domingo, 3 de julho de 2011

Procurando Godot

Tem sido muito comum o uso da palavra «deambulação» para definir o universo cinematográfico de Kelly Reichardt, um dos nomes mais entusiasmantes do cinema contemporâneo norte-americano. Embora a sua estreia date já de 94, com RIVER OF GRASS, foi sobretudo com a lição de amizade com Will Oldham, OLD JOY (2006), e ainda com WENDY AND LUCY (2008), que Kelly, não só conquistou um lugar próprio como representante de um tempo analógico, a esgotar-se, no cinema, como sugeriu um espaço material, primitivo, no qual as suas personagens viviam como que impassivamente. É precisamente esse tactear subtil do mundo que permitiu a muitos chamar a deambulação para uma espécie de marca autoral da cineasta.

Por definição, deambular significa andar sem destino aparente, vaguear, percorrer incessantemente. Bastam os primeiros minutos de MEEK’S CUTOFF para perceber que as três famílias que seguem a trilha principal no deserto do Oregon, no inóspito oeste do século XIX não deambulam, antes decidem desviar-se para obter água, por persuasão do guia Stephen Meek (Bruce Greenwood). Porque é que essa separação com que começa o filme merece destaque? Precisamente porque é ela – e especificamente o facto das suas personagens terem uma meta, a procura de água - que converte o último filme de Kelly Reichardt, reconhecida fã de road movies, não num exercício de deambulação antoniana e sim numa espécie de micro odisseia existencial, em que o abastardado género western serve pretensões, quer cinemáticas, quer teatrais.

Cinematograficamente, esse apaziguamento, esse bem-estar das personagens de Reichardt encontram «aliado» interessante na «calma» amarga de Anthony Mann ou Budd Boetticher. O resultado é aqui um western telúrico, em que as linhas do horizonte e dos riachos se cruzam lentamente em transições pictóricas, em que as armas e as lutas do oeste masculino dão lugar, não a uma «visão feminina», mas a um Oeste feito de silêncios, a uma sólida preocupação com a materialidade das acções, quaisquer que sejam – o arranjo de um sapato ou da roda de uma carruagem ou o amassar do pão. Esta é uma luta pela manufactura que se faz em territórios do cinema, pois do outro lado, MEEK’S CUTOFF é também uma história de puros valores morais, veiculados pela teatralidade.

Se tradicionalmente as peças de teatro filmadas são feitas num espaço confinado, com os diálogos a preencher o grosso do enredo, em MEEK’S CUTOFF as paisagens desérticas, monocromáticas, de uma aspereza uniforme, convocam o teatral. Trata-se de um espaço visual que, sempre igual a perder de vista, funciona como extensão do negro do teatro, do que está para além do cenário. É aqui que, apesar de também os diálogos não serem abundantes – o argumento de Jonathan Raymond não se baseia em nenhuma peça, é original – a busca pela água se verte numa busca interiorizada, metafísica. A água, essencial como a identidade, é algures «jogada» nesta história de confiança, entre o «amigo» preconceituoso que se engana constantemente sobre o cutoff, o guia Meek, e o «inimigo», o índio, em quem uns acreditam indicar o fim da procura, do jogo, a almejada meta, e outros, o fim da hostilidade geográfica e o início da hostilidade humana, ou seja, o massacre às mãos dos índios.

Seja qual for o desfecho, o que interessa a Kelly Reichardt não é a meta, mas também não é a deambulação. É antes o espaço de felicidade que pode conter a pergunta: «o que há para lá daquela colina?»


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