quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

La la la


Agora que com Trump a época la la la abriu oficialmente as hostilidades na América importa pensar por um outro ângulo a mais que repisada mutação do cinema mainstream americano. A crítica ao establishment mantém-se, a desejo de evasão é uma constante e pode subir de tom caso Donald comece de facto a cumprir muitas das coisas que disse e o seu proteccionismo começar a soprar o castelo de cartas das relações internacionais. A ver vamos. Mas ao constatar aquilo que os "modestos" 30 milhões do orçamento fizeram para construir este romance em tempos de dificuldades concorrenciais e luta pelo sonho do grande "american way of life" que é o mundo la la, o "La La Land", não pude deixar de pensar naquela velhinha máxima da suposta invisibilidade técnica no cinema clássico americano e da possibilidade de imersão num mundo. Pois bem, me dirão que isso não se aplica assim ao musical (ou mesmo à sua tentativa de reanimação). E é verdade, é até o seu contrário. O musical quebra essa invisibilidade, quer tecnicamente, quer no que diz respeito a um mundo chamemos-lhe "realista".

Se isto assim é, então parece-me que o paradoxo de um filme como "La La Land" pode assim ser desenhado. O onirismo, a fantasiam que marcavam os musicais de outrora, estabeleciam um corte epistemológico com o real e por isso eram considerados mundos à parte. Assim, seguindo as lições do género, o filme procura, pelo uso da cor, das canções, de uma câmara dançante, ou através dos aborrecidos dilemas das personagens de Ryan Gosling e Emma Stone cavar um fosso com o real, instaurando-o no território do maravilhoso musical. Contudo, eles continuam a dizer-nos as mesmas coisas que aponta um filme crítico do sistema de Hollywood como é "Maps to the Stars", de David Cronenberg, por exemplo. Ou seja, em certo sentido, "La La Land" procura escapar ao realismo, mas na forma como Gosling e Stone serão sempre Gosling e Stone - e não aquele casalinho de personagens indefeso e iludido que procuram sem sucesso representar, com aqueles valores e aspirações -, tal permite ao filme documentar o lado de cá da câmara. Um filme que se transforma num testemunho, ainda que involuntário, do brilho da máquina dos sonhos e seus habitantes. Isto é, "La La Land" é um filme extremamente realista na forma como mostra um real que é cheio de "irrealidade". 

Não é porque a personagem de Emma Stone, Mia, é aspirante a actriz e vai a castings, ou por Damien Chazelle filmar cenas em que há rodagens a acontecer no background que "La La Land" é meta-cinematográfico. Ele é-o na medida em que o mainstream hollywoodiano se torna cada vez incapaz de falar de outra coisa a não ser de si próprio, tornando-se por definição e essência meta-cinematográfico. Pormenores de adereços, episódios dramáticos, inserção de estrelas da música ou do social, a construção das personagens com os seus valores. Tudo isto são elementos que muitas vezes são fora do mundo que se pretendia filmar, antes pertencendo ao mundo que pega nas câmaras. 

Sabemos que Hollywood na sua história nunca foi propriamente realista, e que vários detalhes deixavam mais à mostra do que outros (penso no retrato do outro, estrangeiro) essa displicência. No entanto, havia um fundo de verdade no que dizia respeito à heroicidade, ao sacrifício, à grandeza no enfrentar do destino. Que outra coisa foi o cinema de Lang, Ford ou Peckinpah se não isso? A diferença entre o cinema americano dos grandes estúdios e o de hoje está no encolhimento dessa noção de verdade (mais do que de realismo). Dá a sensação que estamos hoje diante de um pesado espelho que é a forma que o cinema mainstream parece poder assumir neste momento. Um espelho que apenas vê realizadores, actores, egos, luxos e episódios vãos, cada vez com menos histórias para encaixar neste circuito glamoroso. Mas o mais perturbador é que este é um espelho disfarçado de janela. Isto é, quem faz impõe o que deve ser e parecer. E o que deve ser e parecer? O que é que nesse espelho performativo há para ver? Por enquanto nada: la la la.

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