sábado, 15 de setembro de 2018

moaning bull



“As his gaze ranged over the room full of his wild work, he struck his head and uttered a great cry; he fell down, a wreck amid the wrecks of the slaughtered sheep, and there he sat, with clenched nails tightly clutching his hair. At first, and for a long while, he sat dumb; then he threatened me with those dreadful threats if I did not describe all that had happened, and he asked in what a strange plight he stood. I told him all that had happened, friends, so far as I surely knew it. He straightaway broke into bitter lamentations, such as I had never heard from him before, for he had always asserted that such wailing was for craven and lowhearted man. No cry of shrill complain would pass his lips, only a deep sound, as of a moaning bull.”

 in "Ajax", Sophocles

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Revenge (Vendeta, 2018) de Coralie Fargeat


Tal como recorrente no subgénero rape and revenge, a primeira longa de Coralie Fargeat não foge à bipartição entre um primeiro momento em que a vítima é violentada e a segunda metade na qual, após inesperada sobrevivência, a mesma leva a cabo ferozes actos de vingança, reunindo em si forças que não sabia sequer possuir. Um pouco como o golo-estocada que o mensageiro-Éder cozinhou a partir das suas entranhas, atingindo fatalmente o "inimigo". Exemplos, uns mais outros menos, puxados à área do terror pelo extremo da vingança: Day of the Woman (Mulher Violada, 1978) de Meir Zarchi, The Last House on the Left (1972) de Wes Craven [aqui, uma das personagens vingava-se do seu agressor arrancando-lhe a pila à dentada], Straw Dogs (Cães de Palha,1971) de Sam Peckinpah ou mais recentemente Kill Bill (2003-2004) de Quentin Tarantino, ou Oldeuboi (Oldboy - Velho Amigo, 2003) de Chan-wook Park. A lista, percebem, é interminável.

Mas então o que haverá de interessante por aqui, nesta revisitação, no qual um bonzão (Kevin Janssens) leva a sua amante boazona (Matilda Anna Ingrid Lutz) para uns dias de um suposto fim-de-semana com os amigos, para uma caçada no meio do deserto? Bom, duas ou três coisas se podem apontar. Em primeiro lugar, que se trate de um dos primeiros revenge flicks, ainda para mais com uma mulher ao leme, feitos após os movimentos #MeToo e toda a vaga de escândalos de agressão sexual. Embora Coralie não nos queira esfregar isso na cara, o espectador não pode deixar de pensar nessa inevitável contaminação cultural, neste Revenge (Vendeta, 2018) como um certo espaço de empoderamento feminino. Sobretudo penso nisso na cena final, um verdadeiro merry-go-round no interior de um impecável apartamento, uma literal caça ao homem (nu), carrossel pintado de sangue.

Outro pormenor interessante tem precisamente a ver com os interiores (que ocupam sobretudo a primeira parte do filme e esta última): tudo é impecável, a televisão a debitar publicidades, o sofá de pele, o quadro da parede, a mobília do quarto. Onde quero chegar é que o filme de Coralie Fargeat creio que pretende fazer essa oposição entre um mundo materialmente "perfeito" e um mundo espiritualmente defeituoso (ela é a amante, o violador não sabe lidar com a rejeição, o terceiro é sempre um espectador sem coragem, etc). Em terceiro lugar, há espaço para um certo humor, sobretudo quando a pobre deixada para morrer se converte numa espécie de Amazona-Tomb Raider que vai dar uma de Rambo, retirando com facas e alucinogénos um pedaço de madeira da sua barriguinha. Finalmente, são os detalhes: o slow motion do gordo a comer o chocolate, as pingas de sangue a cair como bombas junto das formigas no deserto, as cores pop — o vermelho sangue, claro, mas também o azul do céu, o rosa do batom e da roupa de Matilda — em oposição com o mundo Mad Max, apocalíptico, da poeira e da areia. Por tudo isto, Revenge dispõe bem, apesar disso ser um contra-senso. Mas quem não aprecia um bom sorriso sádico, desde que no conforto de seu lar? Atire a primeira pedra, vá.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

A Ciambra (2017) de Jonas Carpignano


No início de 2016 estreou em Portugal Mediterranea (2015), a primeira longa de Jonas Carpignano, italo-americano nascido no Bronx. O pai tinha sido um dos seus produtores, professor de sociologia que dava aulas entre Nova Iorque e Roma, e já naquele existia um impulso realista em direcção dos problemas da emigração, das minorias, e em concreto a forma como os italianos "acolhem" a questão. Mas é preciso recuar ainda mais, concretamente a 2012, para compreender as raízes deste A Ciambra (2017). Carpignano tinha então rodado A Chjàna (2012), prémio de melhor curta-metragem em Veneza, acerca de Ayiva, um emigrante africano que procurava encontrar-se com um amigo durante uma série de conflitos raciais em Itália. Conta-se que, durante a rodagem, muito material técnico havia sido furtado e que a equipa seguiu o rasto do material até a esta Ciambra, comunidade cigana de Calabria, para tentar reaver algumas das coisas. Aí conheceu a família Amato, em especial o rosto a chispar fogo, o duro magnetismo do menino Pio Amato. Quer Pio, quer Ayiva (aliás, o seu nome é Koudous Seihon) foram sendo o centro dos filmes seguintes e em A Ciambra, o retrato da comunidade a que a família de Pio pertence é também "desembrulhado" através da relação entre estes dois, um africano e outro cigano e já agora, uma amizade que não nos é mostrada mas que também não era preciso, entre estes dois e Carpignano.

Se contei tudo isto é porque eu creio que não se consegue arriscar o olhar em A Ciambra sem perceber este trabalho de fraternidade e amizade que sensibilizou Scorsese ao ponto de produzir o filme. O retrato é dardenianno, a câmara à mão não vai largar em especial Pio, que Carpignano quer ver crescer, quer ver passar para o lado dos homens (deixando o grupo das crianças e a guarda das mulheres). O filme é como uma grande ave que sacode as suas penas após banhar-se nas águas da política, e que só começa a voar quando se desembaraça (nem sempre com sucesso, diga-se) dos seus ímpetos de porta-estandarte do retrato justiceiro das minorias e dos oprimidos. Mas quando o consegue, A Ciambra emociona-nos pelo seu comprometimento: pelas moedinhas que o Pio "semi-emancipado" dá aos meninos mais pequenos; os cigarros na boca das crianças como os olvidados de Buñuel; o aninhar-se no colo da mãe depois de uma noite de crime; ouvir o nome do pai, Rocco, e lembrarmo-nos da obra-prima de Visconti que também aterra na miséria e no amor fraternal; os códigos de honra dos ciganos, a desconfiança dos africanos; o querer apenas fazer qualquer coisa como o irmão mais velho; o funeral do avô. Quando se cresce tudo arde, e a Carpignano, também ele um jovem, se pode desculpar alguma simplicidade narrativa de processos, os atalhos para chegar às profundezas de uma comunidade, seja ela composta por ciganos ou por cinéfilos.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Walter Benjamin bookworm

"For what else is this collection but a disorder to which habit has accommodated itself to such an extent that it can appear as order? You have all heard of people whom the loss of their books has turned into invalids, or of those who in order to acquire them became criminals. These are the very areas in which any order is a balancing act of extreme precariousness (...) the phenomenon of collecting loses its meaning as it loses its personal owner. Even though public collections may be less objectionable socially and more useful academically than private collections, the objects get their due only in the latter. I do know that time is running out for the type that I am discussing here and have been representing before you a bit ex officio. But, as Hegel put it, only when it is dark does the owl of Minerva begin its flight. Only in extinction is the collector comprehended. (...)  Of no one has less been expected, and no one has had a greater sense of well-being than the man who has been able to carry on his disreputable existence in the mask of Spitzweg,'s "Bookworm." For inside him there are spirits, or at least little genii, which have seen to it that for a collector - and I mean a real collector, a collector as he ought to be - ownersliip is the most intimate relationship that one can have to objects. Not that they come alive in him; it is he who lives in them. "

in Walter Benjamin: "Unpacking my Library: A Talk about Book Collecting,"

Ana, mon amour


Talvez seja justo dizer, pelo menos baseando-nos neste Ana, mon amour (Ana, Meu Amor, 2017) e no anterior Pozitia copilului (Mãe e Filho, 2013 ), que o romeno Cãlin Peter Netzer, tal como uma das suas personagens, está fixado numa crónica das relações familiares obsessivas. Antes era a mãe em relação ao seu filho, agora um jovem face a uma neurótica e depressiva namorada.  A obsessão de Cãlin Peter Netzer é faca de dois gumes. O bom é que a sua escrita se ramifica, desenvolve, pormenoriza, cola-se como stalker ao detalhe no diálogo entre o obcecado e o objecto da sua obsessão, tudo se arrasta, interminavelmente, como numa minuciosa paranóia. O mau é que o universo do cineasta romeno é de tal forma trancado nessa relação familiar obsessiva que depois esquematiza em demasia as suas histórias, transforma os seus filmes em longas e dolorosas teses. Aqui, com este Ana, mon amour rapidamente percebemos a inversão que se vai operar ao nível das paranóias, e ainda mais cedo sabemos que o jovem universitário apaixonado (o excelente Mircea Postelnicu) vai cair e cair e cair. E isso é aborrecido, pois é traçar-nos um desenho nos primeiros minutos e depois vir o realizador com a câmara e desenhar os contornos grossos desse mesmo desenho. Entretanto tudo se vai modelando, mesmo o realismo do estilo, a esses contornos, a essa tese. A cena inicial onde Cãlin Peter Netzer opõe o gemido sexual à conversa filosófica sobre Nietzsche é disso um bom exemplo. Tudo se opõe ou inverte excessivamente como num gráfico, não tanto como no real.

domingo, 9 de setembro de 2018

10 anos de M2TM

Cresci no boom dos videoclubes e duas coisas me davam prazer. 1) "Varrer" prateleiras à medida que ia vendo coisas que nem sabia o que eram e descobrir assim que o cinema era uma prateleira (não "essa prateleira") infinita, descoberta perpétua; 2) As conversas intermináveis com as pessoas que lá trabalhavam que sabiam muito de cinema, que tinham visto tudo, que já conseguiam prever o meu gosto, que me diziam: "isto é para si". O Francisco Rocha é um dos maiores passeurs de cinema em Portugal, ele tem por missão dizer-nos "isto é para si", construir, qual hábil carpinteiro, a prateleira digital das nossas descobertas do cinema. Quem, por cá, pelo país do digital, pode dizer que ama o cinema e que nada deve desse amor ao Chico? Poucas, estou seguro. O seu videoclube é um trabalho de amor que já conta uma dezena de anos. Saibamos homenagear os nossos guias, aqueles que nos tornam a descoberta empolgante. Parabéns, Chico.

domingo, 2 de setembro de 2018

Escrever sobre cinema

Sempre invejei um pouco aquelas pessoas que desde muito cedo souberam do que gostam e do que não gostam. Porque para mim sempre foi tudo muito nebuloso, affaire para luta interna, momentos de dúvida e procuras incessantes. Ainda hoje, sei mais que "não sei se...", do que sei que "qualquer coisa". Anyway, sendo eu assim deste barro feito, quando encontro algo de que gosto mesmo de fazer é uma epifania.

E o que eu gosto mesmo... mesmo... de fazer é escrever sobre cinema. Ou melhor escrever com o cinema. Perguntar aos filmes o que sabem eles de mim e o que desconfio eu deles. E não me considero um cinéfilo certinho, ou talvez a palavra seja certeiro. Não sou um cinéfilo certeiro, dos que procuram na história das pessoas que fizeram os filmes indícios para compreender os filmes. Na verdade, é isso que se deve fazer. Mas eu sempre preferi insistir no erro, na procura de um mundo qualquer impossível, que muitas vezes nem razão de ser tem, nem factos a suportá-lo. Um autismo cinéfilo, que me descobre, me dá prazer. São os filmes que me picam a ponta dos dedos, que me escorraçam a modorra do cérebro, que me põem a pensar. E é por isso que o que eu gosto mesmo... mesmo... de fazer é escrever sobre cinema. Ou com o cinema, que é como dizer, comigo.