sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Comer sozinho
Antes de Cristo
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
Uma sala em ruínas e lá dentro a felicidade
terça-feira, 15 de novembro de 2011
A transformação do padeiro
domingo, 13 de novembro de 2011
A Infância de Ivan, Andrei Tarkovsky
Porque nesta primeira obra, o epíteto «primeira» excede em muito a cronologia do trabalho cinematográfico do cineasta russo, e diz respeito à produção de uma primeira e nova abordagem ao cinema que parece respeitar de forma mais intrínseca os princípios da imagem em movimento que buscam incessantemente desde o seu inicio aceder a uma vida, simultaneamente interior e exterior, como se o quotidiano fosse uma espécie de poesia da alma e o sentimento uma prosa da natureza. São elementos que o cinema ajuda, na sua relação imagem/coisa, a conceber como duas coisas «indiscerníveis e contudo distintas».
Por isso é tão injusto o ataque da crítica de esquerda italiana aquando da estreia do filme em Veneza, acusando-o de preferir um esteticismo burguês à verdadeira luta de classes (referindo-se sobretudo às sequências dos sonhos de Ivan). Mas não o é menos a defesa de Sartre à obra apelidando-a de QUATRE CENT COUPS soviético, inaugural de um «surrealismo socialista». Neste início esteve em causa uma criança, amputada na sua infância, forçada a crescer, mas que não serve a deambulação subjectiva pela experiência de guerra (como GERMANIA, por exemplo); e onde nem sequer a guerra, tema chave, importante prova de certificação para os cineastas de renome na união soviética desta altura, é meramente um palco de tragédia infantil. A infância com prolongamento na idade adulta, e a guerra encolhida nos seus bunkers, invisível e centrada na relação entre os soldados, ambientam antes o projecto artístico de Tarkovsky: a circularidade entre o comprometimento político e o descomprometimento artístico, o cinema que deseja transformar-se em poesia. Não que esta poesia seja enaltecida como um especial acesso aos «lugares mais profundos da alma humana», mas sobretudo porque é a conexão, ou a articulação poética aquela que melhor abre a lógica do raciocínio dos homens. Se o raciocínio é para Tarkovsky uma espécie de «poesia do pensamento», é sobretudo na carga material do cinema que se consegue visualizar a questão.
A guerra e a infância são os temas a propósito dos quais Andrey Tarkovsky começou o seu périplo pelas imagens terríficas e maravilhosas. Entre o fotograma do horror e o do êxtase, depois quase sempre houve chuva, fogo, levitações, reflexões, beijos, deambulações, desaparições e trincheiras. Mas estes elementos que construíram situações e a proximidade entre o homem e o mundo nunca simbolizaram. Essa coragem de não ser simbolista valeu provavelmente a Tarkovsky a vida. Mas também nos mostrou como é que o quotidiano no mundo, quando visto por esse «terceiro diabólico» que é a câmara, pode ser eterno; também nos deu a ver a proximidade entre a ficção científica - um espaço desconhecido sem fronteiras - e os dilemas metafísicos do homem (SOLARIS) - um espaço interior desconhecido sem fronteiras.
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
O corpo como vingança
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Sobre a tristeza

Acredito que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão que consideramos paralizantes porque deixamos de ouvir os sentimentos surpreendidos a viver. Porque nos encontramos sós com uma coisa estranha que entrou no nosso interior; porque tudo o que nos é íntimo e familiar nos foi tirado por instantes; porque ficamos no meio de uma transição onde não podemos permanecer. Por esta razão a tristeza também passa; a coisa nova dentro de nós, aquela que está a mais, entrou no nosso coração, entrou para a parte mais profunda e já lá não está – já está no nosso sangue. E não percebemos o que foi. Facilmente poderíamos acreditar que nada acontecera, e no entanto estamos diferentes, como uma casa fica diferente quando um hóspede entra. Não sabemos dizer quem chegou, talvez nunca o saibamos, mas muitos sinais indicam que o futuro entra em nós desta maneira de forma a transformar-se em nós, muito antes de acontecer. E por isso é tão importante ser solitário e alerta quando estamos tristes; porque o momento aparentemente calmo e silencioso em que o nosso futuro põe um pé dentro de nós está muito mais perto da vida, do que aquele outro ponto no tempo, barulhento e fortuito, que nos acontece como se fosse vindo de fora.»
in CARTAS A UM JOVEM POETA, Rainer Maria Rilke, 1934




