Os olhos das pessoas terminam nos eléctrodos do cérebro,
Terminam nos pixéis da ternura.
Adeus electrónico, sem uma só batida vermelha.
Ver-me a ver-me.
Ninguém ou toda a gente.
Aberta está a quarta dimensão,
a quarta parede.
A moralidade como terceira ideia sobre as acções, como uma tecla.
Uma pausa, um “frame by frame” que congela.
Que na ânsia do outro e de si, expõe com mais força:
a flor, o vómito ou a santidade da eloquência pornográfica.
O futuro tem uma corrente maiúscula que acorrenta o pensamento, a vontade.
Isso, porque à distância de anos só há contornos e uma criança de perfil é carvão.
Ver-me a ver-me a ver-se a ver-me é trompe d’oeil moral que distrai.
Destruir hierarquias é expulsar a construção das nossas mãos,
É ter os espaços minados
de uma horizontalidade que é preciso atravancar:
com coisas que nos façam vir por fracções de segundo.
Viver em público é tentar matar esse anonimato. E quando todos esses seres que emprestam a sombra à noite se forem,
Quando só existirem estrelas sem brilho,
Começará uma nova busca pelo anonimato.
Nesta realidade em rede os anónimos serão as estrelas.
Viver aleija. Viver com toda a gente a querer viver mais,
aleija ainda mais.
Por isso, o virtual constrói o mundo sobre o mundo, menos feroz.
Será uma questão de tempo até o virtual detectar o seu bug supremo: o humano.
E Frankenstein triunfará, de novo.
Morreu Deus. Matámo-lo.
Morrerá o homem. O virtual extingui-lo-á.
Ou antes, nesta luta não estou certo quem vencerá.
Estas elaborações, no betão ou no virtual,
São sintomas de impotência.
Sem poder saber se há uma verdade, como Deus,
Vamos abrindo portas.
E quando elas estiverem todas abertas será impossível caminhar.
Um só passo trará o desespero ao mundo e
a dor da ausência de todos os outros passos não percorridos.
A virtualidade torna o mundo paralítico.
Aqui como ali mas inerte.
quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Pele
Tocava-te.
Pela primeira vez.
E um reino de cristal desmoronou-se-me nos dedos.
As minhas mãos a olharem-te desguarnecidas, com medo de tudo.
Pequeninas, com medo de não encontrar, com medo de ter medo.
Pela primeira vez.
E um reino de cristal desmoronou-se-me nos dedos.
As minhas mãos a olharem-te desguarnecidas, com medo de tudo.
Pequeninas, com medo de não encontrar, com medo de ter medo.
Pedaços
Arrancado a mim próprio
Vejo-me à distância,
Prostrado no lugar em que nasci, ou em que fui lançado.
Vi-me assim, aos pares, de olhos, de caminhos alcançados,
de amores pantanosos.
Por cima de uma almofada, aqui, dobrada, a tristeza pesa-me. Faz-me mal ao ponto de nem saber. E as mãos já não encontram o caminho sozinhas, estão cegas, tacteiam, doidas. E nem sei que mais faz parte de mim e o que não faz, O que de mim é por favor, o que sempre me vai adiar. O meu corpo já nem parece um conjunto. São pedaços de pensamento a que por cortesia estão colados carne e lágrimas.
O nariz quer entrar pelo passado adentro, de rompante, a buscar certezas.
Na cheiro, a certeza. No cheiro, o impulso derradeiro.
A língua presa de venenos interditos e a face arrebentada contra uma repetição.
Tudo jaz nestes milagres de impossibilidade.
Malditas poças de sentimento que inundam tudo o que é belo. Ou o que é certo, amarfanhado. Ou o que é atroz, desmitisficado.
Uma máquina de secreções a sentir num dia com tempo absurdo. Só isto.
Um cigarro que me destrói o pensamento. Um cigarro que me sabem a mil cigarros e me dão um pouco de ar.
E nem as palavras, essas que são tão soberbas, me ajudam. Nem elas me dizem o que devo dizer. Nem elas sonham o que não posso sonhar.
Recuo à adolescência sem certezas do meu sentir. Recuo, recuo, até não ter mais por onde recuar. Até não ter mais mãos por onde escrever. Até chorar só porque me batem. Sem compreender que o mundo é uma bola onde é possível ver um barco majestoso e ser-se o mar nele.
Vejo-me à distância,
Prostrado no lugar em que nasci, ou em que fui lançado.
Vi-me assim, aos pares, de olhos, de caminhos alcançados,
de amores pantanosos.
Por cima de uma almofada, aqui, dobrada, a tristeza pesa-me. Faz-me mal ao ponto de nem saber. E as mãos já não encontram o caminho sozinhas, estão cegas, tacteiam, doidas. E nem sei que mais faz parte de mim e o que não faz, O que de mim é por favor, o que sempre me vai adiar. O meu corpo já nem parece um conjunto. São pedaços de pensamento a que por cortesia estão colados carne e lágrimas.
O nariz quer entrar pelo passado adentro, de rompante, a buscar certezas.
Na cheiro, a certeza. No cheiro, o impulso derradeiro.
A língua presa de venenos interditos e a face arrebentada contra uma repetição.
Tudo jaz nestes milagres de impossibilidade.
Malditas poças de sentimento que inundam tudo o que é belo. Ou o que é certo, amarfanhado. Ou o que é atroz, desmitisficado.
Uma máquina de secreções a sentir num dia com tempo absurdo. Só isto.
Um cigarro que me destrói o pensamento. Um cigarro que me sabem a mil cigarros e me dão um pouco de ar.
E nem as palavras, essas que são tão soberbas, me ajudam. Nem elas me dizem o que devo dizer. Nem elas sonham o que não posso sonhar.
Recuo à adolescência sem certezas do meu sentir. Recuo, recuo, até não ter mais por onde recuar. Até não ter mais mãos por onde escrever. Até chorar só porque me batem. Sem compreender que o mundo é uma bola onde é possível ver um barco majestoso e ser-se o mar nele.
O BALDE
O coração atropelava os restantes vegetais numa corrida impossível pelo fim dos nossos dias. As bandeiras arrebatadas e os muros de palavras traziam o quintal como um quadradinho apaixonado. Em linhas rectas, em lutas ancestrais, o sinal, a um canto, desbotado, apodrecia. Os varais falavam de roupa ao vento aos pássaros que de tudo sabiam já. As formigas tamborilavam nas folhas como numa ode ao interminável. O “intermédio” sentia-se em casa, tinha pena da luta dos apaixonados e dos saquinhos de milho que explodiam dos olhos dos espantalhos. Apaixonei-me por um espantalho. “Brutaliza-me”, respondia-me, não me olhando no olhos. E sempre que o vento demorava um pouco mais a responder-me também pensava que já não me queria. Que já o tinha perdido, que não me amava, que me achava um saco de carne amorfa, pronto ao desinteresse.
Dentro do dia, havia velocidade para disparar os cheiros das coisas. Eu fiquei sentado, também eu a apodrecer, também eu tabuleta. O fim é por aqui, podia ler-se. Os vizinhos sentavam-se nos cantos opostos, a mirar o intermédio, com pautas nas mãos e cabelos brancos nos cabelos. Dobrado, irrequieto, puxava as mãos grossas, revolteando a terra. Encontravam-se corações já usados, com bolor, roídos pelo Inverno. Aos poucos, o balde ia-se enchendo. A terra envelheceu num minuto e os desgostos eram caimbras do coração. O coração atropelava também as paredes orgulhosas. Perderamos o chão por de cima de nós e ninguém já morava ali. Nem os pássaros moravam neles próprios. O que não era ainda amarelo sonhava em sê-lo. As únicas manchas brancas do quintal tinham a beleza apontada a elas.
Fui feliz.
A saída era aqui, dizia a tabuleta cravada no último coração. Alguém pegou no balde e levou-o para dentro de casa. Amanhã será dia de trabalho, ainda.
Dentro do dia, havia velocidade para disparar os cheiros das coisas. Eu fiquei sentado, também eu a apodrecer, também eu tabuleta. O fim é por aqui, podia ler-se. Os vizinhos sentavam-se nos cantos opostos, a mirar o intermédio, com pautas nas mãos e cabelos brancos nos cabelos. Dobrado, irrequieto, puxava as mãos grossas, revolteando a terra. Encontravam-se corações já usados, com bolor, roídos pelo Inverno. Aos poucos, o balde ia-se enchendo. A terra envelheceu num minuto e os desgostos eram caimbras do coração. O coração atropelava também as paredes orgulhosas. Perderamos o chão por de cima de nós e ninguém já morava ali. Nem os pássaros moravam neles próprios. O que não era ainda amarelo sonhava em sê-lo. As únicas manchas brancas do quintal tinham a beleza apontada a elas.
Fui feliz.
A saída era aqui, dizia a tabuleta cravada no último coração. Alguém pegou no balde e levou-o para dentro de casa. Amanhã será dia de trabalho, ainda.
Quero repetir esta canção até que o meu corpo a cante
O meu peito a compasse com os meus três ritmos danados. Uma ambulância passa, tão menos que uma nota, e lá dentro vão corpos sem vida, tão mais vivos. Tenho a emergência das coisas belas, de estar a morder e a rir as cores à tarde que não me deixa. Tenho que um passeio é o vazio e que o vazio me passeia.
Acordei com o sono da felicidade. Levantei-me com a calma das sirenes. Só não sonho porque me arrancaram a lucidez das patas. Sinto-me animal em toda esta conjugalidade. Entre entregar-me e asfixiar-me, posso bem dar mais um tempo ao minuto. Posso alimentar-me de amigos distantes, e foder a minha paciência pela noite dentro.
Posso querer morrer porque não sei. E se soubesse morreria, vivendo.
Que adiantam as cores vivas e os espelhos quando se é daltónico sentimental?
Que interessam os momentos lindos se eles não são maravilhosos?
Porque amar o nosso próprio filho se ele partiu para outras aventura, sem nós, sem nos dizer que.
Eu conheci o amor, essa rua mal frequentada, quando estava para sair. Quando a canção já não era repetida pelos meus pulmões, quando as pernas eram já cavacos enervantes, quando o último copo me sabia a saliva de eternidade.
Quatrocentos e dez são os anos que tenho para viver nestes quarenta, talvez menos, que me faltam. E nesses, a civilização do beijo está condenada à dormência dos espaços atafulhados de gente.
Estou atafulhado de mim. Rebento por dentro e nem há espaço cá fora para que desmaie ou cante. As portas que batem e as sirenes que aleijam têm milhares de significados. Nenhum é o meu.
Quero repetir esta canção até que o meu corpo a cante. Até que o meu corpo expluda esta mania de ser popular.
Quero que esta canção seja assim, a minha sentença de vida. Não há paz em se ter paz.
Encosto o rosto ao passeio e espero que tudo passe. Tudo.
O meu peito a compasse com os meus três ritmos danados. Uma ambulância passa, tão menos que uma nota, e lá dentro vão corpos sem vida, tão mais vivos. Tenho a emergência das coisas belas, de estar a morder e a rir as cores à tarde que não me deixa. Tenho que um passeio é o vazio e que o vazio me passeia.
Acordei com o sono da felicidade. Levantei-me com a calma das sirenes. Só não sonho porque me arrancaram a lucidez das patas. Sinto-me animal em toda esta conjugalidade. Entre entregar-me e asfixiar-me, posso bem dar mais um tempo ao minuto. Posso alimentar-me de amigos distantes, e foder a minha paciência pela noite dentro.
Posso querer morrer porque não sei. E se soubesse morreria, vivendo.
Que adiantam as cores vivas e os espelhos quando se é daltónico sentimental?
Que interessam os momentos lindos se eles não são maravilhosos?
Porque amar o nosso próprio filho se ele partiu para outras aventura, sem nós, sem nos dizer que.
Eu conheci o amor, essa rua mal frequentada, quando estava para sair. Quando a canção já não era repetida pelos meus pulmões, quando as pernas eram já cavacos enervantes, quando o último copo me sabia a saliva de eternidade.
Quatrocentos e dez são os anos que tenho para viver nestes quarenta, talvez menos, que me faltam. E nesses, a civilização do beijo está condenada à dormência dos espaços atafulhados de gente.
Estou atafulhado de mim. Rebento por dentro e nem há espaço cá fora para que desmaie ou cante. As portas que batem e as sirenes que aleijam têm milhares de significados. Nenhum é o meu.
Quero repetir esta canção até que o meu corpo a cante. Até que o meu corpo expluda esta mania de ser popular.
Quero que esta canção seja assim, a minha sentença de vida. Não há paz em se ter paz.
Encosto o rosto ao passeio e espero que tudo passe. Tudo.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Nosferatu-Phantom of the Night
Time is an abyss thousand times deep.
Inspiras a luz da manhã, quente, castanha.
A inversão do abismo é morrer e é Verão.
(caveiras)
Bonequinhas de pano que são carne dissecada
E botinhas e boquinhas ocre.
Os olhos perderam-se no barro dos dias.
És um “fantasma da noite”: sem o sangue, a loucura e o riso.
As mãos em oração abraçam a morte.
O alemão sempre foi cantado no negro, negro sobre o negro.
Leis da natureza: o amor.
Ela, o branco, sobre o branco.
“Lobos, bandidos e fantasmas”.
A rir. A rir e a perder sangue, a rir. A rir e a suar.
“You’re working too much. It’s nothing. It’s just swimming in the air.”
Cavalgas o tempo para trás no limite do que pode acontecer.
E há abismos, como nunca envelhecer.
Artifício na câmara, no setting, no movimento flutuante;
Relação com a natureza partida pelo deslumbramento,
que se ofusca na máscara da ficção, do mudo.
Na alma de caçador, a canção dos filhos da noite.
Numa casa branca, sem os cantos da moralidade
um Hino de alegria desafinada.
E se depois acordássemos às centenas numa camisa-de-forças?
A minha sombra mancha os edifícios, as ruas, quem me adorar merece morrer.
O riso da demência, uma vez mais, na poluição do pensamento.
O amor, o amor que nem a Deus concede é miserável antídoto para a eternidade.
A morte e a dança dos falsos felizes: o rato, o estrume.
A morte , essa desconhecida da carne,
a ciência que envelhece numa cadeira de braços.
A dança dos falsos felizes é sempre a última ceia dos condenados.
A peste ou a sombra a carregar os seus corpos.
Inspiras a luz da manhã, quente, castanha.
A inversão do abismo é morrer e é Verão.
(caveiras)
Bonequinhas de pano que são carne dissecada
E botinhas e boquinhas ocre.
Os olhos perderam-se no barro dos dias.
És um “fantasma da noite”: sem o sangue, a loucura e o riso.
As mãos em oração abraçam a morte.
O alemão sempre foi cantado no negro, negro sobre o negro.
Leis da natureza: o amor.
Ela, o branco, sobre o branco.
“Lobos, bandidos e fantasmas”.
A rir. A rir e a perder sangue, a rir. A rir e a suar.
“You’re working too much. It’s nothing. It’s just swimming in the air.”
Cavalgas o tempo para trás no limite do que pode acontecer.
E há abismos, como nunca envelhecer.
Artifício na câmara, no setting, no movimento flutuante;
Relação com a natureza partida pelo deslumbramento,
que se ofusca na máscara da ficção, do mudo.
Na alma de caçador, a canção dos filhos da noite.
Numa casa branca, sem os cantos da moralidade
um Hino de alegria desafinada.
E se depois acordássemos às centenas numa camisa-de-forças?
A minha sombra mancha os edifícios, as ruas, quem me adorar merece morrer.
O riso da demência, uma vez mais, na poluição do pensamento.
O amor, o amor que nem a Deus concede é miserável antídoto para a eternidade.
A morte e a dança dos falsos felizes: o rato, o estrume.
A morte , essa desconhecida da carne,
a ciência que envelhece numa cadeira de braços.
A dança dos falsos felizes é sempre a última ceia dos condenados.
A peste ou a sombra a carregar os seus corpos.
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