Esta semana estreia o novo filme do iraniano Asghar Farhadi, um cineasta que muito aprecio. Umas linhas sobre Forushande (O Vendedor) aqui.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
segunda-feira, 19 de dezembro de 2016
the idea of destiny
(...) I do not think that there exists in any corner of the world any work of fiction or drama to which the idea of destiny is foreign. But it usually remains at the theological, indeed fetishistic level, unless it is no more than a pure poetic sham. In some of the finest American films it is instead posed, as in the fifth-century tragedians, in terms of morality: or by reference to religion which, be it Protestant sect or Irish Catholicism, is sparing of both external ceremony and flights of mysticism, and is above all the promulgation of a moral code for living.
Eric Rhomer in "Redecouvrir L'Amerique" (Natal de 1955)
Ora bem, em 2016 temos "Rogue One" ou "Independence Day: Resurgence", por exemplo, onde a questão do destino propõe um fim qualquer, sem que isso seja mais relevante do que uma cor de nave em photoshop, ou um bicep escondido num manto também ele provavelmente muito colorido.
sábado, 17 de dezembro de 2016
As mil expressões de uma angel face
Não, não estou embevecido pela carinha da Jean Simmons no "Angel Face", embora seja culpado de procurar obssessivamente stills das suas expressões no filme. Segundo parece ela tinha cortado o cabelo para irritar o Howard Hughes que, em final de contrato com ela, ainda queria usá-la em mais um filme antes do prazo terminar. Não teve sorte, usou peruca neste derradeiro Preminger para a RKO antes do realizador se tornar produtor independente. Um filme sobre um anjo de cara fria, um pequeno demónio tentador para Mitchum, acenando vagamente a bandeirinha da psicanálise e do incesto às audiências dos anos 50. Mas o mais extraordinário para mim é que seria fácil a Simmons, ainda para mais contrariada no projecto, trabalhar a oposição superficial: expressão de inocente por fora, demónio sem escrúpulos por dentro. Não é isso contudo o que faz Simmons, ela vai oscilando entre o ar alheado, o olhar frio, a face arrependida, a mulher martirizada, a bitch maléfica, a filha calculista, a jovem birrenta e desejosa do corpo de Mitchum. São muitas hipóteses e não é nenhuma afinal. Nunca ninguém há-de saber o que sentia em relação a todas aquelas personagens (paizinho "querido" incluído). Por isso é que aquele abismo final, no qual Preminger faz cair sucessivamente todas as personagens, é afinal o poço inesgotável das expressões de Simmons. Um anjo nas profundezas, um demónio nas alturas.
terça-feira, 13 de dezembro de 2016
A batata
No centro da mesa está uma batata. Como ali foi parar,
pouco importa. Atenção, escrevo batata e não barata, meus artistas da fome,
meus queridos! Ela, a batata, aqui está, prostrada nesta mesa, diria normal e
preta, daquelas onde as pessoas almoçam e onde as pessoas jantam. O que não
quer dizer que entre o comer e o beber não tenham existido mães a confessar os
seus secretos amores, ou outros crimes exemplares, como a húmida ternura por um
primo distante. Mas é um facto, agora a mesa carrega com o peso desta batata.
Olho para ela: é vermelha e de formas arredondadas apesar da pele rugosa; não é
gorda nem magra, tem apenas o tamanho necessário; os desníveis da batata, as
suas covinhas, como as das bochechas de um petiz, denunciam que é única; numa
das extremidades desponta uma espécie de barbicha, tal qual aqueles homens de
barbas muito velhas, que já perto do final dos seus dias até grelam como é
próprio da idade avançada. Eu ainda não grelo, mas a batata tem já alguns
sinais de começar a fazê-lo.
Mas que interesse tem uma batata? Ou antes, esta batata?
Muito simples, meus amorzinhos, é que esta batata é uma máquina do tempo. Não
sei muito bem até que séculos irados poderia recuar, até porque nem botões,
cabos ou outras engenhocas possui. Mas basta que a olhe de frente para recuar
ao início daquela tarde, já nem sei há quantos anos. Do sítio de onde estava
tinha reparado naquela figurinha, primeiro nos seus calcanhares de pele rija, enrugados. Ao início
não conseguia ver o que fazia, só sentia o movimento contínuo do seu corpo a
vibrar no fim do vestido. As costas estavam ligeiramente arqueadas e tinha as
mãos metidas dentro do lava-louça. Ou lavava pratos, ou arranjava vegetais, ou
cortava a carne. Ou tudo isso ao mesmo tempo. Pelo movimento dos ombros e pela
respiração nervosa dava para perceber que o que quer que fizesse o efectuava
com desejo de acelerar o tempo. Bastou aproximar-me uns passos mais para
perceber que nas mãos da minha mãe estava uma batata. Ela pegava nela como se
lhe pesasse muito, como um peso ou uma bolinha de chumbo, e com uma faca
descascava-a. Importa precisar esta acção. Com a mão direita segurava uma faca
de cabo castanho e lâmina afiada. Com a ajuda do polegar dessa mesma mão ia
aparando a casca, que se ia encaracolando como uma fita de serpentina. Não é
que descascar uma batata fosse um espectáculo essencial ou divertido, apenas me
deixava um tanto incrédulo. A batata nas mãos da minha mãe ficava despida em
três tempos, mas os golpes que ela lhe dava entravam na carne da batata,
desfazendo os seus ângulos precisos. Com a casca rija vinha sempre um terço ou
metade do tubérculo e a batata virava batatinha ou esfera geométrica, sem
aquele formato único que só as coisas únicas têm.
Por vezes punha-me a pensar que toda aquela batata junta, a que
vinha agarrada à casca e que entrava a um ritmo acelerado no caixote do lixo, dava duas, três, ou mais batatas. Seriam batatas feitas de periferia, de
desperdício, alimentos feitos de gestos bruscos, de tempo acelerado e irascível.
Mas não era o desperdício aquilo que me intrigava naquela forma de descascar as
batatas. É que naquela altura, eu já começara a fazer as minhas próprias
experiências. Orgulhava-me de nunca me cortar, de ouvir relatos de amigos para
quem um ovo era um alien, enquanto eu subtraía às batatas a sua fina película.
Era meticuloso com a batata: segurava-a gentilmente entre as minhas mãos,
fazendo-a rodar, como se naquela alegria ela não soubesse que irreversivelmente
perdia as suas roupas. Uma vez cortada a casca, era o momento de retirar
aqueles pedaços que tinham ficado esquecidos, ou os bocadinhos negros mais
fundos que ainda permaneciam encrustados no seu corpo. Retirava-os um a um com
a ponta da faca e uma vez concluída a tarefa passava a batata por água. Raras
eram as vezes em que tinha de voltar a pegar na faca. Mirava a batata muito
grande, irregular, como se de uma obra de arte tivesse nascido outra de cor
diferente, e colocava-a depois num recipiente. O processo repetia-se
com a batata seguinte.
E não havia nada a esconder. A minha mãe, de mãos febris,
assassinava as batatas, mostrando-lhes que o seu fim iria ser trágico, enquanto
eu as enganava primeiro, era dissimulado, era gentil com elas, até ao momento
em que finalmente percebessem o seu destino. E era isso que me deixava
intrigado: como era possível que a minha mãe se vingasse nas batatas,
retirando-lhes grande parte da sua dignidade de tubérculo? Naquela altura
pensava que a pressa era inimiga da perfeição e que o destino das pessoas se
pudesse ler naquelas serpentinas de casca que ora se abanavam suavemente ao
compasso do piano, ora se punham a remexer como tontas ao ritmo do hit de
Verão mais recente.
Olho novamente para a batata no centro da mesa. É, segundo creio, uma
batata feita de presente, como se pudesse irradiar uma luz qualquer. Levanto-me
da mesa da qual a observo e vou à gaveta das facas. Retiro uma das médias, bastante
afiada, e pego na batata. Naquele instante podia cravar a faca até ao centro da
batata e parti-la ao meio, num gesto trágico sem sentido. Mas de que serviria isso,
excepto separar em dois um problema? Uma batata do passado, digna e subtil, com
a casca fina a ser removida de forma musical e artística por mãos de fada e uma
eterna paciência. E uma batata do presente, a quem não iria ser permitida
qualquer falha ou irregularidade, nada mais do que um porco recipiente de amido
e carboidratos, retalhado e amachucado por anónimas patas. Não. Decido pegar na
batata e levá-la até ao lava-louça. Começo a descascar a batata e, ao segundo
golpe, percebo que me falha a mão, que não é uma questão de tremura mas sim de
peso. Parece que as mãos me pesam muito, como fardos de palha. Tento manter a
lâmina à tona da batata e é em vão. Saem dela grandes lascas agarradas à casca
e não é que as minhas costas me vergam e os meus calcanhares embrutecem?
E dei
por mim a pensar que houve um momento qualquer, não sei bem qual foi, a partir
do qual passei eu também a ser injusto com as batatas. Comecei a descascá-las abrutalhado, anestesiado, com o peso do tempo nas costas, sobre mim. Talvez eu
agora já não seja ou compreenda a batata esbelta, aquela que ficava
impecavelmente descascada no meio do caminho, a olhar para a possibilidade de qualquer coisa pouco vegetal. Talvez a batata seja ela agora esse objecto possível,
sem singularidade ou ternura, olhando incrédula o adorno na mesa ou o peso da
faca. E nisso dei-me conta das lições da maternidade: com o tempo pesa-nos a
faca com que descascamos o tempo. E há muito lixo acumulado no meio da sala em
que outrora nos rimos. Resta então, com assento celestial e quotidiano, essa tarefa de
raspar apenas os contornos dos dias, deixando neles intacta a maravilhosa carne
da batata, o conduto de uma pequena e vegetal felicidade.
domingo, 11 de dezembro de 2016
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