segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Passagem de ano

O bebé senta na vovó
A mamã faz cú cú

A pança do tio começa a dança
tudo somado até cansa

O frango, o pato e o capão fecham os olhos à ocasião
 e a menina, p'rece qu'é parva, vem vestida à Verão

Toda a família recorda ao serão
o ano passado que s'armou em cabrão

depois passas, desejos e badaladas 
tudo à dúzia, inclusivé as estaladas

e enfim... o ano velho vira novo
não tarda tá' qui outra vez todo o povo

Isto a não ser que entretanto alguém dê à luz
nesse caso é o menino e os outros p'ró ano à porta, truz truz


domingo, 1 de janeiro de 2017

Entrevista a James Benning

James Benning é um dos cineastas mais importantes do cinema experimental contemporâneo. A sua obra estende-se por mais de 50 títulos, sendo alguns dos seus mais marcantes – inclusivamente no âmbito de um certo “cinema estrutural” – 11 x 14 (1977), One Way Boogie Woogie (1977), Landscape Suicide (1987), a sua trilogia da Califórnia [El Valley Centro (1999), Los (2001) e Sogobi (2002)], 13 Lakes (2004), Ten Skies (2004) e Stemple Pass (2012). Através destes filmes, Benning constrói uma visão crítica sobre os efeitos da cultura (em particular, da tecnologia) na paisagem. Cada plano é meticulosamente preparado – com um rigor que não trai a sua formação superior em matemática – e aqui o principal efeito especial é a duração, a respiração do tempo e do espaço. Mas engana-se quem o pensa como um puro esteta. A sua obra está atravessada por um discurso ácido, até um humor fino, que transforma a contemplação num exercício crítico que muito directamente implica o espectador. James Benning esteve em Portugal para dar uma masterclass no âmbito do colóquio international Space and Cinema, que teve lugar na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Aproveitámos a ocasião para entrevistar este que é um dos mais brilhantes realizadores norte-americanos no activo. Falou-se de tudo: vida, trabalho, matemática, humor, atenção, tecnologia, Chantal Akerman, Peter Hutton e até Donald Trump.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Qualidade versus quantidade


Hoje o índice que avalia a inteligência parece ter-se reduzido a um affair de links quantitativos, comandados pelos cánones culturais, pelas listas, e pelo multitasking, mas também pela aceleração geral de uma boa performance. No cinema isso é evidente com a construção soviética a ser substituída pela construção da distração contemporânea dos planos da acção mainstream. Always on the move tido como credo seguinte ao auto-impulsionamento introduzido pelos carros da Modernidade como escreveu Sloterdijk. Assim, hoje, a ligação meramente acumulativa é da ordem do pulsional e do pornográfico. Já a ligação qualitativa pressupõe um julgamento, um tempo para averiguar da adição ou da subtracção do item seguinte ao percurso do raciocínio. No fundo, aqui está sobretudo subjacente uma questão de erotismo, de desvelamento progressivo comandado por um desejo. O no matter what - viver ou morrer, ler ou escrever, fazer bem ou mal, destruir ou construir, verdade ou pós-verdade - encabeça essa falência do link qualitativo. Vivemos na dependência de uma cultura de adicção, de maçãs proibidas que comemos ao ritmo de uma roda dentada que nos devora ela própria. E ainda não há melhor metáfora visual para a nossa mudança para o rítmico maquínico do que o Chaplin cheio de tiques no "Modern Times". Das fábricas às timelines, o mesmo flow imparávelPerante isto consegue-se pensar em pelo menos duas leituras possíveis para este estado de coisas. Um, o da automatização total como uma nova expulsão do paraíso (isto é, reaprender a viver na escassez à custa de um desastre qualquer que nos force). Dois, o desinteresse pela plena liberdade, uma laboriosa construção de auto-impostas palas (nos olhos e nos dedos) para voltar a vir até nós o desejo de ligar as coisas, de reencadear o mundo a um ritmo além daquele imposto por uma sociabilidade de feed constante. 

Por falar em link qualitativo: queria escrever sobre a forma como o "Moonstruck" da Cher termina muito parecido ao "La Terra Trema" do Visconti mas vai ter de ficar para depois.


quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Amigos Pensados: Belarmino



Tiveste jeito, como qualquer de nós,
e foste campeão, como qualquer um de nós.

Que é a poesia mais do que boxe, não me dizes?
Também na poesia não se janta nada,
mas nem por isso somos infelizes.

Campeões com jeito
é nossa vocação, nosso trejeito.

Esperam de 1 a 10 que a gente, oxalá, não se levante
- e a gente levanta-se, pois pudera, sempre.

Mas do miudame levámos cada soco!
Achas que foi pouco?

Belarmino:
quando ao tapete nos levar
a mofina,
tu ficarás sem murro,
eu ficarei sem rima,
pugilista e poeta, campeões com jeito
e amadores da má vida.

Alexandre O'Neill (1965)

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

We lived, to a certain extent, in harmony with nature. In winter we froze, in summer we roasted in the sun, in autumn we kneaded the mud with our feet, while in spring we were inundated by the flood. He who has not experienced all this does not know what joy and real living is. (...) We can only pity the man whose imagination is dull and dries up"whose recollection of childhood and adolescence yields nothing dear and unusual, and whom nothing can warm or make sad or happy, such a man is nondescript, whatever his status, and his work, denied the warm rays of time, is doomed to be nondescript.


Alexander Dovzhenko in "The Enchanted Desna" (1948)

sábado, 24 de dezembro de 2016

Os 10 melhores filmes de 2016

1-Rak ti Khon Kaen (Cemitério do Esplendor, 2015) de Apichatpong Weerasethakul
2-The Hateful Eight (Os Oito Odiados, 2015) de Quentin Tarantino
3-L’ombre des femmes (A Sombra das Mulheres) de Philippe Garrel
4-Shan he gu ren (Se as Montanhas se Afastam, 2015) de Jia Zhang-ke
5-A Toca do Lobo (2015) de Catarina Mourão
6-Cìkè Niè Yinniáng (A Assassina, 2015) de Hou Hsiao-hsien
7-O Ornitólogo (2016) de João Pedro Rodrigues
8-Saul fia (O Filho de Saul, 2015) de László Nemes
9-Arrival (O Primeiro Encontro, 2016) de Denis Villeneuve
10-Hardcore Henry (Hardcore, 2015) de Ilya Naishuller

Assim como por vezes é impossível descortinar os insondáveis mistérios da distribuição portuguesa – que ora oscila entre os omissões e os filmes em catadupa -, creio também ser muito difícil encontrar um padrão para as minhas escolhas de melhores filmes do ano. Um esforço que carregue o risco de chegar a uma solução demasiado genérica talvez pudesse chegar a um conceito de inclusão. Ou a obras que por variadíssimas formas procuram conciliar-se ou acrescentar-se em espectros muitas vezes vistos como opostos. Senão vejamos: Apichatpong abalou a fronteira entre o vivo e o morto (assim como a tarefa de ver como algo hoje próprio do super-herói); Tarantino filmou uma cabana em 70 mm mostrando que o whodunnit da história da América é sobretudo um alldunnit; Garrel incluiu na simplicidade da criação ficcional todo o mundo, numa mostragem que todas as ficções são também documentários; Jia Zhang-ke inclui na China em mutação, o entre tempos, uma suavidade de transição que engloba o espectador como parte daquilo que muda; Catarina Mourão inclui no documentário familiar o thriller de investigação e sobretudo o potencial dramático do acesso ao arquivo; Hou Hsiao-hsien dá-nos um filme de acção estático, uma acção de alcance interior e moral; João Pedro Rodrigues brinca com as altitudes (o pássaro e o ser de pés assentes na terra) e inclui na ascese a queda e na descida a necessidade de olhar o alto; Nemes destroi os (demasiado) fieis discípulos de Daney pondo, de forma inteligente, em campo o que é dos campos; Villeneuve (passe-se o mel mallickiano) inclui a questão da linguagem e da não linearidade do tempo como assuntos entre-espécies; finalmente, a surpresa do ano, o film on the move, espécie de ensaio desmiolado sobre a crescente portabilidade técnica dos olhares com o cinema a filmar o jogo e o jogo a olhar, incrédulo, o cinema.

2016 teve bastante mais filmes razoavelmente bons que por uma ou outra razão (as vezes de circunstância) não restaram nos 10 primeiros. Verhoeven também inclui o desejo e a dominação do violado sobre o violador, mas está demasiado preso a essa premissa; Hong Sang-soo, um dos meus cineastas favoritos da actualidade, este ano esteve, com Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da (Sítio Certo, História Errada 2015) também demasiado “preso”, mas neste caso à família cinéfila, com um final em espelho para que os amantes do cinema nele se possam mirar, orgulhosos e onanistas; Rosi e Loach assinaram “filmes políticos” onde o político é o vocábulo mais relevante da expressão. Talvez valesse falar também, com agrado, do último filme de Todd Haynes, do último Almodóvar, do filme (quase) a negro de Fede Álvarez, da semi-desilusão da armada romena e do filme de Ira Sachs  [Love is Strange (O Amor é Uma Coisa Estranha, 2014)] que filma o problema da morada como aquilo de opõe a lógica material do sistema e a lógica imaterial das relações. Este ano os meus pecados cinéfilos mais relevantes  foram não ter conseguido ver o último filme da Mia Hansen-Løve, nem o derradeiro Eastwood. De resto que 2017 seja pelo menos não bom quanto este que agora termina.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Rien que le cinéma




Rien que le cinéma

Si le cinéma n'existait plus, Nicholas Ray, lui seul, donne l'impression de pouvoir le réinventer, et qui plus est, de le vouloir. Alors que l’on imagine volontiers John Ford amiral, Robert Aldrich à Wall Street, Anthony Mann sur les traces de Belîiou la Fumée, Raoul Walsh nouvel Henry Morgan sous le ciel des Caraïbes, on voit très mal en revanche ce que le metteur en scène d’A l’ombre des potences donnerait dans quelque activité que ce soit, autre que cinématographique. Un Logan, par exemple, ou un Tashlin, peuvent réussir dans le théâtre ou le music-hall, un Preminger dans le roman, un Brooks dans l’enseignement primaire, un Fuller dans la politique, un Cukor dans la publicité, mais pas un Nicholas Ray. La plupart des cinéastes, si le cinéma n’existait soudain plus, ne seraient point désemparés pour autant. Nicholas Ray, oui. Après la projection de Johny Guitare ou de La Fureur de vivre, impossible de ne pas se dire : voilà qui n ’existe que par le cinéma, voilà qui serait nul dans un roman, sur la scène, partout ailleurs, mais qui sur récran devient fantastiquement beau. Cinéaste, Nicholas Ray l’est d’abord moralement. Et ceci explique cela, à savoir qu’en dépit d’un talent inné et d’une bonne foi évidente, un scénario qu’il ne prendra pas au sérieux restera superficiel. Tel en effet apparaît à première vue Ardente Gitane, tourné bien à la lé­gère pourtant car l'argument, au départ, ne manquait point de beauté, pris à la lettre, c’est celui des Indomptables à l’envers ou si l’on veut celui de La Croisée des destins de Cukor : las de l’aventure, un être retourne dans le clan auquel il appartient. Ceux qui, avec moi, considèrent « Le Serpent à plumes » de D.H. Lawrence comme* le plus important roman du vingtième siècle, ceux-là ne s’étonneront pas si je dis que Nicholas Ray tenait là, s’il l’avait voulu, un sujet d’une résonance plus moderne encore que ceux qu’il affectionne. Il semble bien cependant qu'il ne vit pas Ardente Gitane de cet oeil et ne l’envisagea, au contraire, que comme un délassement entre deux productions à priori plus ambitieuses. Faut-il lui en faire grief ? Renoir vient de nous apprendre dans Elena que la paresse est chose fort sérieuse, et même s’il voulait paresser en s’amusant, ou vice-versa, je reprocherai donc à Nicholas Ray d’avoir à cette occasion pris la drôlerie trop à. la blague. Mais quoi, dira-t-on, travail de commande, et pas davantage, que ce film chez les gitans où l’on voit Cornel Wilde forcé d'épouser Jane Russell, en même temps, qu’elle quitter la tribu dont il est le dauphin, et finalement s’apercevoir qu’elles lui manquent terriblement, Sans doute, mais encore n’est-ce pas si certain, car j’aime à croire, d'autre part, Nicholas Ray assez honnête pour accepter dorénavant de ne s’intéresser qu’à ce qui l’intéresse, ce qui était ici le cas, Ardente Gitane lui permettant d’aborder nettement un problème qui, si l’on en croit ses dires, lui est cher, celui d’une minorité ethnique, de peindre la race à travers l’individu, ce qui est aller dans la voie ouverte par Rossellini, tout e n , creusant la sienne propre. Chaque plan de ce film (légèrement en plongée depuis qu’il tourne en cinémascope) prouve d’ailleurs que son metteur en scène ne s’en est pas complètement désintéressé et que ce n’est pas Raoul Walsh qui le fit à sa place, comme aurait pu le faire croire le personnage de Jane Russel, en tout point semblable par les mimiques à celui de Mamie Stover dans Bungalow pour femmes. L’intrigue elle-même, bien que mal traitée, porte bien l’estampille Ray, et le personnage de Cornel Wilde est fort proche de ceux joués par Sterling Hayden, Arthur Kennedy, James Cagney, dans les pré­cédents films de notre cinéaste. Toujours, dans un film de Nicholas Ray» le personnage principal retourne à ce qu’il avait autrefois délaissé ou m é­ prisé. Il ne s’agit pas pour lui de conquérir, mais, plus difficile, de reconquérir une position perdue par gaminerie, veulerie ou dégoût. Il est donc normal de regretter que Nicholas Ray n’ait pas cru devoir cerner avec plus de mordant une situation et des caractères qui eussent ainsi fait d'Ardente Gitane une œuvre moins anodine. Louons toutefois sans réserve l’emploi délibéré et systématique des couleurs les plus criardes que l’on puisse voir au cinéma : chemises orange sucre d’orge, robes vert acide, automobiles violettes, tapis bleus et roses, le tout n ’est pas sans rappeler le Van Dongen de la bonne époque et fait une fois pour toutes justice de ceux qui croient encore que le cinéma en couleurs s’accommode plus des tons doux que des violents. Pour une raison purement technique d’ailleurs, la profondeur de champ en cinémascope (qui ne peut se permettre d’utiliser un objectif d’une focale plus courte que 50 mm.) s’obtient grâce, à l’accentuation des contrastes (cf. les films pho­tographiés par Joe MacDonald èt John Alton). Bref, Ardente Gitane est un film à demi réussi dans la mesure où Nicholas Ray s’en est à demi désintéressé. Film réussi presque malgré son metteur en scène, devrais-je dire, ou, plus subtilement réussi par le sens inné du cinéma qu'à Nicholas Ray, d’une façon quasi automatique donc, mais moins naïvement que par l’écriture chère aux anciens surréalistes. Tout le cinéma, rien que le cinéma, disais-je de Nicholas Ray. Cet éloge comporte une restriction. Rien que le cinéma n’est peut-être pas tout le cinéma.

Jean-Luc GODARD (Fevereiro, 1957)