quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Resolução ano novo

Objectivo para 2016: escrever em todos os hojes a primeira frase com que Dostoiévski abriu a carreira literária.

Ontem eu estava feliz, desmesuradamente feliz, infinitamente feliz!
(In Gente Pobre, 1846)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Bandido Velho


Sobre a agonia da comunicação social

Fale-se de fundações, mecenato e crowdfunding para salvar a comunicação social, está tudo muito bem. Mas por favor não me venham com a questão dos suportes. Aliás, a solução corrente não tem apenas o digital como alvo. Ela tem vindo, grosso modo, a tratar o jornalismo como trata a arte: os "inúteis" têm de ser subsidiados. Ora, apoio a solução, é uma questão de sobrevivência. Mas há que ter olho alerta para este "empurrão" da comunicação social para o campo da arte no que toca aos seus modelos de financiamento. É um bem comum? Claro que é. Aliás, nunca deixou de o ser. Esse é mesmo o problema. Estas soluções têm o condão de vermos recuar perante a lógica económica a fronteira de um pensamento crítico. Antes a arte era ineficaz, sim, percebe-se. Mas agora coloca-se o problema da ineficácia do jornalismo. Ineficaz? Para quem? Para quem detém a empresa que sabe que se deve escrever o que lhe dá dinheiro ou nada... E a isenção, o código deontológico e a dúvida necessária à investigação? Ineficazes pois. O dilema do jornalismo mostra como recua para o território da ineficácia económica o pensamento crítico, qualquer que ele seja. Estes modelos de gestão — num processo crescente de matematização e economicização integral do mundo e de todas as áreas do viver — fazem recuar perigosamente todos os valores críticos e de discernimento para a esfera da ineficácia. Cabe então ao milionário, máximo jogador do sistema da eficácia, abrir pontualmente os cordões à bolsa, deixando existir o que é realmente humano ali no "parquinho-fundação" que ele criou, para que todos o vejam como o santo e benemérito do seu tempo.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

A lei do mais forte


Não sei qual foi o momento em que a má consciência deixada pela merda dos racismos históricos devorou o tema da diferença. De tal forma que eu, herdeiro dessa pedra no sapato, desse peso na consciência (sou como todos, não me quero sentir excluído), não posso deixar de sentir um "mas" a dar-me com um barrote nas costas quando penso em começar uma frase com a expressão "As mulheres...". De facto assim é.

Mas... as mulheres possuem um olhar de medusa. Já pensei nisto muitas vezes, no autocarro, em casa, numa festa de anos, num filme... Por exemplo, Brooklyn, anos 50. Estão a ver, não é? Há uma Rose, emigrante irlandesa, que entra na sala de baile e a música soa a bandolins, violinos e vozes cheias de melancolia. Toda gente pensa na sua casa naquele momento. Não naquele caixote do lixo de estátuas e oportunidades de trabalho mas nas praias desertas da costa irlandesa e no whiskey meio quente de Dublin ao anoitecer. Rosa olha em volta e descobre o seu alvo: é um italiano que tem um defeito de fala e quer casar assim que puder. Tanto melhor. Aponta o olhar de medusa e fica à espera, pacientemente, por um deslize, um momento em que o italiano baixe a guarda. Minutos depois ele poderá pegar no copo da cerveja e olhar para o lado, distraído, na sua direcção. Ou pode terminar de observar o tecto para respirar daquela gente toda. Nesse momento em que a presa está nua e a balir num canto já ferida (embora ainda não o saiba), Rose espeta-lhe o olhar de medusa e transforma-o em pedra. Quer dizer, numa pedra de sedução em que ele fica ali à sua disposição, para o que ela quiser no resto daquela noite. O olhar de Rose, como o olhar das mulheres, é esse espigão que substitui o soco, que arrasta na lama o pobre condenado deixando as suas costas em carne viva. O amor é feito desses lanhos nas costas.

O olhar das mulheres petrifica assim os homens (e as mulheres também; que eu não arrisco). A festa pode acabar já ali. Rose e o seu par de olhos azuis-pedra levara a melhor sobre o ridículo irlandês cheio de brilhante no cabelo. No fundo, é sempre a lei do mais forte.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Razões de cinza

(...)

amanhã entrevistarei o passado
e assaltar-me-á de novo a impressão

de que anos se recortaram na carne
e que é preciso procurar nos vincos da carne

razões de cinza, uma vontade que se estende
para lá do tempo e é um manto ou um tecto.

(...)

in "O Vidro" - Luís Quintais

Call for Papers: Interact #24 (Cinema, Crítica Digital e Ensaio Audiovisual)‏


Em 1979, numa conversa com Jean-Luc Godard e o director da Cinemateca Suíça Freddy Buache, Jean Mitry falava da série ainda por realizar Histoire(s) du cinéma como etapa desejável para a abertura da possibilidade de pôr o cinema a ensinar-se a si próprio. Realizador, programador e historiador pareciam concordar que a grande história do cinema ainda estava por fazer, uma que se escrevesse nas próprias imagens ou que fizesse das imagens inscrições de um olhar. Contra as impossibilidades burocrático-legais em torno dos direitos autorais, propunha-se citar um filme com a mesma naturalidade com que se cita um texto. Para quê resolver o problema de uma historiografia do cinema só com palavras, sem imagens e sem o movimento que o cinematógrafo lhes confere? Godard preocupava-se com a influência desregulada dos mass media na sociedade e pugnava por uma nova literacia que educasse o olhar a ler e descodificar a mensagem audiovisual.

Passados mais de 40 anos, o ensaio audiovisual aparece como estágio fundamental de uma denominada «audiovisualcy», aproveitando as facilidades do digital para a concretização do sonho daquele realizador, programador e historiador no final dos anos 70: pôr o cinema a ensinar cinema. O ensaio audiovisual aparece sob diversas formas, reunidas por professores, críticos e amadores do cinema. Justapõem-se gestos, cores, sonoridades, ambiências. Coleccionam-se pedaços de filmes nem sempre respeitando – ou mesmo propositadamente rompendo com – a linearidade cronológica e canónica dos manuais da história do cinema. Descobrem-se e sistematizam-se vizinhanças até então desconhecidas entre e dentro de universos autorais. Apesar da evolução significativa que se regista desde aquela conversa no ano de 1979, e parafraseando Benjamin, a pura crítica de citações ainda está por fazer. Por outro lado, falta ordenar e organizar – quer-se ordenar e organizar? – o caos de ensaios audiovisuais que se amontoa nos confins da Internet.

O novo número da Interact com o título Cinema, Crítica Digital e Ensaio Audiovisual propõe uma ordenação crítica e conceptual destas formas críticas emergentes. Este Call for Papers procura então propostas que respondam a todos estes temas, a saber:

1. Cinema digital
2. Crítica e/ou historiografia do cinema na era digital
3. Comunidades cinéfilas virtuais
4. Ensaios audiovisuais
5. Manipulação/edição na era digital

Para a submissão da proposta, o candidato tem de apresentar o título do ensaio com a indicação da secção a que pretende submeter, um abstract com até 2000 caracteres (com espaços) e a sua filiação universitária.

Lembramos que na Interact as peças devem ser mais curtas, mais ensaísticas, se não mesmo mais experimentais, e há todo o interesse em que seja dado bom uso às capacidades da própria World Wide Web, sendo de incentivar a existência de links, de imagens, de som, de interactividade. Se necessário, e para uma adequada adaptação à actual plataforma de publicação, poderá haver um diálogo entre autor e redacção sempre que a proposta o exija.

O envio das propostas deverá ser feito até 15 de Janeiro de 2015, para o e-mail dos coordenadores do número: Carlos Natálio (carlosnatalio1@gmail.com) e Luís Mendonça (luis.mendonca_@hotmail.com). Se aceites para publicação, as respectivas peças em versão publicável e definitiva deverão ser entregues entre os meses de Janeiro e Abril.

domingo, 27 de dezembro de 2015