that the friendships in the technical beyond can perhaps be extended into the here and now of an experience. That there is perhaps someone on the other side who is capable of listening and who speaks the language that is not the same as that of the hard-nosed integrators and minute takers." (p. 250 Trad. Gloria Custance).

O meu problema tem a ver com a palavra "hope". A formulação de Zielinski parece estar simultaneamente dentro e fora do problema. Quer dizer, por um lado ele está "dentro" - a mediação constante que torna obsoleta a diferenciação mediática em detrimento da problematização da mediação enquanto objecto relacional  - mas parece projectar um "fora" - quando pensa que quem está dentro, inter-ligado, conectado, procura, deseja, um aqui e agora da experiência.

Parece-me que, precisamente, a questão se prende com essa anulação ou mutação da "esperança", de um ideal de felicidade que passe por um fora da mediação digital. Dando um exemplo um tanto simplista e boçal mesmo: os prisioneiros da caverna, acorrentados, não tinham consciência do que havia lá fora. Para eles não havia um mundo exterior. Para haver um dentro e fora, isto é, uma consciência hermenêutica de gestão de uma existência online mas de um ser offline, como parece advogar no fim do livro com o seu manifesto "Vademecum for the Prevention of psychopathia medialis", é preciso das duas uma: ou atacar o problema da formatação das fronteiras, onde o dentro consome a ideia do fora; ou ter uma perspectiva geracional de um antes e depois que nos permita apelidar a uma acção ecológica.

Zielinski parece estar na segunda das hipóteses. No nº 18 do manifesto escreve sobre a necessidade de redescobrir a viver o presente (p.260) e evitar aquilo que chama uma "arqueologia em tempo real" (p. 244), ou, no número seguinte, esclarece a importância de activar  um  "conscious split" entre essa existência digital e esse ser real, na conquista de uma relação profana com a integração digital. 

Esta solução, assente numa espécie de ecologia ou força de vontade ou carácter nietzchiano, deposita uma crença na aprendizagem de uma separação entre existir e ser, da construção de um fosso entre a exactidão cibernética e a individuação, na compatibilização entre a matemática e a imaginação.

Pela minha parte acredito mais na construção de mecanismos e artefactos que interrompam essa indistinção entre o dentro e o fora. Só assim, poderemos deixar de depositar demasiada esperança num discurso sobre a necessidade e o benefício do intervalo, da in-disciplinariedade, da intermitência, do entre imagens ou coisas. É preciso criar instrumentos que trabalhem nessa interrupção que criem a urgência, a necessidade para o engenho dessa tarefa. Esta trabalha contra a hegemonia técnica, mas sobretudo económica, do controlo estatístico e da governação algorítmica.

O problema dos media não é outro senão este, o da necessidade de encontrar uma estrutura que não faça correr o dentro pelo fora e viceversa, que interrompa a linha, a repetição, isto é, a técnica na sua velocidade pura e inumana.
 



 

sábado, 6 de dezembro de 2014

Ancient Greece?

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Linhas

Ando obcecado com linhas: as linhas rectas formadas pelos sulcos na terra cultivada, as linhas de caminho de ferro, as linhas de montagem nas fábricas, as timelines dos programas de montagem, mas também as linhas da vida. Nessa linearidade material ou prometida joga-se o jogo da repetição e da diferença. Quando a repetição se articula nesse ambiente de linearidade temporal, o stop impulse surge mais fragilizado e a linha circulariza-se na adição.


Dilema: como produzir a diferença, a negantropia, nessa linearidade temporal covertida em fluxo circular, sem pontos de fuga? Como não permitir que a linha devore a ambição pelo ponto? 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Vontade forte, vontade fraca

Na composição do querer, que envolve um movimento de afastamento das hipóteses possíveis e um movimento de aproximação à coisa escolhida, Nietzsche fala-nos, com as palavras corrosivas e guerreiras de sempre, dos seus três elementos. Não há querer sem sensação, reflexão e afecto. 

Quando se fala tanto da falta de querer em relação às coisas - e não focando aqui no elefante da sala que compõe a formatação do self pelos artefactos técnicos - pensava apenas como esse querer é afectado na sua constituição também pela crise das hierarquias. Por sob a defesa de um valor erradamente tido como absoluto chamado liberdade, a ideia de exploração foi remetida para o espectro da invisibilidade. Ou seja, ela já não é tolerada naquilo que tem de visível e material mas esconde-se por detrás dos mecanismos invisíveis de controlo e de poder. Assim, é também nesse campo invisível por excelência, o interior do indivíduo, o espaço onde a autoridade está também ameaçada. Como se o indivíduo tivesse sido ensinado a não tolerar qualquer espécie de exploração, a começar pela exploração de si próprio por si próprio, ponto assim em risco a própria ontologia do querer

"Um homem que quer", diz Nietzsche, "ordena a algo dentro de si, que obedece, ou que ele julga que obedece." Ora, é precisamente esse "ordenar" e essa "obediência", esse esquema vivencial, que hoje está retoricamente posto de lado, demolindo social e psicologicamente essas condições do querer




segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Imagem sem espectador

Apanhei uma citaçãozinha do livro "Poética del Cine" (2000) do Raoul Ruiz onde este escreve que hoje o espectador de cinema se converteu num connoisseur. Conhecedor na medida em que sabe o que está a acontecer, antecipa as acções porque interiorizou as regras do "jogo", quer por as ter aprendido quer por intuição. O cinema comercial pressupõe assim, diz ele, uma comunidade internacional de connoisseurs e um conjunto de regras para o jogo da vida social. Nesse sentido, o cinema comercial é o espaço social totalitário por excelência.



Esta ideia dos espectadores como experts de um cinema em relação dialéctica com o social não deixa de me fazer desenterrar a velha querela dos críticos versus espectadores. Se o Raul Ruiz está certo e os espectadores se tornaram em experts do cinema, talvez o crítico devenha "crítico da vida" ou da "mise-en-scène" social que a sétima arte quer construir e na qual quer modelar todos estes especialistas da imagem sem espectador. Isto é, dos que olham, expropriados da sua própria visão.

domingo, 30 de novembro de 2014


“Because we’re full of pride and see humanity firmly established as the rulers of the solar system, we tend to think that nothing more powerful, more moral and more delightful or in any way better than we are could possibly come after us. Most of us find it difficult even to contemplate the possibility that we are fulfilling a role like that of the feathered egg-laying reptiles who were the predecessor of the birds. But the signs are here: we already talk, first in fiction but now in science, about artificial intelligence. There are many possible forms of life and evolutions of Gaia beyond the ones we know.”, p. 17


“Greenpeace, your great and powerful negative feedback on all that enlightened technical progress stands for: quit your war with GM, with nuclear energy and with the chemical industry, and see what might be your target – the real enemy, that computer on your desk; something that could morph into a new form of life powerful enough to destroy us, our carbon life forms, and inherit the Earth.”, p. 84

 James Lovelock, " A Rough Ride to the Future, 2014

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

A Rought Guide to the Future


  Não há ano que não se passe que não se ouça a expressão "nós não somos nada" para embalar esse passar. Morre alguém, assoma-se uma tragédia, e fazemos questão de lembrar, uns com intenção verdadeira, outros só pelo ritmo das palavras, a fragilidade da condição humana. 

Aos 95 anos, o cientista James Lovelock, em jeito de despedida faz do antropoceno uma batalha perdida, em que há que aproveitar o que resta enquanto durar. O impacto da condição tecnológica na atmosfera exigiria uma adaptação radical às novas condições de sobrevivência de Gaia. 

Tal como a morte do indivíduo que surge lentamente pela velhice ou de um momento para o outro, fruto de doença ou acidente, também o fim da humanidade como espécie espera o seu fim. E só há duas opções: a morte súbita, com sucedeu com os dinossauros, ou a morte evolutiva. Nesta, a terra pode muito bem reagir ao nosso impacto nela, tornando as condições de vida insustentáveis para nós, dispensando-nos.

Sair de cena tem assim toda a aparência de um bumpy ride.


sábado, 22 de novembro de 2014

Kent


terça-feira, 18 de novembro de 2014




Fim dos Retalhos d'um Gajo que Vê Filmes. O ligeiro toque de Alfama é oferta da casa.

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Eu juro que queria por aqui coisas originais mas têm apertado comigo ali ao lado. Leiam lá a entrevista ao Rui Tavares.

domingo, 16 de novembro de 2014

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

sábado, 8 de novembro de 2014

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Masterpiço

Não sou grande degustador de viagens estelares mas nem é por isso que torço o nariz ao far far beyond INTERSTELLAR. Depois de o ver em 70 mm numa sala IMAX com as rodas dos pneus e as naves a perfurar tímpanos, confirmei uma coisa em que tinha pensado a caminho da sessão. É que o que divide os nolanianos dos não nolanianos está para além (é independente) dos filmes. Explico-me. Ou tento.

Os seus blockbusters de autor - e são estes que abriram a fenda entre os lovers e os haters - marcam uma diferença entre dois ideais. Uma vontade de ver a vida como luz, algo positivo em que é preciso acreditar com força e convicção; e uma vontade de fazer o não elogio, de expor a sombra, do presente embebido em álcool e conversa, de orgulho na crença de uma falta de crença e de um sentir a sangue frio o tempo que passa sem um sorriso poluidor, sem uma expectativa salvífica que engane o "pacóvio" até chegarem as térmitas ao caixão.

Exagerei, deixei-me levar, mas é isso que está em causa quando nos deixamos ir a sorrir por entre esse espaço fora com a imagem e o som a ribombar com uma humanidade que fez merda e há-de encontrar salvação algures ou, pelo contrário, à segunda chapada de Dylan Thomas e ao levar com o plano do Matthew McConaughey a fazer de legenda para Lázaro dizemos, não, chega, não estou para isto, prefiro ir beber uma mini e comer tremoços.

Seja como for, neste último filmaço de Nolan, o melhor de todos os tempos, passado, presente e futuro, o que enerva mesmo mesmo é que a superficialidade da sua mensagem é feita passar como banha da cobra. Não é um filmeco que quer avacalhar, não, é um monolito que pensa que está a atingir níveis de profundidades reservados ao Criador. Senão vejamos. INTERSTELLAR quer fazer a apologia do simples, despojado e pequenino. É o quarto da filha em vez do universo, é a família à qual é preciso regressar em vez de se ser o rei do pedaço e salvar a humanidade toda e ser por todos reconhecido para todo o sempre.

Mas que sentido tem fazer a apologia do simples num filme onde tudo é desmedidamente grande, como se a incontável dimensão do espectáculo, das imagens, das referências metidas a martelo, da ambição desmedida (salvar o mundo, pois claro) depois fossem tão longe para dizer o seu contrário: é o amor, o amor é que vai salvar isto tudo. Esta mensagem "vai onde te leva o coração" enerva pois é a máquina que quer fabricar um conceito de bem e de humanidade que a todos domine e a todos faça abrir os olhos.

"I used to be blind but now i can see". A ambição evangélica do filme de Nolan assente numa espécie de balela pseudo-mística humanista no fundo nada mais é do que a actualização da mensagem da bondade religiosa. Que diferença existe entre: o amor é a chave da humanidade da religião nolaniana e o "amai-vos uns aos outros" daquela religião mais ou menos conhecida daquele senhor que agora me falha o nome?

O amor não precisa de panfletos e ele, como muitas outras coisas serão indispensáveis à sobrevivência que é tudo, como toda a gente sabe, menos uma tarefa asséptica. Se há coisa que não pode caber na limpeza deste filme é a sujidade de estarmos prestes a desaparecer. Não há tempo. Muito menos três horas ou lá que é.

Conversinha à pala sobre o dito cujo aqui.

terça-feira, 4 de novembro de 2014

A rosa é a vida



Gostava de ler sobre a comparação de lirismos - o que se perdeu e o que se ganhou - com esse tortuoso caminho que vai da rosa de Chaplin vagabundo às rosas sangrentas de Werner Schroeter. Marcel Duchamp talvez seja o missing link.

domingo, 2 de novembro de 2014

Domingo é dia de dríades

"Uma vez, o meu avô apaixonou-se por uma dríade - uma ninfa dos bosques que vive nas árvores e para quem as árvores são sagradas e que dança em volta das árvores vestida com um delicado tutu verde da cor da folhagem e que traz consigo um grande machado cintilante como prata para limpar o sebo a qualquer pessoa que execute todo e qualquer gesto hostil para o bem-estar e para a saúde mental das árvores. À época, o meu avô era madeireiro."



in "Partidas", 40 HISTÓRIAS de Donald Barthelme, p. 120.

sábado, 1 de novembro de 2014

O negro e o sono

Um dos episódios com que Jonathan Crary abre o seu "24/7 Late Capitalism and the End of Sleep" é, se não me falha a memória, o projecto de usar satélites terrestres como sistemas de redireccionamento da luz solar. Essa é uma forma de terminar com o conceito de noite, além da fugacidade da luz eléctrica, e, consequentemente, trazer às regiões do planeta com escuridão de meses a "dignidade" luminosa que merecem. Isto além, claro, dessa notinha de rodapé de interesses que é o sistema comercial funcional sem horário de fecho - 24/7.


A capa do livro tem essa montagem feliz das janelas-gaveta, num ambiente matrix-suburbano. Sem cortinas (a cortina corta a luz, a cortina é o fim do espectáculo) numa composição feita de milhares de micro-composições, são os rectângulos a perder de vista ao género "onde está Wally?" sem Wally. Podemos dizer que não há porque olhar para um ponto específico, que é o efeito de conjunto - tal qual parada chinesa em abertura de jogos olímpicos - o que interessa. O enquadramento final, aquilo que delimita o olhar, são os bordos do livro e, de certa maneira, os garrafais números laranja que, em toda a sua pompa, funcionam como sinais publicitários. Estão lá com a sua função de trabalhar o "fundo" das gentes, mas aqui em primeiro plano, fazendo inverter auraticamente o jogo do próximo e do distante.

Não me interessa tanto aqui fazer a semiótica apressada e abusiva da montra do livro de Crary. Pensava apenas na forma como o cinema, além do branco e preto como começou (num sistema de significações que compõe a forma pelo doseamento da aparição e desaparição do negro sobre o branco e viceversa), se popularizou com um enquadramento arquitectónico do negro das salas que delimitava o outro enquadramento que se movia, feita de imagens irrequietas mas aprisionadas/contextualizadas por essa escuridão. Esse negro da sala, como rebordo das imagens a ver, funcionava como limitação, como indicação do: para onde olhar. Se a decadência do cinema corresponde à decadência da sua aura (que se erigia por sobre esse negro da sala), pode estabelecer-se, inocentemente ou não, uma correspondência de negros. Entre o negro que enquadra o cinema e lhe dá a especialidade e a negro do sono, enquadramento do dia, como pressuposto da especialidade do humano.

São todos esses negros - na medida em que envolvem o limite da forma- que têm hoje a cabeça a prémio. É preciso manter os olhos abertos para o sono.













sexta-feira, 31 de outubro de 2014


quarta-feira, 29 de outubro de 2014

The Ghost of Mr. Bénard


Ainda que eu ache que a expressão "cinéfilo priapismo post-mortem ad aeternum" resuma exemplarmente, em jeito de insulto elogioso ou elogio insultuoso, aquilo que Manuel Mozos conseguiu pela memória de João Bénard da Costa, há duas ou três coisas que eu sei dela (da memória) que não me deixam que JOÃO BÉNARD DA COSTA - OS OUTROS AMARÃO AS COISAS QUE EU AMEI vá pelo ralo do meu subconsciente sem antes vir, pelo menos uma vez, à tona. 


O último texto que Roland Barthes escreveu tinha esse título incrível "Falhamos Sempre Quando Falamos do que Amamos". Essa proximidade excessiva ao ponto da (con)fusão com o objecto amado, tolda a visão, empena a caneta, emperra a câmara ou o pincel, em detrimento de um elogio sem freio. Contudo, na arte como na vida nada almeja à pura objectividade, nada obriga a separar a ideia do sentimento, a convicção de uma pretensa originalidade. Também com a escrita de João Bénard da Costa as coisas assim se passavam nesses reinos da paixão analítica, da visão que nunca separava o facto do fado.
 
Essa escrita, em torno da qual gravitam os filmes da vida dele, claro, já chamava a gritar as imagens para com elas fazer uma ilha com um filme à volta, feita de águas perigosas infestadas de frases mortíferas e adjectivos impossíveis. Mas o filme de Manuel Mozos não faz dessa gravitação o seu amor. Pelo contrário. O seu amor, a sua voz, está, parece-me, na acto predatório da selecção, da montagem, que nela procura sacrificar a completa religiosidade do acto de amar loucamente (e de fazer um elogio agónico) em prol de um pessoa que importa reconstituir pelos seus olhos. Que disse ele, que escreveu ele, que viu ele quando me estava era a ver a mim? Essa escolha, mais do que escolher a pose com que Bénard vai aparecer na fotografia da eternidade, vem dar uma visão de fantasma àquele a quem o cinema por estas bandas pertenceu, pertence e pertencerá. Todos as pequeninas senhoras Muir aí escondidas por vir, que se sentarem nas salas escuras a ver o que ele dava a ver, darão de caras, mais tarde ou mais cedo, com esse fantasma. 

Não me pergunto quem amará o que ele amou pois, por mais religiosa que seja a experiência do cinéfilo, a metáfora crística impede-me de comparar amores ou traçar cartilhas para eles. O que me deixa inquieto, e é esse o meu priapismo privado, é: o que fazer deste fantasma, desta ausência que não está apenas neste filme, está em todos os filmes. Essa presença-trauma para o espectador, para o cinéfilo, quem no-la trouxe para o reino dos imagens-espelho foi Manuel Mozos. E é essa vinda a narrativa escondida do seu filme.