segunda-feira, 11 de maio de 2020

a story we've just been told

«Multinational corporations are springing up all over: organizations that have no origin, no place, utopian, without future, even without any particular raison d´ être . One moment they're making candy, the next transatlantic liners, and within a week, transatlantic liners full of candy. Some of them are designed to make money; others, like the UN Forces, run at a loss. Some are essentially prophylactic; others, like the Church, militate in favor of Goodness, and still others -like a certain Hollywood - in favor of Wickedness. All are utopian, all believe that happiness is the orchestration of attitudes deemed good by the opinion polls. As far as these new utopias are concerned, a happy man is a man who says he's happy and is believed. Why is he believed? Because his happiness is explicable: its source is a shirt, or a perfume, or a fire, or a story we've just been told in pictures.» 
(Raúl Ruiz)

sexta-feira, 8 de maio de 2020



segunda-feira, 4 de maio de 2020

You can go home, it was just as accident



Uma das ideias que Truffaut quis rebater sobre "Tirez sur le pianiste" era o seu lado paródico. "Odeio paródias!", pois elas são "anti-artísticas". Apesar de também não adorar a moral burguesa dos gangster films, "Tirez" era sim - ainda as suas palavras - guiado por uma espécie de "pastiche respeituoso". A experimentação do filme certamente convoca o riso, a ironia ronda por todo o lado. E depois há aquela pequena decepção de Truffaut. É uma cena em que Aznavour apunhala o dono do bar e depois as personagens femininas ajudam a carregar o corpo juntamente com os músicos que, ainda munidos dos seus instrumentos musicais, ajudam no processo, numa espécie de marcha fúnebre barroca. O que fazia espécie ao realizador francês era o riso do público quando, ao carregar o corpo, uma das mulheres dizia aos vizinhos à janela: "Podem ir para casa, isto foi só um acidente." Truffaut queria homenagear essa frase cliché dos filmes americanos (You can go home, it was just as accident). Mas as pessoas tinham visto Aznavour a espetar a faca e riam, segundo interpretava Truffaut, pois pensavam que aquilo era uma ingenuidade do realizador. Ingenuidade ou não, essa cena permite pensar numa comparação e diferença entre a função social das ruas e do espaço urbano entre o noir americano e a nova vaga francesa. É que no primeiro, muitas vezes a sobrevivência era mesmo uma questão de "ir para casa" e de lá ficar; enquanto que no segundo, o "cá fora" é o espaço mais natural, da balada, da feerie romântica, dos "acidentes". Se pensarmos nisso, o riso do público francês é tudo menos ingénuo e bem revelador destas diferenças.

sexta-feira, 1 de maio de 2020

Mest de Yermek Shinarbayev



A primeira imagem de Mest [Vingança, 1989] do cazaque Yermek Shinarbayev é o rosto de uma tartaruga que avança, lentamente, para a câmara. Ouvimos um respirar ou uma espécie de suspiro. Virá do animal? Nunca o saberemos. Instantes depois e vemos um soberano da Dinastia coreana Joseon que pergunta ao seu conselheiro porque se move ela (a tartaruga) sempre na mesma direcção. Vai na direcção do mar, de onde provém. O filme acabará no mar, também. E no entremeio há uma história de uma vingança que mais do que servir-se fria, servir-se-á apurada, destilada pelo destino, como se fosse sendo entregue a prestações, como o lento caminhar resiliente da tartaruga. Mas isto registei apenas agora, com o cuidado de um olhar mais pesado. A primeira vez que vi o filme (já não recordo exactamente quando e em que circunstâncias; teria sido na televisão ou já na internet?; no cinema não foi, isso sei) só fiquei com duas coisas. O brilho e um menino sentado.

O brilho é fácil de explicar. Desde as primeiras imagens que percebemos que esta é uma obra onde a luz do dia explode nos planos. As pessoas desaparecem na luz intensa do dia, o sol a despejar os seus raios do cimo de uma montanha, o trajecto por um corredor que a manhã faz atravessar pela claridade ou a fluorescência que vem como canhão de cada uma das janelas do exterior para o interior. Em concreto lembrava a foice iluminada – recordemos a queda do bloco soviético, o início da independência do Cazaquistão, não mais do que um par de anos depois da estreia do filme – que é o objecto do crime que dá origem à semente do ódio e da vingança. É uma cena de ouro, literalmente, um ouro que encandeia. Encandeia o julgamento, não sabemos porque o professor resolve matar uma das alunas, e encandeia o espaço, com blocos de luz no dourado das palhas do celeiro, que mais parecem objectos sem substância. Uma espécie de sonho terrível que vai-se a ver e acaba mesmo por ser a realidade. Se este é um filme que passa por várias épocas e espaços – o prólogo no século XVII, a Coreia e depois a China de 1915, a ilha Sacalina, nos anos 30 e 40, ilustrando a convulsão histórica que aquela zona teve entre domínio e influências russas, japonesas, chinesas e subjugação coreana – o mesmo acontece com esse brilho. À medida que a vingança parece aproximar-se da sua substância, os reflexos, as cores vão escurecendo, raiando de sangue e dourado, como se o filme fosse fazendo osmose com o crepúsculo e a tragédia sombria.

E depois havia esse menino sentado. Durante muito tempo ali estava, inerte. A mãe ia construir-lhe uma protecção de palha para o abrigar da chuva e do sol. O seu pai não tinha conseguido vingar a morte da sua meia-irmã e este engravida, sob sugestão da sua esposa já velha, uma mulher mais nova. O intuito parece simples e maquiavélico: ter um filho que se destine a ter como propósito de vida realizar os desejos vingativos do pai. Esses planos do menino sentado têm um poder existencial e político. Por um lado, pode alguém crescer à espera de crescer? Inerte, num estado de hibernação até poder cumprir o seu desígnio? Por outro lado, e isso vem no filme de Shinarbayev desde o prólogo, as pessoas e as tartarugas têm missões e enquanto não as cumprem habitam a elipse ou, quando muito, a espera. Ou as duas. Algo que parece trazer nas suas linhas e contra linhas um modelo de cooperação social.

Finalmente, este é também um filme sobre a poesia. Ou mais em concreto um filme acerca da tentativa da fuga da poesia, da sua vontade em desentranhar-se da injustiça e da crueldade. Como no prólogo vemos, com um poeta do reino a pedir para sair da corte, ao não conseguir lidar com a execução de um lutador que se deixou ganhar pelo príncipe como sinal da sua submissão e foi por isso castigado. Diz o poeta ao soberano: «a injustiça não é um terreno fértil para a poesia». Mas que poesia poderá haver na vingança? A passagem do tempo parece dizer-nos que com ele tudo passa, e que a poesia ganhará ao sangue derramado. Mas este belo filme da nova vaga cazaque, disseminado que é pelo tempo, pelos espaços, pelas épocas, converte a vingança em ironia do destino. Não apaga a vingança, apenas a subjuga a uma enorme roda da vida. Talvez por isso seja fácil de perceber uma ideia que pessoas que se debruçaram sobre este filme sublinham: a humildade que perpassa na nova vaga cazaque, a colectividade de todo o processo criativo, a pouca relevância de um centramento na figura do autor. Ou como diz o poeta: «não existe verdade a ser encontrada que se esconda por detrás da palavra “eu”»

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Atalhos-detalhes




Os atalhos da cinefilia são maravilhosos. Nunca tinha visto o clássico "Dark Passage" e não cheguei pela via mais óbvia: o par Bogart/Bacall. Nem pelo segundo caminho mais óbvio: admirando a arte de Delmer Daves. Mesmo que a câmara subjectiva da primeira metade do filme seja bem boa, e transporte o noir para tons (ainda) mais sombrios de thriller. Cheguei a "Dark Passage" pela curiosidade no trabalho do escritor e argumentista David Goodis. Mas mesmo este foi um caminho frustrado. Ao contrário de "The Unfaithful" (1947) de Vincent Sherman, onde o toque da escrita está bem à vista, aqui o argumento é menos conseguido. Demasiados diálogos de resolução, com acções mencionadas e não antes vistas, ou pelo menos intuídas, em off. Muita da resolução da intriga acontece nas palavras, não nas imagens. Mas, dito isto,"Dark Passage" é um daqueles filmes que brilham muito por causa dos seus secundários. O rosto e palavras intrigantes de Tom D'Andrea, o taxista que leva Bogart até à operação de mudança de rosto. Assustador e amigável ao mesmo tempo, uma cena inesquecível. Depois, os dentes desordenados de Clifton Young, que vai do criminoso inteligente ao banal rufia. E, depois, o que dizer daqueles olhos a pegar fogo de Agnes Moorehead? A trabalhar lentamente da chata à mulher solitária e perturbada. No momento final em que aparece todos os problemas de argumento se esfumam. Que actriz. E ainda nem falei do rosto controlado e olhos a faiscar de desejo de Bacall e as ligaduras Frankenstein de Bogart, apenas a deixar ver aqueles lábios fininhos. A cinefilia é feita destes atalhos-detalhes, do brilho que ofusca quando abrimos os olhos ao desconhecido.

terça-feira, 28 de abril de 2020

quarta-feira, 22 de abril de 2020