segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

A Dangerous Method - David Cronenberg


 
Ver A DANGEROUS METHOD, de David Cronenberg coloca os fãs do cineasta (para os demais é um pouco igual ao litro) num pequeno dilema: como justificar, desculpando ou não, a convencionalidade desta obra que «triangula», em jeito de biopic, por vezes amena e cómica, por vezes flat e mental, a vida e correspondências de Freud, Jung e Sabina Spielrein? Embora não possamos deixar de assinalar a engenhosidade da interessante hipótese de Cronenberg poder estar a reprimir Cronenberg, talvez não tenhamos tantos dados para o afirmar ou desmentir. Agora, o que é notório, e com isso concordamos, é que assistimos a um lento processo de interiorização do «cronenberguianismo» ditado sobretudo pelas suas três últimas obras. Mas se em A HISTORY OF VIOLENCE e EASTERN PROMISES existe uma dimensão pseudo-profética da realidade, veiculada a partir desses tais trejeitos autorais interiores, em A DANGEROUS METHOD, a «perigosidade do método» consiste numa espécie de vazio (completamente logo preenchido pela lógica de género que tenta formatar o filme). Só que esse vazio vem a Cronenberg de outro lado. Se há obra sobre a explosão da carnalidade no homem civilizado, essa é a do canadiano. Portanto, nem estranhemos que haja tanta aparente parcimónia de Cronenberg na visita àqueles que puderam, desde o seu locus mental, justificar que corpos pudessem explodir, implodir, escapar no sonho, fundir no metal ou simplesmente lutar por uma outra noção de identidade. Desta feita, parece arriscado falar de uma obra esteticamente menos conseguida, ou de um cineasta vergado pela necessidade de conquista de um novo público. O que baralha as contas é que parece que esse convencionalismo, sob o guizo dessa interiorização do universo de Cronenberg, parece moldar-se a um universo cujo trajecto busca interiormente uma justificação para o já agido, o já filmado. Assim se explica que embora haja espaço para o caricatural das personagens, embora tenhamos rodriguinhos amorosos escusáveis, por sobre A DANGEROUS METHOD se erga uma «parede» cuja opacidade constrói pacientemente para o espectador a verdadeira dimensão desta visita ao universo freudiano: «only the wounded physician can know the illness». E aqui a sua «lisura» já é um sinal de outra coisa, coisa obscura e mental… 

    

sábado, 3 de dezembro de 2011

A diferença entre ser «expert» e ser-se esperto

No passado dia 22 de Novembro estreou na Culturgest o espectáculo de performance «Não se Vê Que Sou Eu mas É Um Retrato…», de Rita Natálio. Uns dias depois o jornal Público publicou a sua apreciação crítica sob o título «O Teatro, matéria de intervenção política». Embora goste de me confrontar com opiniões divergentes, e sem me arrogar o título de especialista na área, parece-me uma saudável e imprescindível tarefa de cidadania ressalvar aqui a pobreza dos argumentos apresentados pelo autor deste texto para justificar aos leitores do jornal uma suposta mediocridade da peça. É quanto ao respeito que mereço enquanto leitor do jornal, que por ele pagou coisa de um euro, que entendo haver a devida atenção e reparação, em função dos textos que ali são divulgados. Como tal, enquanto não me devolverem o euro, vejamos:


Começa o autor deste texto por admitir que vivemos em período conturbado, «considerando os tempos que correm», diz. E assim sendo o autor admite que o teatro / dança / performance seja hoje extraordinariamente político. Quer dizer, ele já é político. Mas hoje ainda é mais. Faz sentido. Contudo, há para este autor um pecado. É ser-se consciente que, não sei porque carga de água, os espectáculos não devem ser lidos como «entidades finitas ou deterministas». Ou seja, pontapé na carola da arte de intervenção. Logo ali, segundo parágrafo. Ou seja, é para o autor deste texto uma sacrosanta virtude da arte que ela consiga bastar-se, e cito, se «libertar de um trabalho de reflexão maior do que a sua própria produção». Por outras palavras, falar sobre a pequena história, o ficcional, para ser o espectador a atingir o «big picture», se é que ele lá está. 

E nesse processo, o autor (DEVE, não é?), coibir-se de usar o teatro como matéria directa de intervenção política. Não iremos perder tempo a discutir que a intervenção política in your face não pode ser considerado um critério para apreciar ou depreciar uma obra de arte, porque pelo menos na peça que me motivou a escrever este texto ela, quer dizer, não existe. Há uma reflexão teórica sobre o social e o político que invade o espaço performativo. O que não é nada activista, pelo contrário. Se o autor do texto se refere à alternativa final da peça, ela apenas mostra que a mensagem da arte moderna já lá vai, que já não basta exibir a dúvida, o cepticismo como peça de porcelana, expor o orgulhoso vazio. Mostra que já morreu, de causa natural até, o pudor pela afirmação das coisas. Muitas coisas. Pertinentes ou não. Aliás como se vê pelo próprio texto publicado no Público.

Iremos sim concentrar mais atenção nesta bela oposição que está subjacente à espinha dorsal do raciocínio do autor deste texto: a ideia de que a dispersão é o contrário da capacidade de se ser incisivo. Ora, não é. Se há coisa que «os tempos que correm» nos mostram é que a dispersão já não é uma fatalidade das artes, mas uma inevitabilidade que muitas vezes se nos impõe do presente. Pode ser a dispersão que nos permita precisamente chegar à posição incisiva, isto porque essa realidade que vivemos, pensamos, actuamos, é já em fragmentos. O que é difícil de compreender ao autor deste texto é que a dispersão pode ser hoje a forma de se ser mais coerente. Olhemos por exemplo a última criação de Olga Roriz. PETS. Não é ela dispersa? Não é ela extraordinariamente incisiva? Ou é porque não há tantas palavras e se torna mais fácil perceber que essa é uma falsa oposição? Mas inversamente, também obras há que pela sua obsessão pela métrica, pelo concentrado, pelo fechamento da dramaturgia, não podiam divergir mais da ideia de arte incisiva.

Neste sentido como qualificar a ideia de que as imagens da peça «Não se Vê Que Sou Eu mas É Um Retrato…» não «rimam» com o texto, que os retratos individuais se confundem em função de um discurso sobre a comunidade? É que é mesmo isso. Acertou em cheio, na mouche, na picareta, o autor daquele texto. Esta é uma reflexão sobre essa diluição, indivíduo, comunidade, e dramaturgicamente essa diluição parece evidente. Não calha a propósito da tal grelha do fechadinho e coerente, do individual que depois mais tarde quiçá o espectador vê que é global, etc? Olha, azar. Que fique claro que opor dispersão à consistência de uma obra de arte é profundamente clássico e equivale a espartilhar a arte num caminho que ela pode não querer percorrer. Aliás, há lá coisa mais de cariz intervencionista, político bafiento mesmo, na história na análise artística do que esse modelozinho da coerência, do fechadinho, do bem – estar interior que gera mal-estar exterior? Trata-se no fundo de mais uma grelha de análise que só faz o crítico sentir-se seguro, a gusto.

Noto ainda uma preocupação com o espaço interventivo do teatro poder preencher o aberto do espectador. Azar, outra vez. Na verdade trata-se de uma luta de interesses, onde às vezes há «mortos» e torna-se necessário violentar as crenças e sentimentos daqueles que vão assistir à obra. Quando escrevemos «a perigosa dimensão demagógica de um teatro de intervenção» lá para o fim do texto, estamos, desculpe-me o autor deste texto, a ser ingénuos. Qualquer obra tem um cariz demagógico na medida em que não rebenta tripas, nem manda políticos para a prisão. Isso não quer dizer que não possa usar dos seus mecanismos para ter uma visão sobre o mundo. Visão clara, em discurso directo, que vergue uma ideia de dramaturgia. Viva a demagogia artística, diria eu. Alertar para o seu perigo, isso sim, parece-me perigoso.  

E outras coisas maravilhosas haveria a referir sobre «O Teatro, matéria de intervenção política», texto tão rico. Mas terminando, reafirmo que o objectivo desta breve missiva não é, como é óbvio, endeusar a peça em causa. Trata-se apenas de uma chamada de atenção para o respeito que eu, enquanto leitor de um jornal mereço, quando se me impõem a mim, e a milhares, um discurso pobre e pré-formatado sobre as artes, que neste caso desvirtua a obra da arte em causa e que contribui para obliquar, não sei com que propósitos, a relação entre a arte e os seus destinatários, passado pela dispensabilidade de uma filtragem «especialista». Filtragem essa que na arte condena a dispersão, a perda na «construção de jogos de palavras», jogos esses já permitidos ao crítico (aliás, vive deles) como a inenarrável diferença entre «ser político e ser-se político». É quase a mesma diferença entre ser «expert» e ser-se esperto.

* Por motivos óbvios, apesar de ter visto o espectáculo com curiosidade, não me passou pela cabeça fazer publicidade, escrever mal ou bem, porque criticar ou elogiar uma pessoa da família causa o mesmo embaraço que arrotar numa igreja. Contudo esta saudável distância foi perturbada pela minha leitura do referido texto que podeis ler abaixo. 





sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Trespass- Joel Schumacher


TRESPASS, escrito por Karl Gajdusek, argumentista da série televisiva DEAD LIKE ME, tem realmente muito poucos motivos de interesse. Um deles é triste: o filme realizado por Joel Schumacher bateu o recorde da mais rápida passagem de exibição em sala, 10 dias apenas, ao mercado de DVD. No filme, Nicholas Cage e a resistente-aos-anos Nicole Kidman, são o casal chocho, ele negociante de diamantes, ela arquitecta remetida a dona-de-casa, ou antes dona-de-mansão, pois é numa dessas fortalezas à americana que vivem. Nem um sistema «xpto» de segurança impede que um bando de assaltantes aí os retenha (e nos retenha) hora e meia de filme, a hora e meia do assalto à dita casa. Sem nunca atingir a tensão motivada pela concentração espacial que um filme como PANIC ROOM de David Fincher continha, ou mesmo trabalhar convenientemente a ideia do cerco, que já vem do western ou das suas actualizações, como em ASSAULT ON PRECINT 13 de John Carpenter, TRESPASS prefere em vez disso recriar pela enésima vez a ideia da tortura macaca vinda de FUNNY GAMES de Michael Haneke, de Peckinpah (STRAW DOGS) e juntar-lhe uns pozinhos de ligeiro mind fucking intelectual. O filme vale então sobretudo pela gracinha de incorporar no seu argumento problemas relativos à crise, à falta de liquidez mundial e à excessiva dependência da banca. E deixa-nos a pensar que a confortável democracia americana, tão avessa ao trespassing da propriedade privada, nunca foi tanto uma questão de centímetros. Afinal de contas parece muita coisa mas espremido pouco se aproveita. Quanto a Schumacher há já quase uma década que caiu em desgraça…

TRESPASS, estreia dia 8 de Dezembro nas salas nacionais.