Ainda não tinha postado aqui o meu texto sobre o "Fantasia" da Walt Disney. Ora peguem lá.
segunda-feira, 17 de julho de 2017
domingo, 16 de julho de 2017
Árvore da Cinefilia #14- Alexandre Andrade
Se alguém (provavelmente em desespero de causa, para quebrar o gelo no meio de uma conversa em ponto morto) me perguntasse qual foi o primeiro filme ao qual colei o epíteto de “filme de minha vida”, a minha resposta seria imediata e vibrante: Rumble Fish.
Mais do que o primeiro “filme da minha vida”, foi aquele que conferiu sentido a esta expressão, que tem o defeito de estar muito gasta e pender para a grandiloquência, mas tem também a virtude da exactidão e da concisão: confina o seu âmbito a dois elementos (o filme e a vida) e a uma relação que é de pertença. É assim que deve ser.
Onde o vi pela primeira vez? No Quarteto, provavelmente; na estreia, por certo. (Recordo-me de uma crítica devastadora de Eurico de Barros no Semanário que me deixou furibundo.) Correria o ano de 1986 (a acreditar no IMDB). Eu estaria a caminho dos quinze anos de idade. Uma idade tão boa como qualquer outra para se perceber que o cinema é algo mais do que uma maneira inofensiva de passar o tempo.
Rumble Fish é, tal como a longa-metragem anterior de Coppola (o muito menos interessante The Outsiders), baseado nos romances fortemente autobiográficos de S.E. Hinton. O enredo gira em torno das lutas de gangues na América profunda (Oklahoma) e está longe de ser um prodígio de originalidade. Contudo, arrojo formal do filme distingue-o de forma abrupta do seu antecessor e chocou a imprensa especializada que, na sua maioria, se entreteve a espezinhar o filme, com um desdém que só foi superado pelo do público (2 milhões e meio de dólares de receita, um quarto do orçamento de produção; The Outsiders custou o mesmo e arrecadou mais de 33 milhões). Hoje somos todos muito sofisticados e já todos vimos Wong Kar-wai e Leos Carax. Um filme como este não corre o risco de fazer erguer uma sobrancelha que seja. Na altura, o preto-e-branco contrastante, as brevíssimas inserções coloridas, as nuvens velozes filmadas em “time-lapse”, pareceram extravagâncias escandalosas ou insultos ao bom gosto.
Creio que nunca voltei a ver Rumble Fish na íntegra. Talvez nunca o faça. Tenho medo de que um novo visionamento equivalha a revisitar o adolescente impressionável que estava (sem o saber) à espera de algo tão gloriosamente estranho, barroco e exagerado para começar a amar o cinema. Desconfio que a minha reacção perante o simbolismo pesado (os peixes, a motorizada à beira do oceano) seria de enfado e destruiria o encanto fundador.
Não será uma atitude muito racional. Seja. Expliquem-me o que tem a cinefilia a ver com a racionalidade e a sensatez, e depois conversaremos.
Alexandre Andrade *
* Alexandre Andrade é professor universitário na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, autor de vários romances e livros de contos, entre os quais o mais recente "Cinco Contos Sobre Fracasso e Sucesso". Além disso mantém o conhecido umbloguesobrekleist, e é co-autor do blogue cinéfilo Um Cinéfilo Preguiçoso.
quinta-feira, 13 de julho de 2017
terça-feira, 11 de julho de 2017
domingo, 9 de julho de 2017
"Então o mistério das coisas estremece."
Há frases que nos ficam tatuadas em parte incerta, vogam na manhã que floresce, zumbem à tarde, cálidas e prazerosas, e abrem a noite com a faca da solidão. Esta é uma delas, não sei quando tropecei neste verso da Sophia de Mello Breyner (ou melhor sei, mas é granítica ocasião e revelação) e não há dia em que não a traga comigo, desfeita em sílabas, despida da sua literatura, só a carne daquela que me é uma trela invisível a puxar-me a vida adiante.
Sobre ela digo apenas que me parece impossível só "estremecer" antes do seu ponto (terminal).
Sobre ela digo apenas que nunca a palavra "então" soube tanto a despertar, a começo de olhar que perfura, moi, inquire.
Árvore da Cinefilia #13- Inês N. Lourenço

Consigo recordar com precisão a primeira vez que chorei com um livro.
Foi o Jane Eyre, de Charlotte Brontë,
que me deixou de rastos na parte em que a melhor amiga de Jane lhe morre dos
braços, durante o sono, na única noite em que esta dormiu junto dela. Era a
morte, num jogo duplo de beleza e tragédia. No entanto, do cinema, esse amor
maior, não tenho uma forte memória inaugural: tenho vários primeiros filmes, aos
quais nunca perdi a estima, quer pelo deslumbramento quer pelo impacto. Um
deles é o The River (1951), de Jean
Renoir, pois claro, mais uma vez pela transformação da morte de uma criança
numa tragédia fleumática, mas também Shanghai
Express (1932), onde vi pela primeira vez Marlene Dietrich, sob a luz
hipnotizante de Sternberg, ou Three Comrades
(1938), de Borzage, o filme em que adormeci e acordei no magnífico plano
final, com as quatro silhuetas a desvanecerem-se na paisagem de neve. Não
sairia daqui, se fosse ao baú… Mas lembro-me ainda de um outro, de Peter
Jackson – na altura em que vi, com 13 anos, não sabia quem era o realizador – Heavenly Creatures (1994). Foi um filme
que recebi com muita estranheza e fascínio, porque nunca tinha sentido o
arrepio na carne de testemunhar o romance contido e mágico entre duas raparigas.
E depois toda aquela inversão da fantasia em horror. Não o voltei a ver, mas
esta memória ficou-me agarrada à pele. Assim como a paixoneta que tive por
Johnny Depp em Eduardo Mãos de Tesoura.
Nos anos mais recentes, vi Fièvre
(1921), de Louis Delluc, na sala Luís de Pina da Cinemateca (onde vi tanto
cinema mudo), mais um que mexeu comigo, que me deixou transtornada pelo sentido
da ‘espera’ inscrito nessas imagens de um bar portuário. ‘Espera’ é uma palavra
que me leva à infância, à sala escura e ao meu pai, por quem sempre esperei que
voltasse da tal viagem. Essa de que os adultos não nomeiam o país.
Sei que o meu primeiro filme em sala foi o Rei Leão. Vi-o com ele, que morreu dois anos mais tarde, tal como o
pai do Simba. Eu não sabia, e pus-me a esperar. Alguns anos depois (tinha 6
quando comecei a ‘espera’), tomei a sala escura por catedral. Não como refúgio:
é aquela outra coisa que nasce em nós e não sabemos dizer.
Em Vilamoura, onde então morava, só havia um cinema, e ficava mesmo em
frente à empresa onde a minha mãe trabalhava. Ia ver tudo o que idade permitia, e sempre
que o fim da sessão batesse certo com o horário laboral dela. As cadeiras eram
de napa vermelha, e eu sentava-me invariavelmente ao centro, numa sala muitas
vezes vazia a meio da tarde. Guardava um lugar para o meu pai, e sorria para o
senhor que picava o bilhete à entrada, sempre espantado que uma menina da minha
idade não andasse na rua a brincar (como se isso ainda acontecesse no meu
tempo…). É verdade que nunca andei na rua a brincar, mas muitos filmes, e
também fotografias de Robert Doisneau, deram-me a
conhecer essa liberdade. Não sou uma infeliz.
Um dia vi em casa O Vale era
Verde, de John Ford – que bem mais tarde voltaria a ver na Cinemateca – e
nunca um filme me aproximou tanto das memórias que não tive. Aquele é o vale
onde sou Huw (Roddy McDowall), e aprendo a rezar antes de deitar a mãozinha a
uma fatia pão, sob o olhar, primeiro sério, e depois terno do pai. «Men like my
father cannot die», diz ele no fim. É por isso que guardo sempre um lugar para
o meu na sala escura.
Inês N. Lourenço *
* A Inês é crítica de cinema no Diário de Notícias e na Antena 2 onde mantém a rubrica "A Grande Ilusão".
Para saber mais sobre a rubrica Árvore da Cinefilia.
Edições anteriores: #1 Francisco Rocha.
quinta-feira, 6 de julho de 2017
"Por comodidade, dizemos: vou ver um filme. Muitas vezes, só vemos duas ou três imagens a flutuar no nada, publicidades vergonhosas, anúncios esticados, mas não faz diferença, dizemos: vi um filme. Força do hábito, domínio fatal do um. Às vezes, vemos verdadeiramente um filme, qualquer coisa que não se parece com nada de conhecido, "Le Pont du Nord", por exemplo. E aí, se fôssemos honestos (e menos escravos do “um”), diríamos: vi filmes, ou: vi cinema. Nuance."
Serge Daney sobre "Le Pont du Nord" de Jacques Rivette
Subscrever:
Mensagens (Atom)
