sábado, 18 de agosto de 2018

"A vida da sociedade, esse outro fenómeno natural, pelo contrário, despertou de novo com surpreendente rapidez. A capacidade que as pessoas têm para esquecer o que não querem saber, para não ver o que têm diante dos olhos raras vezes foi tão posta à prova como nesses tempos da Alemanha. Decidiram, primeiro por puro pânico, prosseguir como se nada fosse. O relato de Kluge sobre a destruição de Halberstadt começa com a história de Frau Schader, empregada do cinema, que vai ao trabalho com uma pá de protecção civil logo a seguir aos bombardeamentos, na esperança de «limpar o entulho ainda antes da sessão das duas»". 

in História Natural da Destruição de W.G. Sebald

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Ao prédio onde moro nunca lhe vi os alicerces. Não sei se está preso ao chão, como um desgosto acorrentado a um passado ou se, pelo contrário, vai dando pequenos passos, interiores, na esperança de um dia levantar vela e partir. Também nunca tive a coragem de fazer qualquer pergunta aos seus moradores, meus vizinhos. Somos parasitas de um prédio estaca?; ou hóspedes temporários de um prédio alado? Mas o facto de nunca ter feito estas perguntas não quer dizer que não tenha começado a tirar as minhas próprias conclusões. No andar do rés-do-chão mora um senhor muito sozinho, tão amável, e que precisa de muletas para fazer o trajecto diário desde a porta de sua casa até à carrinha que o leva ao centro dia. No meu andar, na porta da frente, uma senhora muito simpática pergunta-me sempre pelo meu cão; nunca lhe vi uma má cara, e, infelizmente, também já as suas pernas não funcionam tão bem; mas não é por isso que, com a ajuda de duas muletas, não deixa de subir e descer a nossa íngreme rua todos os dias. Finalmente, não posso deixar de referir o meu vizinho do último andar, aquele que sabe bem - até porque é o único com acesso ao telhado - que conversas tem o nosso edifício com o céu, que queixas lhe faz, que juras lhes pede. Esse senhor, não tão afável assim, não precisa de muletas. Mas coxeia muito de uma perna, como se o destino o tivesse tornado pesado, grave e lento. A razão não sei, mas são disparates... sou jovem, que sei eu? Contudo, quando ao subir a rua me começam a doer os pés, as articulações a inchar e o leve entorpecimento a chamar pelos meus membros inferiores, penso logo em tudo isto. E se alguém me perguntasse talvez respondesse que o meu prédio é uma árvore milenar, e os seus moradores, grossas raízes, lentamente a apontar para a terra, ficando... cravando... 

Aqui há apenas uma coisa morta

"Estou deitada na mesma cama em que morreu a minha mãe há muitos anos; no mesmo colchão; sob a mesma manta de lã negra com que nos tapávamos as duas para dormir. Nessa altura eu dormia ao seu lado, num espacinho que ela me arranjava debaixo dos seus braços. 
Creio ainda sentir o ritmo pausado da sua respiração: as palpitações e suspiros com que ela embalava o meu sono... Creio sentir a pena da sua morte...
Mas isto é falso.
Estou aqui, de boca para cima, pensando nesse tempo para esquecer a minha solidão. Porque não estou deitada só por um bocadinho. E nem estou na cama da minha mãe, mas dentro de um caixão negro como o que se usa para enterrar os mortos. Porque estou morta.
Sinto o lugar onde estou e penso...
Penso no tempo em que amadureciam os limões. No vento de Fevereiro que partia o caule dos fetos antes que o abandono os secasse: nos limões maduros que enchiam com o seu aroma o velho pátio.
O vento descia das montanhas nas manhãs de Fevereiro. E as nuvens ficavam lá em cima à espera que o tempo bom as fizesse descer ao vale: entretanto, deixavam vazio o céu azul, deixavam que a luz caísse no jogo do vento descrevendo círculos sobre a terra, revolvendo o pó e batendo nos ramos das laranjeiras.
E os pardais riam; debicavam as folhas que o ar fazia cair e riam; deixavam as suas penas entre as agulhas dos ramos e perseguiam as borboletas e riam. Era esse tempo. 
Em Fevereiro, quando as manhãs se enchiam de vento, de pardais e de luz azul. Lembro-me.
A minha mãe morreu nessa altura.
Eu devia ter gritado; as minhas mãos deveriam ter-se despedaçado, esmagando o seu desespero. Assim terias querido que fosse. Mas porventura não era alegre, essa manhã? Pela porta aberta, o vento entrava, quebrando os ramos da hera. Nas minhas pernas, a penugem começava a crescer entre as veias e as minhas mãos tremiam, mornas, ao tocar os meus seios. Os pardais brincavam. No campo, debulhavam-se as espigas. Lamentei que ela não voltasse a ver o vento a brincar nos jasmins; que fechasse os olhos à luz dos dias. Mas por que razão deveria chorar?
Lembras-te, Justina? Dispuseste as cadeiras ao longo do corredor para que quem viesse vê-la esperasse a sua vez. Ficaram vazias. E a minha mãe, só, no meio dos círios; a sua cara pálida e os seus dentes brancos quase imperceptíveis entre os lábios arroxeados, endurecidos pela morte lívida. As suas pestanas já quietas; quieto já o seu coração. Tu e eu, ali, rezando terços intermináveis sem que ela ouvisse nada, sem que tu e eu ouvíssemos nada, tudo perdido na sonoridade do vento sob a noite. Puseste o seu vestido negro, engomado no colarinho e nos punhos para que as suas mãos parecessem novas, cruzadas sobre o seu peito morto; o seu velho peito amoroso sobre o qual, a um tempo, dormi e que me deu de comer e palpitou para embalar os meus sonhos.
Ninguém veio vê-la. Foi melhor assim. A morte não se partilha como se de um bem se tratasse. Ninguém anda à procura de tristezas. 
Tocaram na aldraba. Tu saíste.
(...)
E as tuas cadeiras ficaram vazias até que fomos enterrá-la, com aqueles homens contratados, suando por causa de um peso alheio, alheios a qualquer pena. Fecharam a sepultura com areia molhada; baixaram lentamente o caixão, com a paciência que caracteriza o seu ofício, sob o ar que lhes refrescava o esforço. Os seus olhos frios, indiferentes. Disseram: «É tanto.» Tu pagaste-lhes, como quem compra uma coisa, desatando o teu lenço molhado de lágrimas, espremido e voltado a espremer e que guardava agora o dinheiro dos funerais...
E quando eles partiram, ajoelhaste-te no lugar onde a sua cara tinha ficado e beijaste a terra e poderias ter aberto um buraco, se eu não te tivesse dito: «Vamos, Justina, ela está noutro sítio, aqui há apenas uma coisa morta.»

Juan Rulfo - «Pedro Páramo» (Tradução Rui Lagartinho, Sofia Castro Rodrigues e Virgílio Tenreiro Viseu) 

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Pedro Páramo




"Não saíra ainda completamente do deslumbramento quando alguém disse a Carlos Velo que eu era capaz de recitar de cor parágrafos inteiros de Pedro Páramo. A verdade ia mais longe: podia recitar o livro inteiro, de trás para a frente e de frente para trás, sem um erro significativo, e podia dizer em que página da minha edição se encontrava cada episódio e não havia um só traço de carácter de uma personagem que eu não conhecesse a fundo." 
Gabriel García Márquez

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

segunda-feira, 30 de julho de 2018

Entrevista a Teresa Garcia, directora da associação os Filhos de Lumière

Numa altura em que vai sendo cada vez mais frequente ver, criar e ligar imagens em movimento praticamente desde o berço— seja para as redes sociais, as selfies, o citizen journalism, os pequenos vídeos YouTube, os manuais escolares em formato digital e animado, etc. — torna-se imperativo repensar as metodologias de uma certa educação, iniciação, formação a esses utensílios. Naturalmente que, neste contexto do trabalho com a imagem em movimento, o cinema é a “mãe de todas as artes” e, como tal, aquela sobre a qual mais se trabalhou e reflectiu até hoje. É por isso que ocupa hoje uma posição vital, de ponto de partida para pensar as virtualidades de uma pedagogia do olhar e da criação a partir das imagens em movimento. A reflectir este estado de coisas está também o interesse crescente da União Europeia por projectos que potenciem a colaboração entre países, num apoio à educação cinematográfica das crianças e jovens. Teresa Garcia, directora da associação portuguesa, Os Filhos de Lumière, é umas das pessoas em Portugal que mais têm trabalhado em torna da educação para o cinema, dirigida aos mais novos. É neste contexto que fui conversar com ela, saber mais do historial da sua actividade e dos desafios que permanecem para esse cruzamento de infâncias: a nossa e aquela que se vai renovamento e perpetuando, a do cinema.

Vila do Conde 2018: 10 curtas portuguesas de longo alcance (Parte II)