sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Jantar de família



Era preciso que alguém fizesse o catálogo dos brilhos. A criança que brilha quando o pai chega a casa do trabalho, o jovem que brilha da cara quando lhe pedem uma opinião. Nem tudo o que o reluz é luz. De onde vem o brilho dos desarranjados pela vida, com uma excessiva humidade, palco do qual quem olha é quem desfolha o brilho imóvel do pavor? Ser apanhado num minuto de diamante e insanidade declarada. Brilho fosco e imóvel preso na máscara da loucura e das ervilhas. Um catálogo dos brilhos, como um projecto, talvez seja excesso de minúcia, até porque brilhos há que, estando à vista, denunciam a irremediável distância. Catalogar as estrelas, a loucura, os brilhos, tudo sobrecarregando as costas do verbo. Observar antes o brilho da tarde de um frio estúpido, ficar, reter, encher o brilho da neve para o brilho da córnea, dirigi-lo a 67.657 mais estes quilómetros, da boca que come para a boca que é um mobiliário antigo de dentes. É esse o irremediável brilho do que passa. Passou, incandescente.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Comboio de Sombras


O cinema experimental retirado das danças e dos sorrisos do primitivo. Para ler aqui. Para ver ali.

Ping Pong (ou terrorista vs. terrorista)

Chocados estamos quando atentam à nossa liberdade de expressão. (bola cá)

Chocados estão quando atentamos à sua organização política, religiosa e cultural. (bola lá)

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Woody Allen, o que vêem os teus olhos?




Depois de ver Magic in the Moonlight, o tradicional Woody Allen anual que só agora pus em dia, tenho de começar a pensar em dar o braço a torcer àqueles que por aí vão menosprezando todos os seus filmes depois Hollywood Ending ou Match Point. As costuras à mostra nesta batalha entre a razão e o transcendente, a graça a meio gás, o twist mecânico, o abrupto happy ending com as pancadas de Molière convertidas em pancadas de mulher. Seja como for fiquei com vontade de, possuído pelo espírito Daniel Oliveira, perguntar a Allen se ele se estará a pensar converter naqueles velhinhos que perto do fim começam a ver a luz e a acreditar que há qualquer coisa para além do que os nossos olhos alcançam. Depois da relativização da vinda do estranho alto e vestido de negro e da ideia de que tudo vale a pena se a alma não é pequena mas o corpo se torna pequeno (Whatever Works, 2009), começa a ser insistência a mais numa ideia de fim que procura uma certeza qualquer. A meio de Magic in the Moonlight a metafísica que até então estava a pousar pela primeira vez na vida o sobrolho de Colin Firth parece levar uma rasteira e nós pensamos, ah, finalmente Allen está de volta ao cepticismo dos vivos e pujantes. Mas depois tudo se re-ameniza e ficam dúvidas sobretudo quando, de filme para filme, a metafísica ameaça ser derrotada de forma cada vez mais vitoriosa.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Roupa sem gente lá dentro


Há uns anos, na cidade onde vivia, uma pessoa que amei deixou-me uma camisola no armário. Durante dias intermináveis, ela ficou-me nas mãos, no cheiro, como uma marca daquela pessoa que se tinha ido mas tinha ficado. Dobrada, desdobrada, na gaveta arrumada ou escondida entre livros, a camisola tinha a marca de um amor que dispensava a carne, que era só textura, mangas e lembranças de um tecido fino. E segui desta feita despido pelos meses que sobraram até ao reencontro da corpo com a camisola, como se o mundo tivesse encaixado novamente, as coisas no sítio delas.

Há uns dias, na cidade onde vivo, a pessoa que amo pediu-me para lhe dobrar a roupa. Peguei num vestido negro seu e pousei-o nas costas de uma cadeira. Outra vez a mesma sensação, uma roupa a reclamar um corpo, que nele andasse, se movesse, dançasse, enfim existisse. De repente na imobilidade do tecido descobri como as roupas podem ser essa prova funda de um sentimento não menos fundo. O vestido, silencioso, era a presença de uma ausência, contando-me, na sua impassibilidade, como a vida que habita aquele pedaço de coisa, que só existe como coisa faz parte da minha vida. A roupa pode dizer-nos que amamos e nós, vestidos desse mesmo sentimento, não podemos nunca dobrar roupa em vão.