terça-feira, 11 de agosto de 2015

Torcicolo


Na minha ingenuidade sempre pensei que Of Mice and Men mais tarde ou mais cedo se encontrasse com a expressão "somos homens ou somos ratos?". Mas não. Quanto muito refere-se à dualidade rato pequeno e esperto (a personagem de George) e homem só músculos e infantilidade (Lennie). Mas nem isso estou certo. Quando Lennie afaga o rato morto no início, este é um substituto para os idealizados coelhos (que não chegam a ser como o amigo de James Stewart, Harvey) e para o pequeno cão que lhe morrerá por excesso de carinho lá mais para o final. Se Lennie não tem a inteligência suficiente para lidar de forma conveniente com seres frágeis e pequenos (não mede a sua força) é porque ele próprio possui um intelecto frágil. Talvez seja o verdadeiro significado dos mice no romance de Steinbeck: a de que de homens e de ratos (ou força e fragilidade, ou racionalidade e instinto) todos temos um pouco. Interpretação forte para um romance sobre a fragilidade que acaba com o criador a destruir a sua criatura. Ou, como eu não podia evitar, com Jesus a aniquilar a sua própria equipa no último domingo. As dores de pescoço nos últimos dias têm-me deixado à beira do delírio, parece.

sábado, 8 de agosto de 2015



Já é antigo mas tem uma certa graça esta pequena conversa moderada por Mick Garris. Sobretudo pelo "duelo" entre a seriedade de Cronenberg/Carpenter e as geekness de John Landis. Embora Carpenter contrarie a coisa há algo a explorar na contraposição entre a ameaça que vem de fora de Carpenter e a que vem de dentro (mente, corpo) de Cronenberg.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Na presença dos palhaços

Terminou ontem, eu sou suspeito, um fabuloso dossier ali na Pala dedicado à figura dos palhaços. Impecável edição do Luís Mendonça e do Ricardo Vieira Lisboa, com textos para todos os gostos: Jorge Silva Melo, João Mário Grilo, Luís Miguel Oliveira, Paulo Cunha, Emmanuel Burdeau, José Marmeleira, Luís Soares Júnior, enfim... o rol é incrível. Muitos comediantes ficaram de fora, claro, mas desde Chaplin a Artur Semedo passando por Pierre Étaix a Freddie Krueger (!), a escolha é mais que muita e as férias estão aí para ler todos estes textos. 

Na presença dos Palhaços acaba com o top das melhores comédias para alguns dos walshianos e para o felpudo Bruno Aleixo. Assim se termina um dossier sobre comédia. A rir.

Estai atentos que o próximo dossier já rola aí nas nossas mentes...




quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Carpenter hitchcockiano?


Em 1978, Carpenter realizou dois filmes e escreveu outro sensivelmente sobre o mesmo tema: a relação entre vítima e assassino. Halloween, Someone's Watching Me! e Eyes of Laura Mars (este último realizado por Irvin Kershner e com Faye Dunaway e Tommy Lee Jones). É sobretudo por estes três filmes que muita gente tenta ligar Carpenter a Hitchcock. Se é certo que Assault era Hawks e que Halloween tem uma premissa mais hitccockiana e continua a ter Hawks (nem que seja na televisão quando o miúdo vê The Thing From Another World), é o filme que realizou para a televisão aquele que mais claramente evoca o mestre do suspense. Someone's Watching Me! é um racconto de Rear Window se James Stewart não estivesse na ponta de um telescópio por acidente. Embora o filme tenha alguns problemas, nomeadamente uma protagonista demasiado engraçadinha e um ritmo algo aos solavancos, o seu final deixa-nos a pensar em Hitchcock, televisão, voyeurismo...

No fim de Someone's Watching Me! o cordeirinho fica preso no seu apartamento com o lobo. Mss como o cordeirinho fala sempre demais diz-lhe para ele aparecer e não se esconder mais, algo que havia feito durante todos os outros minutos do filme. Ela aí diz-lhe que ele tem medo de se mostrar, que se sente bem apenas escondido, ou algo do género. Quando cai pela janela ela dá aquelas punch lines, muito em voga: he got too close. Demasiado perto já é o estatuto de um telefilme sobre a gestão erótica da distância, mas a morte por proximidade pornográfica (enquanto desvanecimento do estatuto do voyeur) é precisamente aquilo que corre o risco de matar o instinto de reclusão do espectador, do que olha ou do que faz, olhando.

E essa proximidade que mata está também nos planos iniciais com que Carpenter filma o telescópio do predador, com que toca o universo de Hitchocock. Esses planos tão perto e tão fálicos, embora provavelmente disso não tendo consciência, destroem a aura de uma admiração para construir um espaço de emulação obsessiva. Largando a abstracção: é porque Someone's Watching Me! quer estar tão próximo de Hitchcock que não o consegue. A excessiva proximidade é ela incapaz de percepcionar o plano geral que é necessário a uma homenagem total, isto é, que leve traços do observador e do observado. Talvez isto ajude a explicar a razão pela qual, apesar das aparências, Carpenter não seja um realizador especialmente hitchcockiano.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Halloween e as folhas de Outono


No outro dia falava nos planos abertos e na ideia de preparação no Assalto à 13ª Esquadra. Se se tiver isso em mente ao ver Halloween, torna-se claro a sua respiração, a inspiração tensional dos espaços fechados (cena inicial e última meia hora, na realidade o melhor do filme) e a expiração falsamente descontraída dos espaços exteriores. Umas das coisas mais aterradores nesse exterior é como Carpenter percebe que o vento e as folhas secas de Outono nos podem dar a desolação de um espaço sem guarda, mas vagamente melancólico. Não é esse também o propósito de Myers, voltar à cidade de infância? Muito se fala, e com razão, da forma como acaba Halloween, em que o assassino desaparece no relvado após ser baleado tornando-o num boogeyman que não morre, uma ameaça indestrutível de dimensão mítica que percorre toda a América. O tema da "ameaça sem rosto", que se desvanece por todos e nenhum, caro a Carpenter, precisa desse oposição de espaços. O exterior, aquele onde a ameaça vagueia, sem corpo, nos travellings laterais e se prepara, de forma lenta e até por vezes a roçar o abstracto, para entrar, e o interior, onde a ameaça finalmente ganha corpo físico, nas casas, nos faróis, nas esquadras, numa comunidade local... Porque não há materialização definitiva do mal, o exterior torna-se tão árido, com as coisas longe umas das outras, como espaço de aceleração. Depois de acelerar, Carpenter aperta o seu cinema nesse acto de "entrar em" (invadir) ou "escapar de". Como esquecer aquela corrida de Jamie Lee Curtis no relvado da casa em frente depois do primeiro encontro com Myers? Uma figuração do desespero.  

Halloween é essa respiração onde o exterior quer ir para dentro e o interior, mal atingido pela desolação do exterior, precisa urgentemente de sair...

Um brinde a W.C. Fields!

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Carpenter só pode ser demente (e ainda bem)

Foi só no último plano de Dark Star, em que Doolittle pega num destroço da nave e vai a surfar para a morte como uma estrela cadente em direcção a um planeta vermelho que parece pintado a caneta de feltro, que me voltei a lembrar de como a primeira longa de Carpenter é um delírio absurdo e genial. De resto, como todos os grandes delírios. Durante o filme há tanta coisa a acontecer que nem se dá por nada. É como aquelas anestesias temporárias. Quando puxo a cassete atrás e penso nos diálogos entre o nihilismo de Beckett e o macho love de Hawks, no prenúncio de Alien num killer tomato - bola de praia com patinhas, na falta de memória como se fosse Sokurov na zona, no morto-vivo criogenado e nas "bofetadas" a Kubrick, com a sua bomba a fazer as vezes do Hal 9000, e a Nolan, em que o uso do "do not do gentle into that good night" ao serviço de um humanismo parvinho é substituído pelo ensino da dúvida cartesiana à dita bomba -  é impossível não se cair em si. Tudo somado é obra. Não restam dúvidas: Dark Star é obra de um demente. Ou então, é obra de um génio.