domingo, 27 de março de 2011

The Awful Truth- Leo McCarey

As screwball comedies, comédias que apontavam a sua máquina de acidez aparentemente ligeirinha, inóqua, à movimentação dos géneros, ao disse que disse, casa descasa, ama que odeia, Leo McCarey fê-las como panquecas. Mas é neste THE AWFUL TRUTH, filme que McCarey fez para explicar a Capra como se faziam estas comédias, e que acabou por lhe valer o seu primeiro oscar para melhor realizador, que se pode ver a lenta transformação da teatralização deste subgenéro de comédia. As entradas e saídas de campo vertidas em entradas e saídas de cena, as longas sequências de conversa em interiores pontuadas pela alegorização dos pequenos objectos, a moral vitoriana denunciada pela singeleza do casamento. É talvez por isso que aqui seja propositado falar de um certo «touch», pertença ele seja a quem for, que mostra Aunt Patsy no cimo e abaixo do elevador onde tudo se transforma, ou no final absolutamente perfeito do filme com a utilização do relógio de cuco com as devidas figurinhas que hora dão as badaladas de casados juntos, ora dão separados. Mas mais do que mostrar a criatividade da solução final, McCarey consegue colocar novamente no tom certo uma comédia que tinha passado por uma certa travessia no deserto, que passa pelo divórcio do seu par de protagonistas e lento mal-estar de uma decisão errada, mas que, sobretudo a partir da seus últimos quinze minutos, se instala num território de um certo mal-estar, de abespinhamento pela facto de ambos não dizerem o que tem de ser dito entre eles e que reporá o equilíbrio da sua relação. Poucas vezes me lembrei de uma comédia que contivesse tal revolta por um desfecho positivo. É afinal de forte tensão sexual que estamos a falar e que nasce precisamente com a passagem do tempo por um amor que renasce mas não se reassume. Três anos depois, MY FAVOURITE WIFE, de Garson Kanin, produzido por McCarey, com o mesmo par de protagonistas, os “casados” Cary Grant e Irene Dunne, com uma estrutura e temas muito semelhantes, já não comunga dessa agonia, dessa dita tensão sexual revertendo a válvula de escape para o sentimento familiar. Aí já há criancinhas para tomar conta e a comédia fetichista que foi MY FAVOURITE WIFE transformou-se afinal, ainda que por ínvios caminhos, num filme mais capriano.

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