quinta-feira, 8 de outubro de 2015


terça-feira, 6 de outubro de 2015

Chantal (1950-2015)

Tenho horror a obituários mas ela era grande.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

The Martian


E pronto encontra-se água em marte e tomem lá um filme sobre marte, desconfia-se, tudo parte do mesmo pacote, e escavam-se os méritos do filme, uma suposta série B (mas onde? só se for na temática, de resto é tudo bem A), dá-se um chega para lá no romantismo de Interstellar (como se a lição final de Damon aos seus alunos não fosse da mesma fornada do follow your dreams, vence as  dificuldades, you can do it...) e depois fica-se com uma coisa mais ao menos anódina que se destina a fazer salivar os românticos da ciência, lets science the shit out of this (vejam lá como é que aquele MacGyver..., lá tão longe... tá muita boa, grandes engenhocas) e a mostrar de forma tão realista, credo, os meandros da NASA. Como se os meandros que vemos não fossem iguais aos meandros de quase todas as grandes organizações estatais do pós guerra americano, que tendo um propósito lícito, se emaranham em egos, lutas de poder e outros... Mas tudo isto não é o pior. O pior é que sob a premissa de se estar numa situação tão estrangeira, tão virgem (como diz Damon ele naquele planeta era o primeiro a fazer tudo, a subir uma montanha ou outra coisa qualquer) esse olhar supostamente inaugural seja desperdiçado num atmosfera tão carregada de pessoas que observam, sentem pena e estão quase desde o início sempre a comunicar com o "marciano". O filme apregua a virgindade mas tem uma mise-en-scène fodilhona, que não confia no silêncio, na solidão, onde todas as acções têm de ser confirmadas pelas câmaras do capacete, dos carros espaciais, do vídeo diário de Damon, da CNN, dos ecrãs gigante da transmissão em directo dos seus feitos. A "história a acontecer" não tem por isso o espaço da discrição e fica-se com a sensação que Damon está a pôr em actuação uma sucessão de números científicos para terráqueo ver (do ponto de vista do leigo podiam ser estes ou outros quaisquer) e que sobreviver em Marte é igual a sobreviver em alto mar ou na Baixa da banheira num dia de mau tempo. Neste sentido, The Martian faz pelos astronautas aquilo que se fez com a guerra no Iraque: vender às pessoas experiências de dureza e de solidão como jogos de níveis (aqui não é a excitação como em Nolan mas é a estratégia) onde tudo é espectacular e aventuroso.

domingo, 4 de outubro de 2015


sábado, 3 de outubro de 2015

Os donos d'isto tudo


Há coisas que valia a pena comparar. Por exemplo, o sistema de produção em alguns casos invisível e anónimo da Hollywood clássica que fazia com que um filme como Casablanca possa ser visto como uma malha de autoria (s) de para aí uma dúzia de pessoas diferentes (mas ainda assim, follow the money), com a mostração das malhas mais uma vez invisíveis do tardo capitalismo financeiro em filmes como The Godfather e mais explicitamente toda a série de conspiracy movies do pós modernismo, como escreveu Fredric Jameson em The Geopolitical Aesthetic (aqui, follow the money é mesmo a única coisa a fazer).

 O que é aparentemente incomparável talvez ajude a compreender se hoje coisas na boca do mundo como os colaborative movies e todo o fenómeno da criação total são o próximo capítulo da redentora vinda do anjo da história, sem contradições, sem autores e sem auras, ou se, andamos apenas a substituir sistemas de invisibilidade uns pelos outros para ir tapando, de forma cada vez mais eficiente, os "donos d'isto tudo".

(talvez a "trajectória" do corpo de Marlon Brando da t-shirt branca de A Streetcar Named Desire até ao corpo balofo, amortalhado e "invisível" do general Kurtz, com a interrupção das variações e retalhos cronenberguianos sobre os corpos dos anos 80, nos mostrem de forma muito visível o que vai acontecendo ao que é palpável e material num universo relacional, de labirinto que esconde a causa do problema, seja ela a exploração mafiosa dos recursos ou a deformação do corpo por excesso de jouissance.)

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Auteur, yes, but of what?

I admit that the explicit or admitted pretension of a critic to reconsider the production of a filmmaker with every new film in the light of his judgement has something presemptuous about it that recalls Ubu. I am also quite willing to admit that of one is human one cannot help doing this, and, short of giving up the whole idea of actually criticizing, one might as well take as a starting point the feelings, pleasant or unpleasant, one feels personally when in contact with a film. Okay, but only on condition that these first impressions are kept in their proper place. We have to take them into consideration, but we should not use them as a basis. In other words, every critical act should consist of referring the film in question to a scale of values, but this reference is not merely a matter of intelligence; the sureness of one's judgement arise also, or perhaps even first of all (in the chronological sense of the word), from a general impression experienced during a film. I feel there are two symmetrical heresies, which are (a) objectively applying to a film a critical all-purpose yardstick, and (b) considering it sufficient simply to state one's pleasure or disgust. The first denies the role of taste, the second presupposes the superiority of the critic's taste to that of the author. Coldness... or presumption!


(...) 

It is unfortunate to praise a film that in no way deserves it, but the dangers are less far-reaching than when a worthwhile film is rejected because its director has made nothing good up to that point.

(...)

To conclude: the politique des auteurs seems to me to hold and defend and essential critical truth that the cinema needs more than the other arts, precisely because ac act of true creation is more uncertain and vulnerable in the cinema than elsewhere. But its exclusive practice leads to another danger: the negation of film to the benefit of praise of its auteur. I have tried to show why mediocre auteurs can, by accident, make admirable films, and how, conversely, a genius can fall victim to an equally accidental sterility. I feel that this useful and fruitful approach, quite apart from its polemical value, should be complemented by other approaches to the cinematic phenomenon which will restore to a film its quality as a work of art. This does not mean one has to deny the role of the auteur, but simply give him back the preposition without which the noun auteur remains a halting concept. Auteur, yes, but what of?

Andre Bazin - On the politique des auteurs (1957)