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À luz deste propósito, Wiseman
revela-se o cineasta kafkiano da história do cinema e a realidade
mostra-se como ficção. Bate três punhetas por dia. É demais., conclui o
médico de serviço em relação a um dos pacientes. Outro faz das tripas
coração para mostrar que está lúcido, que estar ali está a afectá-lo
psicologicamente. A deixá-lo doente. O seu psiquiatra não acredita e
carrega-lhe nos medicamentos, dizendo palavras como "esquizofrenia" e "
perturbação esquizóide". Ele não acredita mas nós sim, porque esse é o
talento de Wiseman: não de denunciar situações, mas de mostrar que a
câmara tem a capacidade de deixar perceber que uma instituição é um
espelho distorcido das conveniências da sociedade. Uma máquina que
mostra o funcionamento da outra, num modus operandi institucional
que se revela como ficção. Como filmar o outro lado do espelho: levar ao limite (a
tal câmara insistente, o "cada dia") o impulso documental de ver o que está,
para chegarmos às maravilhas e horrores do lado de lá do "facto": a lenda.
Trocado por miúdos. Levar ao limite o documentário permite levantar do real uma qualquer ficção e viceversa.
Vicerversa, sim. Reparem na insistência de um filme como Quella villa accanto al cimitero (1981)
de Lucio Fulci. Uma distorção ficcional, uma "paródia insana" sobre os
temas da psicanálise (uma das personagens chama-se mesmo Dr. Freudstein)
e do crescimento. Quantas vezes filma Fulci a descida à cave daquela
casa (de onde se vai sabendo vêm todos os problemas)? Quantas vezes a porta
da cave se fecha não deixando a vítima no seu interior escapar ao seu
"monstro" (simbólico ou real)? Quantas vezes Fulci acciona o mecanismo
do suspense e do terror com o mesmo traçado? (O monstro persegue a babysitter,
o filho, a mãe, o pai, para fora do antro, do espaço dos mortos.) Situações semelhantes de mise-en-scène, como se a
escrita de Fulci insistisse na mesma situação ficcional para nela
depurar uma essência qualquer. Uma essência do medo, do stress da
sobrevivência, do sangue como depuração do vermelho-puro? Não é fácil
dar respostas mas é mais simples ver em Fulci o movimento inverso de
Wiseman: só levando a ficção ao limite, escrevendo e re-escrevendo os
mesmos versos, se poderá chegar a uma depuração "documental". Chegar a
algo que permaneça. A uma lucidez.
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