segunda-feira, 7 de novembro de 2011
O corpo como vingança
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Sobre a tristeza

Acredito que quase todas as nossas tristezas são momentos de tensão que consideramos paralizantes porque deixamos de ouvir os sentimentos surpreendidos a viver. Porque nos encontramos sós com uma coisa estranha que entrou no nosso interior; porque tudo o que nos é íntimo e familiar nos foi tirado por instantes; porque ficamos no meio de uma transição onde não podemos permanecer. Por esta razão a tristeza também passa; a coisa nova dentro de nós, aquela que está a mais, entrou no nosso coração, entrou para a parte mais profunda e já lá não está – já está no nosso sangue. E não percebemos o que foi. Facilmente poderíamos acreditar que nada acontecera, e no entanto estamos diferentes, como uma casa fica diferente quando um hóspede entra. Não sabemos dizer quem chegou, talvez nunca o saibamos, mas muitos sinais indicam que o futuro entra em nós desta maneira de forma a transformar-se em nós, muito antes de acontecer. E por isso é tão importante ser solitário e alerta quando estamos tristes; porque o momento aparentemente calmo e silencioso em que o nosso futuro põe um pé dentro de nós está muito mais perto da vida, do que aquele outro ponto no tempo, barulhento e fortuito, que nos acontece como se fosse vindo de fora.»
in CARTAS A UM JOVEM POETA, Rainer Maria Rilke, 1934
domingo, 23 de outubro de 2011
Twenty Cigarettes de James Benning

Em 1983, Deleuze falava-nos da potencialidade do rosto de, ao sacrificar a sua mobilidade global, poder recolher e reflectir os outros movimentos do corpo através dos seus próprios micro movimentos intensivos. Se se percebia a intenção do francês, à época, de procurar um conceito para a definição de um potencial afectivo na imagem, de um trabalho sobre o grande plano como isolador do espaço, do rosto como pedaço de um todo feito universo que ora pensa, ora sente, hoje as coisas «desrostificam-se». Ou seja, o rosto parece ir a caminho de perder esse mapeamento de uma emoção. Senão vejamos.
Um filme como TWENTY CIGARETTES de James Benning, que se recusa enquanto experiência, mas se afirma como momento feito de momentos, nos seus vinte planos aproximados de peito, permite pensar o esgotamento do rosto como pólo afectivo. Essa afectividade, que está presente no filme, é sobretudo provinda da conjunção de elementos que não hierarquizam um olhar face a uma cor ou um som do fora de campo. Nessa perspectiva, o filme de James Benning permite pensar que o que era outrora missão do rosto reflexivo está hoje a cabo também de outros elementos, sem pudores, maquínico - cinematográficos. É portanto o facto da obra de James Benning ser sobre a composição do plano, sobre a duração (sua imagem de marca, de resto) enquanto esquema que permite ao espectador ir e sair da imagem, sobre os efeitos da cor e do fumo, sobre a tentativa de apanhar o momento do não pensamento, são todos esses elementos, mais ou menos formalistas, que recusam o epíteto de filme formal, porque são eles na verdade que concorrem para que a «ficção desse lado formal» e a dimensão emocional sejam uma e a mesma coisa. É porque um homem engole o fumo e a sua maçã de Adão se mexe com tensão que nos permitimos construir alguma coisa desse gigantesco fora da imagem? Ou, inversamente, é porque há um muro de granito, porque há um cinzento e um som de tiros ocasionais que nos permitimos pensar sobre essa sua maça de Adão e o seu olhar hirto? Ou melhor, e aqui está toda a virtude deste filme, como não pensar em nenhuma anterioridade? Há nele, qualquer coisa que o torna impossível de o qualificar como experiência formal, ou ao invés, como obra sobre a narrativa de vinte cigarros fumados.
Desta forma, não há absolutamente nada de metafísico nesta obra provindo de um cigarro, seu fumo, olhar para dentro, etc. A incrível fisicalidade do filme de Benning consiste sobretudo em pensar que a alternativa ao rosto, ou melhor, o rosto dos objectos (para manter a metáfora deleuziana) está na sua absoluta exterioridade. Não são apenas as micro-acções do rosto que usamos para construir a «personagem». São os dedos, o movimento do corpo, a construção do fora de campo, a textura do campo, etc. etc. Desta forma podemos hoje pensar que todo o exterior abarca um vastíssimo interior e que é nas movimentações dessa exterioridade que podemos, a espaços, ir anulando a dimensão de isolamento e corte que atribuía Deleuze aos grandes planos.
Na verdade, já há muito que se desconfiava disto: pensar e sentir, não só não são veículos exclusivos da rostidade, como se fundem um no outro como linhas que permitem prolongar o campo no fora de campo. E isto independentemente de cada rosto apresentado ter o seu orgulhoso percurso.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Das Wachsfigurenkabinett
domingo, 9 de outubro de 2011
Incondicional condição feminina

Na cor vermelha, a cor horrível em que nos queimamos, como referiu Goethe, há um esforço pela obtenção do que está para lá da razoabilidade, para lá da reconciliação romântica com a natureza. O expressionismo, e suas cores limite concebidas no preto e branco, trouxeram para os seus edifícios, ruas, luz, uma interrupção das linhas rectas. A celebração do obscuro, do oblíquo, não procura qualquer superação mas sim uma dimensão do não orgânico, primeira das forças em jogo no filme de Pabst. Nesta, o Homem e a Natureza (o não indiferente de Eisentein), integram-se e acabam subjugadas. Nessa relação entre forças fala-se da queda, dos homens ante Lulu (Louise Brooks) e de Lulu ante Berlim, o Cairo e finalmente Londres.
Contra esta força, nem sequer demoníaca mas sim não orgânica, dos espaços, do olhar do Inanimado, concorre uma segunda força. Esta reveste a forma da Graça feminina, da compleição fina e satânica. Mas este mistério do feminino, o de Lulu, o da actriz sensual, o da caixa de Pandora, não pode deixar de ser visto como um canto de sereia. Por isso esta é uma força divina e não uma força humana, trata-se antes do primeiro que castiga o segundo. Seja como for, esta segunda força é perfeitamente assimilada e consumida pelo não orgânico. Apesar da submissão desta força divina, espelhada na Graça feminina, esta não deixa de encerrar um mistério porque antes de Lulu fazer qualquer coisa além de olhar, sorrir, já um homem se matou e outro perdeu tudo o que tinha.
E por fim, a obra de Pabst rende-se no seu terço final, a uma atmosfera falsamente dickensiana, um Natal londrino, que esconde, ou melhor, está «aberto a» uma força ou excessividade humana. Humana, finalmente. O homem que não cai em perdição ante o poder de Deus (ou seja, levado a abrir a caixa de Pandora) ou do não orgânico (engolido pela arquitectura), tem de matar. E é precisamente curioso que seja na Londres plena de nevoeiro que Pabst tenha vindo buscar, postumamente, o fulgor expressionista de DIE BÜCHSE DER PANDORA.
Mas sobre este filme, como com outros, é mesmo preciso que a vida nos diga, na claridade da sua não sala de cinema, do que é que está a falar. Os filmes importantes são regra geral sobre as imagens que não vemos.
E sobre a condição feminina, espécie de alvo do filme de Pabst, que nos parece algo perdida entre forças e veículos que o filme carrega, diga-se que o grande dilema da masculinidade é «como forjar essa condição sem estar do lado do desejo ou do medo que traz o incompreensível»? É nesse intervalo que parecem estar contidas algumas lições como a de ser mãe ou a de usar o cabelo longo como cortina que ora enaltece ora esconde o rosto e suas emoções. O objecto sexual, a maternidade, a beleza feminina, a estereotipada vaidade, são tudo peças brutas e psicológicas que manufacturam a distância masculino / feminino. Um discurso, aquele que cria o feminino numa redoma de uma condição específica, feito de turbações, onde ainda a caixa de Pandora, a Lolita, a Eva, a modelo tola e outras, têm proeminência discursiva.
Pensar fora desse discurso tem a grande liberdade de perceber que não há condição feminina. Nem sequer há condição. Haverá quanto muito uma vontade deliberada do masculino de se impedir de feminilizar o mundo? É que só impedindo-nos de o fazer, só mantendo a não compreensão desse mundo feminino, os homens, frágeis, podem continuar a sua luta. A luta por um ideal, inexplicável, divino. Feminino?
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Contra a nostalgia, marchar, marchar
