
"Let us go then, you and I,
When the evening is spread out against the sky
Like a patient etherised upon a table (...)"
in The Love Song of J. Alfred Prufrock, by T. S. Eliot

The Thin Blue Line (1988) figura hoje por certo como a mais célebre obra do documentarista norte-americano Errol Morris.
A partir daqui The Thin Blue Line dispensa apresentações, não lhe faltando motivos para entrar na história do cinema. Combinando sequências de entrevistas aos intervenientes com cenas de reconstituição dos principais acontecimentos daquela noite (reconstituições dramáticas que a partir daí se tornaram um marco no documentarismo), Morris constrói um documentário tenso onde o espectador não sabe, até ao desfecho final, quem cometeu na realidade o crime. Terá sido essa a chave, dir-se-ia ficcional, com a misteriosa banda sonora de Phillip Glass a sublinhar essa dimensão enigmática, que lhe valeu notório sucesso comercial.. E não fosse ter sido considerado um filme de ficção pela academia e teria sido forte candidato a vencer o óscar de melhor documentário naquele ano.
Mas, uma vez digeridos os fait divers, o que fica mesmo é essa pequena linha divisória, essa “thin blue line”, expressão adaptada de um poema de Rudyard Kipling e que aqui terá surgido em tribunal da boca do advogado do Ministério Público para ilustrar a fina separação entre a sociedade e anarquia. Diríamos que a linha ténue de The Thin Blue Line é entre ficção e documentário, como hoje muito em voga, mas aqui com a divisão entre o whodunnnit e suspense ficcionais e um reverenciado selo documental. Mas o que espanta mesmo mesmo é a integridade, o recuo, de Errol Morris em ambos os registos. A ficção nunca é mais do que suporte ou inócua reconstituição. A documentar, apesar de nunca esconder o seu lado, Morris mostra também decoro invejável, com diferentes pessoas a ser-lhes dado o mesmo espaço: aqueles planos bidimensionais perversos, palcos para as histórias de cada um. Palcos que se vão encolhendo, apertando, para alguns desses intervenientes ante o NOSSO olhar moral à medida que sabemos mais do que verdadeiramente de passou.

Cléo de 5 à 7 usou como poucas obras a liberdade temática e estilística que o movimento da Nouvelle Vague proporcionava. O curioso é que se o filme de Varda se transformou numa espécie de hino obscuro, segredado, da Nouvelle Vague, a sua autora, a “avó” do novo cinema parisiense, sempre manteve uma distância cautelar face ao núcleo duro Godard, Truffaut, Rhomer. Esse lugar reservado explica-se por Varda ser uma cineasta cuja subjectividade se ergue como critério anterior ao programa da Nouvelle Vague...
