domingo, 4 de janeiro de 2015

Não é relevante

"Não vemos nenhum método no mundo a não ser o do paralelismo entre o que é grande e o que é pequeno, sem nenhuma interacção, e também não descobrimos a menor tendência para a convergência. Experiências, fortunas, governos, leituras, escritos não servem o nosso propósito; da mesma maneira, quando um homem entra numa sala, não podemos dizer se for alimentado com inhames ou bisontes - ele arranjou maneira de ter tantos ossos e fibras quanto precisa, tirando-os do arroz ou da neve. Tão grande é o hiato entre o horizonte celeste da lei e, muito mais abaixo, a formiga da execução, que não é muito relevante dizer que um homem é tolo ou valoroso."

 Ralph Waldo Anderson in "Montaigne, ou o céptico"

sábado, 3 de janeiro de 2015

Adivinha por que vêm jantar


Jantar às oito. Jantar às oito na Gulbenkian. Quem vem jantar às oito são os destroços, os efeitos, os resistentes da grande depressão, norte-americana, portuguesa. Cukor filma as vidas daqueles que se preparam para jantar mesmo não querendo ir. Os poucos que querem, querem-no por motivos pessoalíssimos. Não vamos ver jantar nenhum, as portas /o ecrã fecha-se antes dele começar. Não vemos esse destino malfadado, adiado, atrasado, incumprido. Cukor filmou esse pré-jantar não como uma comédia, nem sequer como uma comédia dramática. É um drama com sorrisos finos lá dentro, uma refeição lenta, de digestão difícil, onde se consomem as ideias do suicídio, da infidelidade, da doença, da corrupção, da falência. Só motivos para rir. Só motivos para resistir. Dinner at Eight fica-nos por esse conflito de problemas - a gelatina de carnes do jantar que cai ao chão ou a trombose coronária do chefe de família - ou por momentos minúsculos que têm a força do todo: a bochecha inchada da empregada, o ajeitar da luz de John Barrymore antes do suicídio ou as costas nuas de Jean Harlow. Tudo momentos amargos de "grande decepção" de uma suposta comédia sobre a grande depressão. 

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Momento de Fraqueza #2



Momento de Fraqueza #1



Acordou no meio da noite com a impressão de que toda a sua vida iria ser assim, comprida e sem talento. De manhã, já despertado, só não tinha a certeza de ter-se tratado de um sonho ou de um pesadelo.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

adeus linguagem, olá 2015


No último dia do ano tive a ocasião de ver "Adieu au Langage" e hoje, já em 2015, pensava em como o Godard político é o Godard do interstício, é aquele que passa entre. As Histórias do Cinema são esse estranho vaticínio em que o cinema só na altura em que começou a elaborar a sua história (como um corpo moribundo cuja vida lhe passa num flash pouco antes de morrer, reflectindo sobre "o que deixei eu como herança?), só aí, dizia, é que o cinema pôde dar um passo em frente nos usos e significações. Também com este Adeus, que é mais um Ah Deus!, fico com a impressão que o adeus próprio do velhinho é o olá a algo que começa. Assim, não vejo nenhuma de ironia no prémio que irmanou com Dolan este ano em Cannes. Aliás, raras vezes terá o festival sido tão certeiro a perceber que ambas as gerações falam do mesmo "re-nascimento", naturalmente por meios diferentes. 

No último dia do ano de 2014, que é como quem diz um fim encostado a um novo início, pareceu-me a melhor maneira de saudar um (re) nascimento que começa com um adeus.

2015 começa assim: efusivamente e sem linguagem. Parece bem.