terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Quando ao romper da manhã um pássaro esvoaça junto à minha varanda, pergunto-me se estarei errado.

Quando ao fechar da tarde um carro rola a toda a velocidade pela estrada da minha rua, então sei que estou certo.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

De noite

Até hoje já por duas vezes tive de passar a noite num hospital. A primeira há mais de 10 anos, a segunda há pouco mais de uma semana. Lembro-me de muito pouco da primeira vez. Não me recordo da cor dos lençois, nem da voz dos enfermeiros. A minha curiosidade, fluorescente, invadia tudo. Sei que havia uma pessoa com a qual partilhava o internamento mas não sei quem era ou do que padecia. Era novo demais para pensar na morte ou em como aquele quarto podia servir para nos separar do mundo. Lembro-me da minha família a rodear-me descontraída — o meu problema estava longe de ser grave — e de estar sobretudo focado na fome e no frio. Não comi nada durante 24 horas. Estava nu, em todos os sentidos. Nada sem ser a bata da operação e depois o frio do recobro. Ainda me lembro da protecção da cintura para baixo que me puseram para que não pudesse ver como me cortavam. Estava consciente e conseguia ver a máquina das batidas cardíacas. Observava o meu rosto no reflexo das lâmpadas da sala e entretanto devo ter adormecido. Só senti medo uma vez: quando me empurraram suavemente o corpo da maca para o elevador que descia à sala de operações. Um medo estranho, futurista, de quem entra numa nave espacial e que se prepara para voar para um mundo qualquer. A noite passei-a bem pois tinha muito sono. Um sono sem sonhos, como se fosse mais para despistar a fome do que a dor. Essa nunca a senti, nem depois. Era jovem demais e só olhava para dentro. Dessa vez o hospital foi sobretudo para mim como um hotel exótico, no qual chegamos depois de caminhar um dia inteiro, tapete de boas vindas, calor, experiência única.

Entretanto o tempo passou. Ou escoou, não sei bem. Mais de uma década depois voltei ao hospital. Outra vez o mesmo problema, longe de ser grave. Outra vez uma noite. Mas não era a mesma noite. Já não senti a fome e o frio. Os lençois eram brancos, tão quentes, a bata azul, tão fina. Ao meu lado um senhor a ouvir notícias do benfica, tão forte e descontraido. E eu tão fraco e só, apesar do apoio familiar. Na cama a seguir a essa um senhor dos seus setenta e cinco anos que se esforçava por manter o sorriso. Tinha um andarilho para ir à casa de banho durante a noite. Ouvia-se muito o metal. Contava anedotas de Co-lombo e o barulho da serra eléctrica a perfurar-lhe o joelho. Talvez fosse velho demais para a operação, mas de olhos alegres e vivos o suficiente para não lha terem recusado. Ainda um quarto companheiro de enfermaria, um senhor também já de certa idade, com problemas na próstata, urina com coágulos. Ouvia tudo isto sem querer e essa era a única dor que podia sentir. Doía-me a dor deles, mas permanecia calado. Os enfermeiros ora se riam oram eram autoritários. Uma amostra da vida num espaço à parte da vida plena. A noite, esta, foi interminável. O sono interrompeu-se inúmeras vezes. Não eram os sonhos, era o desamparo. Sentia-me tão só e injustiçado por estar a provar com a antecedência de anos e anos um gostinho da vida quando se vai. Acordava a pensar que ali não era o meu quarto, que aquelas já não eram as minhas pernas, que não podia sentir vontade de mijar. Mijar sentado aos 35 anos anos soa a impossibilidade. E por isso esperava pela manhã, doce, para que me viessem as minhas pernas, aquelas que me podiam acompanhar à casa de banho como gente saudável. Deram-me de comer mas não comi, estava demasiado triste, ignorava os roncos do estômago.

Desta vez lembro-de tudo. Da anestesista me dizer, ao entrar na sala de operações, "não o quero ver com essa cara". De me perguntarem se ainda sabia o nome, segundos antes de um gelo me invadir metade do corpo e adormecer logo de seguida. Recordo-me do barulho dos pensos a saírem da carne e da urina com cheiro a soro. Também não vou esquecer de como o cirurgião se enganou no meu nome ou dos planos subjectivos do caixão de Vampyr, quando olhava o tecto ao ser carregado pelo corredor em cima de uma maca. No dia seguinte quando recebi a notícia da alta vesti-me como pude, desejei as melhores aos meus companheiros de desalento, e saí, a coxear muito, do quarto. Preferir esperar já fora da enfermaria, meio deitado, junto à máquina do café, que me viessem buscar. Pegaram em mim, um taxista ucraniano levou-me a casa e, quando cheguei, parecia que tinha esquecido tudo. Não me lembrava das feridas nem das pessoas, da dor nem da noite. Tudo aqueceu subitamente. Senti fome. Momentos depois, ver televisão e falar com as pessoas que amo pareceram-me as dádivas mais maravilhosas do planeta. Mas nessa noite não dormi.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O borrão e o orgasmo

Ontem o À pala de Walsh juntou-se ao colectivo de arte White Noise na inauguração de um espaço na Guilherme Cossoul para futuras actividades culturais. Começámos por nos juntar à exibição de um filme, com a já habitual rubrica Filme Falado, mas desta vez ao vivo e com público. Nessa conversa que integrava o convidado Vasco T. Menezes muito se falou sobre Una Lucertola con la Pelle di Donna de Lucio Fulci. Ou no título em brasileiro Uma Lagartixa num Corpo de Mulher (desculpem mas não podia passar a oportunidade de escrever a palavra lagartixa... duas vezes).



E de tudo o que se disse ninguém pegou no borrão do início, genérico de um louco genial, nem Pollock nem Malevich o sonhariam. Uma amálgama vermelha, disforme, muito vermelha, a chocar com as letras amarelas do título. O ácido será. Ele pode dar origem a todas as visões: o sonho ou a realidade, a morena ou a loura,  a vítima ou a assassina. E claro, a lucertola ou a donna. Mais do que acertar no que pode ser o borrão, este filme de Fulci é em desvario e, em potência, todas as formas.  Tudo o que há de vir pouco sentido fará, mas virá. Engraçadinho que isso se tenha depois convertido na bula interpretativa dos sonhos da psicanálise. 

Mas há que ir mais longe. Então e o vermelho? Lá mais para a frente no filme, Mrs. Hammond, a protagonista, é perseguida por um maníaco num hospital psiquiátrico onde está internada. Ao fugir dele entra numa série de corredores todos brancos, portas fechadas. Então Fulci faz esta coisa estranhíssima: filma a mulher de perfil e nada de pormenores ao longe. Ele vem atrás dela, isso nós sabemos. Subitamente vemos uma pequena mancha... vermelha claro... que se torna evidente ao longe. Por um momento pensamos que é o seu assassino que subiu a se prepara para a alcançar. Mas esse borrão é trazido para a visibilidade e vemos que se trata de um extintor. A sério, um extintor? Porquê? Nem vale a pena perder tempo, pois logo a seguir há a dita cena dos cães esventrados ligados a uns tubos numa sala com instrumentos médicos. Cenário esse que, como se sabe, é o mais corriqueiro nos hospitais psiquiátricos...



Mas ainda o borrão. Dele devêm todas as possíveis formas com a câmara frenética de Fulci a querer experimentar tudo, a querer esventrar qualquer vislumbre de convenção. Alguém sob o efeito de ácidos poderia pensar que uma mulher é um lagarto... Quem sonha pode pensar que viu de facto... Num filme tão hitchcokiano — comece-se com Vertigo pela relação feminina no duplo, Spellbound pela questão psicanalítica e Stage Fright pelo paralelismo entre o flashback que mente e aqui os sonhos mentirosos — ainda podemos pensar noutra impensada relação. É que Lucertola começa como se Carol fosse a Iris de The Lady Vanishes. Ambas num comboio, ambas a não saber se o que viram aconteceu de facto. Ou sonho ou conspiração, no caso do paralelo entre os filmes é a mesma resposta para ambos. E nessa passagem entre o filme de 38 e o de 71 há um mesmo corredor de comboio. Corredor que para Fulci é o oposto dos ameaçadores espaços abertos: é antes um portal em que uma angústia pode devir num orgasmo. Sempre sempre estamos em processo do "tornar-se", do borrão vermelho a mutar em esquemas recônditos para ocultar (para não deixar ver) o resultado do prazer. O único prazer possível para Mrs. Hammond só pode estar atrelado a uma cama, o leito conjugal, apertado entre prisioneiras barras de ferro. E do marido, nem vê-lo.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Estrelícias


terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Uma nota sobre higiene dirigida aos fascistazinhos do presente

No mundo do oito e do oitenta em que se vive o eugenismo virou de direcção. Não se trata mais (ou apenas) de Madalenas louras e Salvadores altos e empreendedores. Agora chegou a vez de evicção do direito à escolha de terminar a vida, de fumar até que nos espirre sangue dos pulmões ou de apagar cirurgicamente as referências aos negros e aos escravos em algumas pinturas célebres para aliviar "desconfortos" daqueles que só sabem viver no presente, e sem sentido de passado. Trata-se de uma revisão retrospectiva da história, adaptado aos tempos actuais do feeling good, de quem fez merda no passado e tem agora de carregar com a cruz da discriminação positiva.

Risível, sim. Como a ida ao ginásio e a lógica do self made man de barba aparada e dentes brancos a foder o próximo para se pôr em bicos dos pés em nome das suas convicções. E chego a uma palavra decisiva: convicção. Os erros ou factos da história não são matéria de convicção. Nem para um lado, nem para o outro. Por isso é tão risível e perigoso o branqueamento da história como é o seu ataque com base numa crítica à ideia de tolerância. A tolerância actual não é um erro. Não é falta de tomates, como se aproveitam descaradamente os novos fascismos para atacar essa higienização. A tolerância é uma virtude, de colocação do eu no lugar do outro. Quem vê esta força como fraqueza não está em condições de pedir à tolerância que deixe de ser (como parece cada vez mais acontecer hoje) um valor que tudo devora e a todos se impõe. Porque essas pessoas, esses fascistazinhos do presente e do punho, só querem substituir uma higiene por outra, uma tirania do tolerante pela tirania do convicto. 

Batatas, língua e pés de porco em Frenzy

Num documentário sobre a rodagem de Frenzy, um regresso em final de carreira de Hitchcock à sua Londres, o argumentista Anthony Schaffer explica como conseguiu amenizar as imagens que o mestre tinha na mente. Primeiro, através da repetição da frase You’re my kind of woman dita pelo serial killer a Babs na cena em que ele a leva ao seu apartamento. Nós já o tínhamos ouvido dizer a mesma coisa antes de estrangular e violar a ex-mulher do herói. Essa repetição permitiu a Hitchcock a não menos perturbadora retirada em travelling pela escada do prédio até à rua. Famoso e abjecto encobrimento. Dentro no apartamento sabemos nós muito bem o que se terá passado enquanto os comerciantes do mercado de vegetais de Covent Garden passam pela rua mas inocente do mundo. A segunda água na fervura foi quando Schaffer disse a Hitchcock que não podia usar planos muito apertados de Brenda — dos seus lábios, suor e saliva — na cena da violação e estrangulamento pois isso era demais. O realizador respondeu-lhe com um nonsense my boy, mas o certo é que passado uns dias de montagem, cena particularmente difícil que demorou 3 dias a filmar, voltou atrás e retirou esses planos da versão final. Nessa cena o que nos fica é o suor do Rusk, o violador, o seu lovely, lovely, lovely enquanto a fode, o plano das mamas de Brenda e aquele momento horripilante em que Hitchcock nos dá aquele plano médio dela, estrangulada, língua ao lado. Língua que fará um raccord (não no filme, mas na minha cabeça) com a mão de porco que come o inspector da polícia.
Frenzy é um filme que corta em pedaços a ideia de que à medida que ficamos velhinhos nos tornamos mais simples e subtis. Pelo contrário. Nunca a não ser em Psycho (e creio que o desejo de aproximação naquela cena era a vontade de voltar ao chuveiro de Janet Leigh) Hitchcock estaria tão no puro terror. Como se fosse o excesso a vontade de um cineasta que já pode fazer tudo. Mas esse excesso é produzido através da transferência do que pode ser gráfico. Primeiro pelo humor macabro que é, sabe-se, um Hitchcock touch. Como é que uma cena em que um assassino parte os dedos de uma mão a um cadáver que já violou e se encontra em rigor mortis no interior de uma saca de batatas na parte de trás de um camião pode ser cómica? Mas é-o de facto e esse desvio torna-o ainda mais perverso. Depois a segunda transferência é a da comida: nojenta, rebentada, já meio comida, poeirenta, intragável. Essa ligação entre o cadáver do início que boia no rio e os pedaços de peixe que boiam na sopa horrível que a mulher do inspector lhe prepara. A mão sobre o pescoço das vítimas e o pé sobre as uvas desfeitas no chão do mercado. A poeira das batatas na testa do assassino e depois, como prova, na seu casaco. A maça roída a dois, entre a violada e o violador.

O desvio do horror para o grotesco da comida, do perecível e do podre, permite ser porco e aterrorizador sem o mais imediato. É pois essencial a todos saber gerir a porcaria. Por isso Frenzy é um filme tão extremo, que se devora com ruído, que aproveita o baixo e o prazer como últimos refúgios de um corpo também ele em irremediável decadência.   

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Aos 35 já devemos saber apanhar na tromba

Ontem pela primeira vez na vida vi The Set de Robert Wise e tenho 35 anos. A mesma idade de Stoker, a personagem de Robert Ryan, um pugilista que já caiu demasiadas vezes ao ringue mas que insiste que ainda pode vencer. A namorada só quer que ele desista pois aquilo não é vida para eles. O meu umbigo insiste em chamar o filme para junto de mim, como uma parábola sobre a vida. A perceber o final triste como feliz. Stoker, que todos acreditavam que ia perder o combate contra um jovenzinho de vinte e poucos, afinal não foi ao chão e venceu. Velho demais mas era dele aquela última glória da perseverança. E conseguiu-o sozinho, com a dor do banco vazio da namorada que nem o combate foi ver. Mas o preço da vitória, por não ter cumprido a sua derrota arranjada (até ao perder se tem um papel a cumprir), foi esfacelarem-lhe a mão num beco sem saída. Stoker não vai poder lutar mais e, por isso, Julie chora de alegria junto dele. Ela afinal venceu o combate do futuro, dos dois juntos para sempre sem os murros e toda aquela noite...
Mas assim como não precisamos de artistas demasiado focados em si e que não olhem para o que os rodeia, talvez também não precisemos dos espectadores amarrados aos filmes como espelhos distorcidos. Afinal, o cinema serve para ver mais, não o mesmo, no diferente. Por isso, é preciso passar além das tabuletas-aviso do filme. Depois do genérico, Wise, com um plano de grua, aproxima da rua à fachada no recinto onde os combates têm lugar: Paradise City. Mais tarde podemos ver o nome do hotel onde Stoker e Julie estão hospedados: Cozy Hotel. Nomes idílicos e enganadores para tão ferozes lutas. Dois ringues. Um de facto onde o pugilista veterano ainda consegue aparar os golpes que o separam de um golpe derradeiro, de génio, de bilhete para um futuro grandioso tão imaginado; o outro, o ringue mais sério, o do amor, onde Julie está prestes a ir ao tapete: Maybe you can go on taking the beatings. I can't... 


Passar além das tabuletas significa não opor demasiado estes ringues, não conceder à parábola do paraíso, dos sonhos e do confortável uma excessiva importância. Como dizia Hitchcock: se a vida não faz sentido porque é que um filme há-de fazê-lo? Baralhando a lógica podíamos ficar com o seguinte: com os planos do gordo que come sem parar ao assistir aos combates, com a mulher com ar excitado e sanguinário que pede para um combatente matar o outro, com um homem que faz sempre o mesmo gesto como se estivesse ele no ringue. Estes são os habitantes habituais e voyeuristas dos combates (da vida) de Stoker. É aqui que entra o cozy e esse escândalo de poder conceber uma vida de derrotas feita. De ir, uma e outra vez ao tapete, e de mesmo assim rejeitar a ironia da tabuleta, do tapete da nossa casa. Paradise City pode bem ser o lugar onde vamos ao chão. Onde aprendemos a cair.