sexta-feira, 5 de maio de 2017

Quem acende as estrelas?


«Quem acende as estrelas? É o lampionista do céu. Dizem que quando alguém morre nasce mais uma estrela e que as almas são borboletas que voam para o céu. / Ahh... então por isso é que no céu há tantas borboletas. / Borboletas? Borboletas tens tu na moleirinha…»

Excerto de um diálogo de «Aniki-Bóbó"» de Manoel de Oliveira

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Descansa em paz, Kiarostami

Encontro num livro de notas de 2005: «O cinema contemporâneo é pornográfico». E logo a seguir: «fazer ver sem mostrar», Abbas Kiarostami.

2017. Todo o mundo [ocidental] deveio pornográfico e nunca houve tanta gente a "ver" sem olhar para as coisas.

Kiarostami, descansa em paz que o tempo, o sabor e a própria cereja, agora já só no Masterchef.

terça-feira, 2 de maio de 2017

escrevo levanto escrevo como escrevo cago escrevo durmo escrevo escrevo
a ordem da sobrevivência não é esta
a sobrevivência é uma sobrescrevência

Marketing

Desvelava-se apenas na exacta medida da sua fome.
A ele sempre o seduzira a lógica dos derrotados, 
aquela luz ensombrada dos caídos no sucesso interior,
e as palavras a fincar a poesia nas costas dos condenados.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Nunca conheci um homem sóbrio que não reflectisse, discretamente, a embriaguez no olhar.

Um plano de Vertigo sobre o abismo

É no delay entre duas vidas, entre a cópia e o real, que surge este plano de «Vertigo» de que gosto tanto. Scotty que havia começado o filme a olhar o abismo, enquanto outros nele se despenhavam, agora parece ele próprio caído, despenhado num caso de «acute melancholia » e «guilt complex». Pelo menos é assim que o médico o descreve à «mommy» dele, a Midge, por quem nunca se apaixonará. Este plano (que são na verdade dois na montagem de George Tomasini) surge depois dela lhe trazer o Mozart, apesar de saber que ele não o vai ajudar de todo. A primeira vez que surge o plano ela diz-lhe: «I brought you a lot of other things, you can see what you like». O que mais gosto neste momento é que a imagem nos mostra o oposto, que Scotty está incapaz de saber o que gosta, que aquele picado abissal está lá para nos mostrar essa queda, essa vertigem como loucura. 

Esta queda, esta fractura da perspectiva, que nos aproxima tanto do colo de Stewart, da tintagem dos seus cabelos, das pernas finas e mãos inertes, começa já por instaurar o problema da divisão que o protagonista vive. Quer dizer, nos somos confrontados com uma proximidade com o actor como se saíssemos da «baixa altitude« da ficção e subíssemos aos píncaros da vista de Deus, da realidade. E só víssemos um actor que encarna uma personagem, que por sua vez está também ele dividido, apaixonado, por uma realidade que, afinal, se irá revelar apenas... uma cópia. Por isso este plano é tão importante para mim: pois é Hitchcock Deus que fala ao espectador dizendo-lhe que o que Scotty vive é o que todo o cinema vive e, já agora, todo o homem vive quando confrontado com os papéis que encarna no quotidiano. Mas se essa fractura parece indicar um plano intelectual, nada podia estar mais incompleto: os "ficheiros estão todos misturados" e além do problema metafísico que instaura a divisão entre Madeleine/Judy, o mais impressionante é esse metáfora visual da loucura como queda, de um homem caído na sua razão e emoção. 

E é o cinema que nos ensinou a olhar para um homem como uma geografia acidentada, algo que pode agir como uma montanha ou conter em si um abismo, impenetrável e sem fundo.