Ver A DANGEROUS METHOD, de David Cronenberg coloca os fãs do cineasta
(para os demais é um pouco igual ao litro) num pequeno dilema: como justificar,
desculpando ou não, a convencionalidade desta obra que «triangula», em jeito de
biopic, por vezes amena e cómica, por
vezes flat e mental, a vida e
correspondências de Freud, Jung e Sabina Spielrein? Embora não possamos deixar
de assinalar a engenhosidade da interessante hipótese de Cronenberg
poder estar a reprimir Cronenberg, talvez não tenhamos tantos dados para o
afirmar ou desmentir. Agora, o que é notório, e com isso concordamos, é que
assistimos a um lento processo de interiorização do «cronenberguianismo»
ditado sobretudo pelas suas três últimas obras. Mas se em A HISTORY OF VIOLENCE e EASTERN PROMISES existe uma dimensão pseudo-profética da realidade, veiculada a
partir desses tais trejeitos autorais interiores, em A DANGEROUS METHOD, a «perigosidade
do método» consiste numa espécie de vazio (completamente logo preenchido pela
lógica de género que tenta formatar o filme). Só que esse vazio vem a
Cronenberg de outro lado. Se há obra sobre a explosão da carnalidade no homem
civilizado, essa é a do canadiano. Portanto, nem estranhemos que haja tanta
aparente parcimónia de Cronenberg na visita àqueles que puderam, desde o seu locus mental, justificar que corpos
pudessem explodir, implodir, escapar no sonho, fundir no metal ou simplesmente
lutar por uma outra noção de identidade. Desta feita, parece arriscado falar de
uma obra esteticamente menos conseguida, ou de um cineasta vergado pela
necessidade de conquista de um novo público. O que baralha as contas é que parece
que esse convencionalismo, sob o guizo dessa interiorização do universo de
Cronenberg, parece moldar-se a um universo cujo trajecto busca interiormente
uma justificação para o já agido, o já filmado. Assim se explica que embora
haja espaço para o caricatural das personagens, embora tenhamos rodriguinhos
amorosos escusáveis, por sobre A DANGEROUS
METHOD se erga uma «parede» cuja opacidade constrói pacientemente para o
espectador a verdadeira dimensão desta visita ao universo freudiano: «only the
wounded physician can know the illness». E aqui a sua «lisura» já é um sinal de
outra coisa, coisa obscura e mental…
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
sábado, 3 de dezembro de 2011
A diferença entre ser «expert» e ser-se esperto
No passado dia 22 de Novembro estreou na Culturgest o espectáculo de
performance «Não se Vê Que Sou Eu mas É
Um Retrato…», de Rita Natálio. Uns dias depois o jornal Público publicou a sua apreciação
crítica sob o título «O Teatro, matéria de
intervenção política». Embora goste de me confrontar com opiniões
divergentes, e sem me arrogar o título de especialista na área, parece-me uma
saudável e imprescindível tarefa de cidadania ressalvar aqui a pobreza dos
argumentos apresentados pelo autor deste texto para justificar aos leitores do
jornal uma suposta mediocridade da peça. É quanto ao respeito que mereço enquanto
leitor do jornal, que por ele pagou coisa de um euro, que entendo haver a
devida atenção e reparação, em função dos textos que ali são divulgados. Como
tal, enquanto não me devolverem o euro, vejamos:
Começa o autor deste texto por admitir que vivemos em período conturbado,
«considerando os tempos que correm», diz. E assim sendo o autor admite que o
teatro / dança / performance seja hoje extraordinariamente político. Quer dizer,
ele já é político. Mas hoje ainda é mais. Faz sentido. Contudo, há para este
autor um pecado. É ser-se consciente que, não sei porque carga de água, os
espectáculos não devem ser lidos como «entidades finitas ou deterministas». Ou
seja, pontapé na carola da arte de intervenção. Logo ali, segundo parágrafo. Ou
seja, é para o autor deste texto uma sacrosanta virtude da arte que ela consiga
bastar-se, e cito, se «libertar de um trabalho de reflexão maior do que a sua
própria produção». Por outras palavras, falar sobre a pequena história, o
ficcional, para ser o espectador a atingir o «big picture», se é que ele lá está.
E nesse processo, o autor (DEVE, não é?), coibir-se de usar o teatro como
matéria directa de intervenção política. Não iremos perder tempo a discutir que
a intervenção política in your face
não pode ser considerado um critério para apreciar ou depreciar uma obra de
arte, porque pelo menos na peça que me motivou a escrever este texto ela, quer
dizer, não existe. Há uma reflexão teórica sobre o social e o político que
invade o espaço performativo. O que não é nada activista, pelo contrário. Se o
autor do texto se refere à alternativa final da peça, ela apenas mostra que a
mensagem da arte moderna já lá vai, que já não basta exibir a dúvida, o
cepticismo como peça de porcelana, expor o orgulhoso vazio. Mostra que já
morreu, de causa natural até, o pudor pela afirmação das coisas. Muitas coisas.
Pertinentes ou não. Aliás como se vê pelo próprio texto publicado no Público.
Iremos sim concentrar mais atenção nesta bela oposição que está subjacente
à espinha dorsal do raciocínio do autor deste texto: a ideia de que a dispersão
é o contrário da capacidade de se ser incisivo. Ora, não é. Se há coisa que «os
tempos que correm» nos mostram é que a dispersão já não é uma fatalidade das
artes, mas uma inevitabilidade que muitas vezes se nos impõe do presente. Pode
ser a dispersão que nos permita precisamente chegar à posição incisiva, isto
porque essa realidade que vivemos, pensamos, actuamos, é já em fragmentos. O
que é difícil de compreender ao autor deste texto é que a dispersão pode ser
hoje a forma de se ser mais coerente. Olhemos por exemplo a última criação de
Olga Roriz. PETS. Não é ela dispersa? Não é ela extraordinariamente incisiva?
Ou é porque não há tantas palavras e se torna mais fácil perceber que essa é
uma falsa oposição? Mas inversamente, também obras há que pela sua obsessão
pela métrica, pelo concentrado, pelo fechamento da dramaturgia, não podiam
divergir mais da ideia de arte incisiva.
Neste sentido como qualificar a ideia de que as imagens da peça «Não se Vê
Que Sou Eu mas É Um Retrato…» não «rimam» com o texto, que os retratos individuais
se confundem em função de um discurso sobre a comunidade? É que é mesmo isso.
Acertou em cheio, na mouche, na
picareta, o autor daquele texto. Esta é uma reflexão sobre essa diluição,
indivíduo, comunidade, e dramaturgicamente essa diluição parece evidente. Não
calha a propósito da tal grelha do fechadinho e coerente, do individual que
depois mais tarde quiçá o espectador vê que é global, etc? Olha, azar. Que
fique claro que opor dispersão à consistência de uma obra de arte é
profundamente clássico e equivale a espartilhar a arte num caminho que ela pode
não querer percorrer. Aliás, há lá coisa mais de cariz intervencionista,
político bafiento mesmo, na história na análise artística do que esse
modelozinho da coerência, do fechadinho, do bem – estar interior que gera
mal-estar exterior? Trata-se no fundo de mais uma grelha de análise que só faz
o crítico sentir-se seguro, a gusto.
Noto ainda uma preocupação com o espaço interventivo do teatro poder
preencher o aberto do espectador. Azar, outra vez. Na verdade trata-se de uma
luta de interesses, onde às vezes há «mortos» e torna-se necessário violentar
as crenças e sentimentos daqueles que vão assistir à obra. Quando escrevemos «a
perigosa dimensão demagógica de um teatro de intervenção» lá para o fim do
texto, estamos, desculpe-me o autor deste texto, a ser ingénuos. Qualquer obra
tem um cariz demagógico na medida em que não rebenta tripas, nem manda
políticos para a prisão. Isso não quer dizer que não possa usar dos seus
mecanismos para ter uma visão sobre o mundo. Visão clara, em discurso directo,
que vergue uma ideia de dramaturgia. Viva a demagogia artística, diria eu.
Alertar para o seu perigo, isso sim, parece-me perigoso.
E outras coisas maravilhosas haveria a referir sobre «O Teatro, matéria de
intervenção política», texto tão rico. Mas terminando, reafirmo que o objectivo
desta breve missiva não é, como é óbvio, endeusar a peça em causa. Trata-se
apenas de uma chamada de atenção para o respeito que eu, enquanto leitor de um
jornal mereço, quando se me impõem a mim, e a milhares, um discurso pobre e
pré-formatado sobre as artes, que neste caso desvirtua a obra da arte em causa
e que contribui para obliquar, não sei com que propósitos, a relação entre a
arte e os seus destinatários, passado pela dispensabilidade de uma filtragem
«especialista». Filtragem essa que na arte condena a dispersão, a perda na
«construção de jogos de palavras», jogos esses já permitidos ao crítico (aliás,
vive deles) como a inenarrável diferença entre «ser político e ser-se
político». É quase a mesma diferença entre ser «expert» e ser-se esperto.
* Por motivos óbvios, apesar de ter
visto o espectáculo com curiosidade, não me passou pela cabeça
fazer publicidade, escrever mal ou bem, porque criticar ou elogiar uma pessoa
da família causa o mesmo embaraço que arrotar numa igreja. Contudo esta
saudável distância foi perturbada pela minha leitura do referido texto que podeis
ler abaixo.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Trespass- Joel Schumacher
TRESPASS, escrito por Karl Gajdusek, argumentista
da série televisiva DEAD LIKE ME,
tem realmente muito poucos motivos de interesse. Um deles é triste: o filme realizado
por Joel Schumacher bateu o recorde da mais rápida passagem de exibição em sala,
10 dias apenas, ao mercado de DVD. No filme, Nicholas Cage e a resistente-aos-anos
Nicole Kidman, são o casal chocho, ele negociante de diamantes, ela arquitecta
remetida a dona-de-casa, ou antes dona-de-mansão, pois é numa dessas fortalezas
à americana que vivem. Nem um sistema «xpto» de segurança impede que um bando
de assaltantes aí os retenha (e nos retenha) hora e meia de filme, a hora e
meia do assalto à dita casa. Sem nunca atingir a tensão motivada pela
concentração espacial que um filme como PANIC
ROOM de David Fincher continha, ou mesmo trabalhar convenientemente a ideia
do cerco, que já vem do western ou das
suas actualizações, como em ASSAULT ON
PRECINT 13 de John Carpenter, TRESPASS
prefere em vez disso recriar pela enésima vez a ideia da tortura macaca
vinda de FUNNY GAMES de Michael Haneke,
de Peckinpah (STRAW DOGS) e
juntar-lhe uns pozinhos de ligeiro mind
fucking intelectual. O filme vale então sobretudo pela gracinha de
incorporar no seu argumento problemas relativos à crise, à falta de liquidez mundial
e à excessiva dependência da banca. E deixa-nos a pensar que a confortável
democracia americana, tão avessa ao trespassing
da propriedade privada, nunca foi tanto uma questão de centímetros. Afinal de
contas parece muita coisa mas espremido pouco se aproveita. Quanto a Schumacher
há já quase uma década que caiu em desgraça…
TRESPASS, estreia dia 8 de Dezembro nas salas nacionais.
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