quinta-feira, 7 de maio de 2015

Notas sobre o indielisboa e sobre fístulas anais

Tendo este ano integrado com o João Miranda (C7nema) e com o Carlos Nogueira (Cinéfilo Invertebrado) o recente Júri Blogues de Cinema do Indielisboa e tendo visto toda a competição internacional, não podia deixar de vir aqui arrotar umas quantas postas de pescada sobre o rol de filmes a concurso. A votação foi mais ou menos renhida, divertimo-nos muito à base de papelinhos, trunfos, vetos, bifes com molho (estamos a uma lagosta do FIPRESCI) e no final ficamos todos na mesma: barriga muito cheia, ódios e raivas por filmes particulares e a pena de que os prémios sejam sobretudo consensos. (Um dia destes farei o elogio da ditadura no mesmo post em que explicar ao João Miguel Tavares que as fístulas anais não são probabilisticamente casos de homossexualidade. Deve ter tido apenas métodos quantitativos no secundário.)

Assim sendo:



Aferim!
Radu Jude, Roménia, Bulgária, República Checa, Ficção, 2015, 108’


Bring me the balls of Alfredo Garcia. O filme vencedor dos vencedores. O romeno que continua a agradecer os prémios por skype, devia ter ganho há uns anos com Everybody in Our Family mas ganhou agora. Filme menos tenso, mais problematizador do passado novecentista romeno e dos tomates de um pobre escravo e de uma rainha adúltera. Jude filma a preto e branco a passagem à idade adulta de um miúdo que não faz outra coisa do que "varrer" com o pai os planos da esquerda para a direita (ou vicerversa; ou varre-os o realizador com panorâmicas) numa história de procura e de passagem. A técnica mima o conteúdo e as personagens de Voltaire a Cervantes, teatralizam convenções de um western tornado eastern (como escreveu o outro Carlos quando demos o prémio). É uma escolha algo conservadora, admito-o, mas ver Aferim! e depois outros dos filmes em competição é como ver uma consistente equipa do meio da tabela da primeira liga jogar contra uma equipa da segunda divisão. 



Christmas, Again
Charles Poekel, EUA, Ficção, 2014, 80’


Pertence à mesma família indie do filme de Ross Perry mas  tem a vantagem de ser mais subtil, de se levar menos a sério. Poekel quis filmar no Natal um vendedor de árvores e contar como este está tão triste e só numa época de alegria e afecto, devido a um desgosto de amor. E a primeira vez que ele volta a encontrar alguém,  uma bela e jovem rapariga-cinderela desmaiada num banco de jardim, sabemos logo que vão enrodilhar-se. Mas Poekel não vai com sede ao pote e disfarça bem que está a filmar um boy loses girl, boy meets girl. Muitos tempos de observação com cenas filmadas no escuro e iluminadas pelas luzes de Natal, muitos clientes atendidos, a sugestão do que significaria para aquele rapaz ficar naquele trailer para sempre (é este um dilema da juventude, como passar a fazer coisas com consequência, aqui muito mais encriptado do que noutros filmes em que se culpam as crises e os charros). Claro, depois é uma fórmula (o indie faleceu, sabemos, para integrar o centro) com a folhinha de chá como símbolo de uma mini-árvore de Natal que se "abre"  no interior do protagonista. Há beijinho, música melosa q.b. e tá feito.



Ela Volta na Quinta/She Comes Back on Thursday
André Novais Oliveira, Brasil, Ficção, Documentário, 2014, 107’


Este é um dos filmes que mais gostei e que está mesmo a pedi-las para ser premiado algures. André Novais chama a sua família para filmar um "slice of life", da sua vida. O ritmo é lentinho, os irmãos veem youtubes, a mãe prestes a deixar o marido dança com ele ao som de Roberto Carlos, o irmão mais velho quer ter um filho mas não há condições para tal, o trabalho é horrível, a mãe diz-lhe que ele vai conseguir realizar os seus sonhos num longo monólogo deitada na cama. Embora tenha algum sentido de humor, o melhor de Ela Volta na Quinta é que André sabe que não pode pedir certas coisas (gestos, diálogos) aos seus familiares. E quando estes lho dão, rebenta a parede naturalista e irrompe a teatralidade. André deixa a coisa correr e é essa noção de filme caseiro e híbrido o que permite falar de Minas Gerais e das vidas dos seus habitantes sob o prisma do que acontece de facto e do que poderia acontecer mesmo assim...



Güeros
Alonso Ruiz Palacios, México, Ficção, 2014, 106’


Primeira obra com tudo o que isso implica. Um deslumbre da juventude que, como as crianças que andam de metro pela primeira vez, tudo querem ver, experimentar, tocar, maravilhadas. Farpas ao cinema mexicano, efeitos sonoros hiperbolizados, preto e branco porque é o contrário da cor, referências meta, ímpeto revolucionário, câmaras irrequietas. Güeros é um pouco como apanhar com um daqueles balões de água que vemos no primeiro plano. Molha-nos e isso ora refresca ora irrita mas tudo logo passa. O excitante na carreira de Palacios deve vir a seguir, presumo.



Koza/Goat
Ivan Ostrochovský, Eslováquia, República Checa, Ficção, 2015, 75’


Demos-lhe uma menção honrosa talvez mais por ser um filme que não irritou ninguém particularmente. Versão povera do Rocky, humor kaurismakiano e um certo lado religioso. Um ex-campeão olímpico de boxe que agora tenta ganhar a vida. Farta-se de levar bordoada, é enganado e tratado como um cão pelo seu agente e prossegue numa via sacra a fim de ganhar uns dinheiritos e consequentemente impedir a sua esposa de abortar do seu segundo filho.



Listen Up Philip
Alex Ross Perry, EUA, Ficção, 2014, 108’


Não consigo gostar do filminho. Nem é pelo que não consegue fazer, é por tentar faze-lo de forma afectadíssima. Alex Ross Perry que idolatra Cassavetes e Woody Allen, não pára de os emular sendo que o que tem para lá meter nesse exercício parece um pretexto. Ora está a falar de si e das suas ambições literárias (via o seu alter-ego Jason Schwartzman) e a colar-se ao lugar comum do escritor pessoa intratável com dilemas tão profundos que a humanidade o odeia, ora está a falar dos seus devaneios amorosos e do pega não pega de uma fotógrafa aqui, uma professora com lábios fininhos ali. Demasiado onanista, parece não haver filme para lá da pessoa de Ross Perry e da sua escrita ensimesmada.



Melbourne
Nima Javidi, Irão, Ficção, 2014, 93’


Ainda me pergunto hoje, numa competição de qualidade bem razoável, o que fazia aqui neste grupo Melbourne. Não querendo acreditar na tese das quotas para o Irão resta-me falar do seu falhanço. O que passou pela cabeça de Javidi escrever uma premissa hitchcockiana e resolvê-la como Rohmer o faria? Javidi trata a escalada da tensão como uma coisa abstracta (o apartamento daquele casal tem mais visitas que as urgências do Santa Maria, mas nem por isso sentimos a cada visita mais tensão) e depois os constantes telemóveis, skipes, campainhas só irritam pois vamos perdendo o interesse. É um daqueles raros em que se pode dizer que podemos deitar fora o bebé com a água do banho.



Ming of Harlem: Twenty One Storeys in the Air
Phillip Warnell, Reino Unido, Bélgica, EUA, Documentário, 2014, 71’ 


Phillip Warnell realizou o filme mais ousado deste grupo. Citar Derrida e a poesia de Nancy para se inscrever na questão filosófica do olhar animal é um gesto imponente. Ao contrário do que tinha feito em 2012 Denis Côté com Bestiaire, que assumia esse lado experimental, aqui os planos do tigre e do jacaré enclausurados no apartamento de Antoine Yates são mediados por um olhar "menos animal", mais documental, onde a história deste excêntrico-louco-visionário se conta. A maioria das vezes a centralidade da voz off, os planos pose nas ruas, a câmara montada no carro que o leva deixam revelar que este é o momento mais certinho de Ming e que Warnell não tem imagens suficientes para nele se colocar (ou se tem, não possui o interesse para tal). Conceptualizar Harlem como um jardim zoológico, a própria cidade já como uma selva, a fronteira entre o amor pelos animais e o seu bem estar. Todas estas são ideias que ficam um pouco inexploradas pelo facto de Ming não conseguir nunca ser um filme verdadeiramente selvagem na sua intuição. Pena.




Quand je ne dors pas
Tommy Weber, França, Ficção, 2014, 80’


Como escreveu, e bem, o João Lameira, o filme de Weber é uma versão française do After Hours do Scorsese. Um jovenzinho que precisa de arranjar dinheiro durante uma madrugada para poder apanhar o comboio e ir ver o mar. Neste trajecto vende erva, suspira por meninas em festas privadas nas quais penetra (é a única coisa que penetra), tem sorte ao jogo e vai andado qual flâneur por uma noite de Paris, filmada a preto e branco. Se Listen Up Philip pode dizer algo mais a quem vive a realidade intelectual nova iorquina, o mesmo acontece com este passeio e a cultura romântica francesa e especialmente aos habitantes da cidade da luz. Antoine é Antoine Doinel claro, a ida à praia é a de Les 400 Coups e o motor anímico o da nouvelle vague e seu deslumbramento entre o burlesco e o romântico das possibilidades que a cidade encerra. Algo novo, talvez as lágrimas do mesmo Antoine que deixam pensar numa carga mais negra que pudesse ser acrescentada contemporaneamente a uma certa pose optimista dessa época da história do cinema.


Sivas
Kaan Mujdeci, Turquia, Alemanha, Ficção, 2014, 97’


Sivas era o melhor filme em competição do festival. Herdeiro da trilogia de Apu ou da caminhada para provar a amizade do menino pelo seu companheiro de escola em Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1988) de Kiarostami, o filme de Mujdeci quer acompanhar essa passagem à idade adulta. A "lição" é metaforizada por uma peça de escola na qual Aslam, 11 anos e sobrancelhas-olhar de adulto, vai participar. Fica triste pois queria fazer de príncipe mas cabe-lhe apenas o papel de um dos sete anões. Mas cada um tem o seu papel no mundo, é o que lhe diz o pai a propósito do seu cão, a quem quer impedir de voltar a combater com outros cães apesar de se ter tornado campeão. Algumas das elipses de Sivas são tão ousadas que correm o risco de se confundir com inépcia narrativa. Mas esse ousado é o que resulta da necessidade de expor que o crescimento é essa contradição, a todo o tempo, entre o que se quer e o que acontece, entre dizer uma coisa e fazer outra. As imagens das lutas de cães espectacularizam um tanto a violência (com o sangue, os dentes, o som do rosnar) mas esta contribui apenas para voltar a essa indecisão entre uma criança adulta ou um adulto-criança, entre o sentir-se chocado/revoltado e o ter força para aceitar o caminho que o espera. Sivas está sempre a percorrer esse trilho entre a crueza e o delicodoce da infância e por isso resulta tão forte, porque tão-entre-decisões implacáveis.


Une jeunesse Allemande/A German Youth
Jean-Gabriel Périot, França, Suíça, Alemanha, Documentário, 2015, 93’


Sendo eu de esquerda, tenho de ser um tanto brutal com Une jeunesse Allemande. Há qualquer coisa de fraudulento nos discursos sobre o filme de Périot. Quer dizer, não há voz off do realizador nem qualquer outra intervenção visível ou audível além da escolha do material que usou e da montagem que daí fez. Tudo muito certo. Ousado? Nem por isso. Aliás o documentário fly on the wall não faz outra coisa. Outro caminho para pôr o filme nos píncaros é essa veia política que tenta desenterrar o grupo Baader-Meinhof e com ele um certo filme activista. Se por um lado não se consegue detectar essa força política de manifesto (antes uma ideia de sedução que cativou o realizador por estas icónicas figuras), por outro, a minha noção de política na arte tem dificuldade em lidar com filmes-punho e valorizá-los por isso. Salas de comício são salas de comício, salas de cinema são salas de cinema. O mais interessante apesar de tudo é esse problematizar mais genérico de desnorte da juventude alemã pós-guerra, entre a culpa indirecta e o desejo de mudança. Infelizmente o filme rapidamente se afasta dessa premissa mais genérica. Ainda um risco: se se louva esta ausência de participação visível de Périot (que só lá está pelo geist da montagem; não se está sempre assim?) e uma vez que é bem clara a sua visão favorável ao grupo revolucionário, pergunto-me: não será perverso "esconder" uma opinião entre o fluir das imagens de arquivo, podendo esta confundir-se com uma versão "oficial" das coisas?

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