Quando acordo às tantas da manhã, tantas são as manhãs em que não acordo. Todos os pensamentos fugidios parecem envoltos em negro manto, as consequências despem finalmente as já poucas roupas das causas, e sonho em dormir sem pesar. Às tantas da manhã, só o ladrar derramado de um cão solitário que se ouve a partir da rua fria, ou o latir da chuva num estrado trazem o suave continuar do tempo. Lentamente, adormeço, dou o meu corpo ao que resta da noite, confiante no 2+2 igual a anti 4.
segunda-feira, 9 de janeiro de 2017
Yuliya Solntseva
No À pala de Walsh decidiu-se, um tanto com o meu voto de vencido, dedicar um dossier a mulheres cineastas. Apesar de não gostar muito do tema aproveitei para conhecer a obra de Yuliya Solntseva, esposa de Aleksandr Dovzhenko. Tendo várias obras co-realizadas com o marido, foi só após a abrupta morte deste que ela desabrochou como realizadora de pleno direito. O estilo é virtuoso, a imaginação fulgurante, e deixa-nos a pensar se Solntseva, com as condições ideais, não poderia ter ofuscado a obra do seu companheiro de vida. Filmes feitos como um poema de amor, a Dovzhenko, ao cinema.
Leiam aqui as impressões sobre a minha descoberta. E leiam também se puderem os demais textos de um dossier muito variado e muito rico.
sábado, 7 de janeiro de 2017
Em cascata vamos lá
http://osabordacerveja.blogspot.pt/2017/01/mas-como-pode-daniel-pereira-excluir-se.html
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
Inútil
Danado, existe pr'ái um ser, vocês sabem, a quem lhe foi dado existir. Espremido
pelos minutos, exprime-se no círculo. A sua vida é a de um prisioneiro, a de
uma liberdade tanta, a correr as nove voltas do inferno e a contar pelos
dedos, pelas patas, pelas ruas e lutas, as suas quedas, a sua inutilidade.
Sempre à volta, vive praticamente sem vida, mas não pratica, nem mente. Por
vezes, o sol parece que brilha e lhe acerta em cheio, e nessas ocasiões anda
muito direito, quase feliz: corpo para cima, muito leve, dentes de fora a
carregar orgulhoso o desespero, a exibir uma energia brilhante que o frio, a
maior parte das vezes, lhe retira. Nesses instantes não se importa de ser o que
é, praticamente nada. Um círculo pouco prático, com pernas para se inclinar,
maníaco, pelas portas, pelas paredes, pela manhã de uma tarde que é um dia de um
ano interminável. Não precisava de grande coisa, quase nada, praticamente,
talvez um espelho que lhe mostrasse a morte a trabalhar?
Ínfimo, existe pr’aí um ser, vocês sabem, a maior parte das vezes ninguém
ouve os seus uivos salgados, berros de barro que fazem já parte do som do Inverno, como o cantar dos pássaros ou o vento alucinado. Mas eu sei que vai chegar o dia
em o círculo que ele carrega vai desgastar o chão até fazer vulcão, até fazer
ferida. Nesse dia, quando este ser que é praticamente nada se lançar vulcão
abaixo, livre e quente, vai acontecer um milagre daqueles que ninguém acredita por serem gostosos. As entranhas da terra,
incandescentes e loucas, vão recebê-lo nos braços e cuspi-lo para o éter. Nesse
instante a inutilidade terá enfim cumprido o seu fim e o mundo poderá recomeçar,
inerte, mudo, novamente. Vocês sabem, as estações não hão-de mudar muito por
isso: os mesmos meninos correrão ensonados para a escola e os velhos continuarão
no mesmo passo lento para o jardim.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2017
A máscara de Bogdanovich
Há qualquer coisa de trágico na filmografia de Bogdanovich e nem vale a pena falar da sua atribulada vida sentimental. O que quero dizer é que os seus filmes parecem inadvertidamente aproximá-lo de um destino do qual se quer afastar. No caso de The Mask é difícil ser mais evidente. O caso real de Roy L. Dennis serve como drama inspirador sobre a descriminação e sobre a máscara universal de cada um. A família comunitária e motard do Dennis espelha o relativismo de um misfits among misfits. Nesta encenação de máscaras o agridoce da biografia do jovem deficiente surge o mais possível "sem máscara". E é aí, na criação da empatia ingénua com as personagens (aquele gigante gago a lembrar Bud Spencer, a Laura Dern a fazer de ceguinha, o rosto masculino de Cher e seus olhos de drogada) que Bogdanovich se rende. Ele nunca poderia entender o dilema de um misfit, pois ele é por definição um cineasta demasiado encaixado na "família". Só os anónimos espectadores podem fazer de vez em quando uma certa justiça, mostrando-lhe, por exemplo, que as imagens deste The Mask dificilmente chegariam mais longe do que a piedade.
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