A curta-metragem de João Alves foi anunciada ontem como vencedora do prémio de melhor curta terror 2010, na sessão de encerramento do Festival Internacional de Terror de Lisboa, MOTELx. Sem termos vistos todos os filmes em competição, Bats in the Belfrey foi realmente, de longe, o melhor. Sem formação especializada, cineasta autodidacta, foi um João Alves surpreendido que veio receber o prémio ao palco, uma quantia no valor de 2000€, e revelar que o orçamento do filme foi apenas o dinheiro da cassete para mandar para o festival. Embora tivesse confessado a sua paixão pelo cinema e a sua necessidade de imitar desde cedo o que via no ecrã, nem era necessário fazê-lo, pois Bats in the Belfrey, oito minutos, é precisamente isso. Um gag de animação que incorpora essa admiração pelo cinema, num inusitado sentido de mise-en-scene espelhada em citações de detalhes famosos de filmes, cenas, géneros, desde os filmes de vampiros, passando pelo western spaghetti ou a tenacidade cool de Dirty Harry. O Júri, composto por Alain Jones, José de Matos-Cruz e José Nascimento decidiu ainda atribuir uma menção especial à curta-metragem Nocturna (2010), de Francisco Carvalho.segunda-feira, 4 de outubro de 2010
Bats in the Belfrey vence o MOTELx
A curta-metragem de João Alves foi anunciada ontem como vencedora do prémio de melhor curta terror 2010, na sessão de encerramento do Festival Internacional de Terror de Lisboa, MOTELx. Sem termos vistos todos os filmes em competição, Bats in the Belfrey foi realmente, de longe, o melhor. Sem formação especializada, cineasta autodidacta, foi um João Alves surpreendido que veio receber o prémio ao palco, uma quantia no valor de 2000€, e revelar que o orçamento do filme foi apenas o dinheiro da cassete para mandar para o festival. Embora tivesse confessado a sua paixão pelo cinema e a sua necessidade de imitar desde cedo o que via no ecrã, nem era necessário fazê-lo, pois Bats in the Belfrey, oito minutos, é precisamente isso. Um gag de animação que incorpora essa admiração pelo cinema, num inusitado sentido de mise-en-scene espelhada em citações de detalhes famosos de filmes, cenas, géneros, desde os filmes de vampiros, passando pelo western spaghetti ou a tenacidade cool de Dirty Harry. O Júri, composto por Alain Jones, José de Matos-Cruz e José Nascimento decidiu ainda atribuir uma menção especial à curta-metragem Nocturna (2010), de Francisco Carvalho.domingo, 3 de outubro de 2010
Romero encontra-se com os seus fãs
E eis-nos chegados ao último dia do festival MOTELx. Hoje as atenções estão naturalmente centradas no encontro de George "Zombie" Romero com o seu público. A sessão de Q&A, à qual se seguirá uma não menos esperada sessão de autógrafos, será às 16:30, na sala 1 do Cinema S. Jorge. Atenção que apesar da entrada ser livre, é necessário levantar bilhete, e a lotação é limitada à capacidade da sala.
A sessão da tarde, pelas 15:00, sala 3, é da rubrica Japão retro, com o seu último filme, House/Hausu (1977). Trata-se na primeira longa-metragem de Nobuhiko Obayashi (Tenkosei, 1982; Futari, 1992), sobre uma jovem que vai com os colegas de escola passar as férias a casa da sua estranha tia. Esta notável comédia surreal de terror, foi, à data, uma espécie de agradável alien nas bilheteiras no país do sol nascente, com a introdução das técnicas de publicidade que caracterizaram o início da carreira de Obayashi.
Outro ponto alto do dia será a presença do britânico Christopher Smith, realizador de Triangle, que passa às 19:00 em estreia nacional. Esta co-produção Austrália/ Reino Unido, baseado no mito do triângulo das Bermudas, com narrativa em puzzle, acompanha um grupo de jovens que perante uma tempestade se vêem obrigados a sair do seu bote e a refugiar-se num cruzeiro. Jess, a protagonista, tem a sensação que algo de estranho se está a passar, e, quando uma ameaça os começa a caçar um a um, as coisas complicam-se de forma avassaladora.
Às 21:34,o festival despede-se do seu público com a divulgação da curta-metragem nacional vencedora do prémio MOTELx. Segue-se nesta sessão de encerramento o norte-americano The Revenant, de D. Kerry Prior. Trata-se de uma comédia de zombies aos estilo de Shaun of the Dead ou Zombieland, sobre um soldado morto na guerra do Iraque que se ergue da sepultura e retorna a casa de um amigo. Tendo consciência da sua condição, Bart, tem de se alimentar de sangue para evitar que o seu corpo se decomponha.
Por fim, uma palavrinha ainda para Martin, de George Romero, provavelmente a sua opus maior a seguir a Night of the Living Dead. Este filme sobre um jovem que pensa ser vampiro, tão perversamente actual apesar de ser de 77, passa hoje às 19:30 na sala 3 a encerrar o ciclo dedicado ao cineasta americano.
O resto da programação pode ser consultada no site oficial do festival.
Ficam prometidas para um próximo post umas palavras sobre algumas das surpresas mais agradáveis deste festival.
A sessão da tarde, pelas 15:00, sala 3, é da rubrica Japão retro, com o seu último filme, House/Hausu (1977). Trata-se na primeira longa-metragem de Nobuhiko Obayashi (Tenkosei, 1982; Futari, 1992), sobre uma jovem que vai com os colegas de escola passar as férias a casa da sua estranha tia. Esta notável comédia surreal de terror, foi, à data, uma espécie de agradável alien nas bilheteiras no país do sol nascente, com a introdução das técnicas de publicidade que caracterizaram o início da carreira de Obayashi.
Outro ponto alto do dia será a presença do britânico Christopher Smith, realizador de Triangle, que passa às 19:00 em estreia nacional. Esta co-produção Austrália/ Reino Unido, baseado no mito do triângulo das Bermudas, com narrativa em puzzle, acompanha um grupo de jovens que perante uma tempestade se vêem obrigados a sair do seu bote e a refugiar-se num cruzeiro. Jess, a protagonista, tem a sensação que algo de estranho se está a passar, e, quando uma ameaça os começa a caçar um a um, as coisas complicam-se de forma avassaladora.
Às 21:34,o festival despede-se do seu público com a divulgação da curta-metragem nacional vencedora do prémio MOTELx. Segue-se nesta sessão de encerramento o norte-americano The Revenant, de D. Kerry Prior. Trata-se de uma comédia de zombies aos estilo de Shaun of the Dead ou Zombieland, sobre um soldado morto na guerra do Iraque que se ergue da sepultura e retorna a casa de um amigo. Tendo consciência da sua condição, Bart, tem de se alimentar de sangue para evitar que o seu corpo se decomponha.
Por fim, uma palavrinha ainda para Martin, de George Romero, provavelmente a sua opus maior a seguir a Night of the Living Dead. Este filme sobre um jovem que pensa ser vampiro, tão perversamente actual apesar de ser de 77, passa hoje às 19:30 na sala 3 a encerrar o ciclo dedicado ao cineasta americano.O resto da programação pode ser consultada no site oficial do festival.
Ficam prometidas para um próximo post umas palavras sobre algumas das surpresas mais agradáveis deste festival.
sábado, 2 de outubro de 2010
Vírus, demónios de máscara e encontros sexuais com estranhos. Bem - vindos ao MOTELx
O quarto dia do MOTELx promete ser longo para os fãs do cinema fantástico e terror. Quem não apanhou ainda Amer, a homenagem giallo que está a fazer sensação este ano entre os festivais especializados, é aproveitar, com a repetição na sala 3, às 15:00.
Às 16:30, na sala 1, mais um filme da secção Japão retro. Onibaba (1964), o mais famoso filme de Kaneto Shindô, narra a história de uma mãe e de uma esposa que vivem num pântano após a partida para a guerra de um soldado, seu filho e marido. Perante a desconfiança que a nora está a trair o seu filho ausente, a mãe decide usar uma máscara. Com forte sentido alegórico sobre o período feudal e bélico japonês e a reacção das famílias às partidas inesperadas, Onibaba permanece como fábula visionária e um dos mais interessantes exemplares do cinema de terror de sempre. Sem dúvida um ponto alto do festival.
Às 19:00, sala 1, é a vez do mais recente filme do britânico Simon Rumley, Red White & Blue. Com Noah Taylor (The Preposition; Charlie and the Chocolate Factory) e Amanda Fuller (CSI; Bones) nos papéis principais, esta é a história de Erica, uma mulher que percorre os bares de Austin à noite à procura de parceiros ocasionais. Envolve-se com um vizinho mais velho, Nate, veterano na guerra do Iraque, que quer algo mais do que apenas sexo. Quando uma velha paixão entra na vida de Erica, as coisas, claro, correm mal. As expectativas para Red White & Blue são grandes depois de termos visto aqui no MOTELx, em 2007, o intenso The Living and the Dead.Quase à mesma hora, 19:15, na sala 2, haverá um painel de discussão sobre o terror britânico. Depois de filmes como The Descent (2005) de Neil Marshall ou Eden Lake (2008) de James Watkins, teve início uma lenta invasão e crescente interesse do cinema britânico sobre o género de terror. Este debate que versará sobre as razões do fenómeno, que temas são explorados, que características tem o horror inglês, contará com Neil Marshall, Gerard Johnson (Tony, 2009), também acompanhado de Peter Ferdinando, o actor principal, Christopher Smith (Triangle, 2009), Johannes Roberts (F, 2010) e Paul Andrew Williams (Cherry Tree Lane, 2010). A entrada é livre.
Neil Marshall apresentará de seguida, 21:45, sala 1, a sua mais recente longa-metragem Centurion. O britânico que espantou o mundo com Dog Soldiers e logo a seguir The Descent, “o filme da gruta” como lhe chamam, deu-se mal com as parcerias norte-americanas. O seu penúltimo filme, Doomsday, passou despercebido entre público e circuitos comerciais. Agora, Neil investe no filme histórico, com laivos claros de violência requintada, com Centurion. Além de Marshall, estará presente Axelle Carolyn , sua mulher e actriz do filme.
Alternativamente, na sala 3 passa às 22:00 um filme que nos suscita grande curiosidade. Primal é a estreia na realização de Josh Reed, filho de Colin Eggleston (Long Weekend) e tem sido apelidado como digno sucessor dos clássicos de ozploitation australiana. Numa viagem de campismo a uma floresta australiana, uma das raparigas é contaminada por um estranho vírus, revertendo a um estado predatório e animalesco. Começa então a luta pela sobrevivência.Nota ainda para The Life and Death of a Porno Gang do sérvio Mladen Djordjevic que tem causado sensação pelo seu lado subversivo e violento. O realizador de Made in Serbia, documentário sobre a indústria porno local, assina agora um filme sobre Marko um jovem cineasta que conhece um realizador porno com quem decide fazer pornografia artística. Em conflito com o realizador, Marko funda o seu próprio cabaret e parte para a Sérvia profunda com o intuito de apresentar os seus shows.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Senhoras e senhores, eis George Romero
À quarta foi mesmo de vez. Desde a primeira edição do MOTELx que João Monteiro e a sua equipa tentava trazer a Portugal, aquele que é o convidado imprescindível de qualquer festival de cinema de terror que se preze, George Romero. O pai do filme de zombies, e porque não dizê-lo do terror moderno, tem estado presente nas sessões da secção CULTO DOS MESTRES VIVOS inteiramente dedicado à sua obra. Ontem às 21:45, na estreia nacional do seu mais recente Survival of the Dead, foi recebido com uma zombiewalk pelos seus fãs, “rasgados e pintados” a rigor para a ocasião. Depois, foi um auditório cheio da sala 1 do S. Jorge, que recebeu com uma ovação de pé o americano. Romero anunciou que domingo, 3 de Outubro pelas 16:30 haverá um Q. & A. com o público à qual se seguirá uma sessão de autógrafos. Falou ainda de Survival, como homage aos westerns clássicos, e de Howard Hawks e William Wyler.O sexto filme da saga iniciada com Night of the living Dead (1968), expande a história de uma personagem secundária de Diary of the Dead (2007), um soldado que, na luta pela sobrevivência, parte para uma ilha perto de Delaware. Nessa ilha, onde duas famílias poderosas irlandesas dominam os zombies, conseguiu-se criar uma situação estável. Contudo, quando humanos começam a morrer, a família O’Flynn quer destruir todos os zombies, enquanto os Muldoons acreditam que os zombies devem ser mantidos vivos para encontrar uma cura. Já muito longe da densidade que caracterizou os primeiros filmes da série, este Survival of the Dead tem propósitos de arruinar a seriedade da mitologia zombie, com influência dos cartoons de Chuck Jones, designadamente Coyote e Road Runner. Sendo o resultado atípico, o universo de Romero não beneficia muito com algumas transformações no mood, sendo que algumas cenas mais deslocadas ressuscitam quase que inevitavelmente a dimensão humana presente na metáfora morta-viva do americano. A retrospectiva prossegue nos próximos dias com Monkey Shines (dia 1, às 17:00), Creepshow (dia 2, às 17:00) e, no dia de encerramento do festival, Martin (dia 3, 19:30).
O dia de ontem foi ainda marcado pela apresentação de dois “agradáveis” psicopatas.O primeiro é Jacques Beaulieu, mora com a sua família na 5150 Rue des Ormes, e é uma criação de Patrick Senécal, apelidado de Stephen King do Canadá. Este escreveu o romance e adaptou-o para ecrã. A lunaticidade da premissa - um pai obcecado pela realização do justo e pelo xadrês (exteriorização da luta do bem contra o mal), que lidera uma família de mãe apática e filha adolescente sobre quem recaem as suas esperanças de sucessão - conhece na competente realização de Éric Tessier um esforço de afirmação da ideia inicial. Seja pela sólida interpretação da dupla protagonista - Normand D’Amour, o psicopata, e Marc-André Grondin, a vítima - seja por essa dita insistência que transforma a loucura dos factos em visão, o certo é que este 5150 Rue des Ormes consegue ultrapassar esse percurso de descrédito e transformar-se num interessante exercício de terror. Lembre-se que o filme passa outra vez este sábado às 19:30, sala 3.
A mais agradável surpresa até agora no MOTELx, foi feita em 12 dias, com orçamento de 6.000 euros, duração de uns singelos 72 minutos e tem o simples nome Tony. Tony é um caracter study do britânico Gerard Jonhson sobre um homem estranho e solitário, desempregado, aspecto franzino, que percorre as ruas de Londres sem destino certo à procura de amizade. Contudo todos lhe passam a perna: sejam traficantes de droga, prostitutas, maridos ciumentos ou vendedores ambulantes de DVDs. O seu único refúgio é a acção dos anos 80, com Van Damme e Steven Seagall à cabeça, filmes que vê em VHS numa velha televisão. Quando um miúdo do bairro desaparece, todas as atenções se viram para esta estranha personagem. Baseado num verdadeiro serial killer que há uns anos aterrorizou Londres e que esquartejava as suas vítimas desfazendo-se dos seus pedaços através das canalizações, Tony é um impressionante retrato não da mente de um serial killer, mas de uma pessoa a quem lhe acontece matar pessoas em momentos de tensão. O mais perturbante neste pequeno grande filme não é a visão de uma Londres opressiva mas sim o facto deste Tony ser um homem que parece constantemente surpreendido pela realidade. E quando essa surpresa sai do seu controlo, este mata, quase por acidente. É essa violência tão pouco premeditada que aproxima o seu perfil de assassino do retrato de um homem comum e traz a inquietação ao seu espectador. Tony só passa uma vez no MOTELx pelo que seria muito uma boa aposta a distribuição nacional do filme.Quanto ao dia de hoje o menu é o seguinte.
À tarde, 13:15, sala 3, tem lugar a 3ª e última sessão de curtas-metragens internacionais. Recorde-se que prossegue a mostragem das curtas nacionais, sendo que o júri deste ano, composto pelo crítico britânico Alan Jones, o realizador José Nascimento (Tarde Demais; Lobos) e o historiador José de Matos Cruz, irá atribuir à curta vencedora um prémio no valor de 2000 €, além de serviços de pós-produção no valor de 5000€.
O festival prossegue às 15:00 na mesma sala 3 com a repetição do divertidíssimo The Loved Ones, de Sean Byrne. Às 21:45 na sala 1 é a vez de F, mais um brit-horror movie, desta vez capitalizando os conflitos entre professores e alunos e recentes tiroteios em escolas. Robert Anderson, um velho professor de inglês no final de mais um dia de aulas terá de arranjar maneira de sobreviver a uma ameaça invisível, um grupo de encapuçados, que transformarão a escola numa série de corredores sinistros e salas escuras. O filme estreou apenas o mês passado no FrightFest em Londres. O realizador Johannes Roberts estará presente na sessão.
Logo a seguir, um dos destaques de todo o festival. Os belgas Hélène Cattet e Bruno Forzani estarão presentes na primeira sessão de Amer. Numa belíssima homenagem ao giallo italiano, este filme que venceu o New Visions Award em Sitges, é um ambientado exercício de estilo sobre o desejo, a carne e o terror. Deixando para segundo plano a narrativa, Amer, com os seus clássicos de música italiana dos anos 70 e cores expressivas, promete ser um festim para os apreciadores de cinema fantástico. O filme passa à 00:15 na sala 1.Uma palavra ainda para a apresentação para Reykjavik Whale Watching Massacre, de Júlíus Kemp, primeiro filme de terror islandês. O filme que cruza Evil Dead e The Texas Chainsaw Massacre, em alto mar, passa hoje à noite às 22:00 na sala 3.
Para consultar o resto da programação, é aqui.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
Começou o terror
A edição deste ano do MOTELx, Festival de Cinema de Terror de Lisboa, mais uma vez no Cinema S. Jorge, arrancou ontem a todo o vapor. Esta edição, que conta com mais de 60 filmes, entre as quais 35 longas-metragens, tem como grande destaque a vinda a Portugal de George Romero, autor do lendário The Night of the Living Dead, para acompanhar uma significativa retrospectiva da sua obra e apresentação do seu mais recente filme Survival of the Dead (30 de Setembro, Sala 1 às 21:45). Antes das 15 horas de ontem já havia uma considerável fila de público para obter bilhetes sendo notório a consagração de um festival que já vai na sua quarta edição, com registos crescentes de público. Os destaques de ontem foram para o irlandês The Eclipse, de Conor McPherson, vencedor do Méliès de Prata no Festival de Sitges, e Noite Sangrenta, o novo filme da dupla Tiago Guedes e Frederico Serra (Coisa Ruim) a quem coube a sessão de abertura oficial do MOTELx. Rodada como mini-série de dois episódios para a RTP, Noite Sangrenta corre na noite de 19 de Outubro de 1921e conta a história de um grupo de oficiais republicanos guiados pelo cabo Abel Olímpio, que percorrem as ruas de Lisboa com a missão de assassinar vários figuras políticas e militares. Este grupo ficou conhecido como “camionnette fantasma”, e chegou a atacar os heróis da revolução de 1910, Machado Santos e Carlos da Maia.
O dia de ontem ficou ainda marcado pela primeira apresentação em Portugal do mais recente fenómeno de brit horror, Cherry Tree Lane, de Paul Andrew Williams, que numa sarcástica alusão à crise no mercado imobiliário, marca, num estilo próximo de Clockwork Orange e Straw Dogs, o seguimento do denominado “hoodie horror”, depois de Eden Lake.
O dia de hoje promete continuar com os sustos em dose imoderada. Às 19:00 horas na sala 1 passa o britânico Tony, um filme perturbador sobre um everyday man, viciado em filmes de acção, que quando se descontrola o resultado é o crime. Esta primeira obra de Gerard Johnson tem sido comparada a Henry: Portrait of a Serial Killer e Taxi Driver. À noite, George Romero estará presente na estreia de Survival of the Dead, a sua mais recente incursão na metaforização política via zombies. Desenvolvido a partir de uma personagem secundária de Diary of the Dead, este “western” arrasta um grupo de soldados para uma ilha remota, espécie de último paraíso na Terra.

Para quem ainda tiver estofo aconselha-se à 00:15 na sala 1 (e repetição na sexta feira às 15:00 na sala 3) The Loved Ones de Sean Byrne. A premissa desta comédia de terror é impagável: uma jovem convida um rapaz para o baile de fim de licenciatura. Perante a recusa deste, o pai da rapariga rapta o jovem e a festa privada destes passará a ser bem diferente.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
Lola, Brillante, Lola
Depois do sadismo impossível de Kinatay (2009) - vencedor do prémio de melhor realizador na edição de Cannes desse ano – e dos sorrisos amarelos com que foi presenteado na sua terra natal, Brillante Mendoza precisava urgentemente de se lavar. Aproveitando a eminente estação das chuvas e consequentes inundações nas Filipinas, resolve banhar-se nelas, na sua luz escura, no seu vento, e filmar este Lola.Mas nestas purificações permanece algo que já não se lava, que já não sai: um forte sentido de auto-descoberta artística. Daí, neste melodrama proletário, a câmara de Brillante Mendoza continuar a ser uma espécie de fuzil realista que ora sobe, ora desce, vem, vai, entre as personagens ou para além destas. Contudo, mais do que uma necessidade de nos emergir, o filipino ergue-se como presença opressiva, quase xamanística, no mundo de sacrifício das suas duas Lolas, as duas avós que andam a braços com feridas familiares que envolvem os netos. Um foi assassinado, o outro preso por suspeita da morte do primeiro. Perante isto, Lola quer justiça e Lola também quer justiça. Uma quer enterrar o neto condignamente, escolher o seu caixão e saber quem o matou, a outra libertar o “culpado”, o seu neto, sem que isso da culpa seja um assunto para ali chamado.
Se há um lado emocional, lírico, que a ratoeira de Fassbinder sempre procurou esconder, Brillante Mendoza prefere justapor o domínio dos exteriores, como estratégia quase documental, ao domínio da representação naturalista (magníficas interpretações das actrizes filipinas Anita Lindo e Rustica Carpio) e o resultado, um inusitado “lirismo de intervenção”. Joga-se o “pobre” do cinema com o “rico” no cinema para um retrato das diferenças sociais. E essa condição, desperançada, evidencia o imiscuir do social no natural. Do natural, em Lola, salta à vista uma cidade afogada, presa nos ritmos de funerais, de trajectos impossíveis, de estratégias para obter dinheiro. Do social, os tribunais, os créditos, as casas de banho avariadas. Os dois, um.
No filme, os elementos, a chuva e o vento são a exteriorização de um obstáculo que é interior, de superação de trauma da morte e prisão de um ente querido. Este reforço da dificuldade material de subir, descer, entrar, não é de somenos. Enquadra-se num obstáculo físico próprio da terceira idade e nesse sentido Lola é um filme sobre o espaço. O espaço entre corredores, portas, barcos, casas - cubículo, passeios, que têm de ser percorridos, que têm de ser sobrevividos. E nisso, sobretudo nisso, o cinema de Brillante é inexcedível, demonstrando um talento quase sobrenatural para construir uma sombra fantasmática, comovente, que reclama o centro da nossa observação. Mas, e rendemo-nos a ela? Sim. E o enigma de Lola é exactamente esse. É que essa é uma sombra que vê as personagens tão lá no fundo que os créditos, empréstimos, os seguros, sempre presentes, parecem vir do além. Essa é a demonstração mais perversa, mais adulta do que é viver na pobreza, sobretudo porque isso implica a escolha de amar de uma maneira que os ingénuos pensam menos limpa, mas que os sábios sabem ser mais completa. É esse amor que um neto tem ao seu dispor - nas mangas que a avó lhe traz à prisão, nos pintainhos no caixão - que ironicamente este nunca será capaz de calcular. Ironia em Manila.
Mas afinal onde é que Brillante não é assim tão brilhante? A resposta é, nos momentos funcionais, quando a acção ou a cena é clássica e tem de avançar. Como por exemplo nas sequências na polícia ou tribunal.
O final deixa uma noção de desesperança, a tal ratoeira onde há que ser prático. Sem que Lola deixe de ser uma fábula sobre o dinheiro e a sua presença vital, não pode também deixar de ser uma história de sobrevivência. Porque é importante que a televisão da existência não seja penhorada, nem sequer apareça desfocada. Os mortos leva-os o rio.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Embargo, a infantilização adulta
Os debates tecnocráticos mais interessantes da História giraram quase sempre à volta de falsas questões. Nós por cá somos especialistas nisso. Atente-se ao cinema português, e pior ao seu sistema de suporte financeiro, que nas últimas décadas tem sido vítima de uma dessas. A “grande cisma do nosso cinema” opõe os “catolicistas” do mainstream, que vivem de arremedos corajosos, mas na sua maioria desleixados, de erigir uma indústria audiovisual auto-sustentada e os apologistas de cinema de qualidade notoriamente “superior” aos espectadores que temos. Entre estes há um fosso intransponível feito de coloridas animosidades e alegres querelas quase todas com enorme visionamento mediático e sem nenhum sentido de pragmatismo.Ora, uma obra como Embargo, a mais recente longa-metragem de António Ferreira, adaptada do conto homónimo de José Saramago, tem como principal virtude expor como é falsa esta dita querela e age muito mais activamente na procura de uma solução do que qualquer uma dessas facções. E fá-lo precisamente porque objectivamente enjeita qualquer um dos lados e transporta uma descomplexada visão do cinema. Sem nunca rejeitar uma forte componente narrativa, a inteligente adaptação de Tiago Sousa (argumentista e realizador da curta El Justiciero) evita a carregada visão mundividente da alegoria do conto de Saramago, e transfere esse problema de trans-ausência de bens, para uma dimensão não menos apocalíptica das relações humanas e familiares.
Nuno (o estreante Filipe Costa) é um homem com um sonho que envolve a felicidade: mais do que “estar bem”, segundo as suas palavras. Em pleno embargo petrolífero mundial, o jovem empreendedor inventa uma máquina digitalizadora de imagens de pés para criar sapatos à medida certa e deposita nela todas as esperanças. Esperanças que envolvem sair da roulote de bifanas onde trabalha e proporcionar uma vida melhor à sua namorada (Cláudia Carvalho) e filha desta (Laura Matos). Um inexplicável acidente mantém-no cativo no seu próprio automóvel, último reduto da uma incompreensão e solidão quase kafkianas, e fazem-no fazer-se à vida mesmo só com quatro rodas.
A forte dimensão irónica presente nos diálogos de Embargo permite a esta história, com um universo vagamente buñueliano, sair de um espartilho autoral e pôr em destaque o lado mais singelo, e no entanto filho-da-puta, do ser humano. É curioso que uma das estratégias de comicidade empregadas pelo filme de António Ferreira seja a da infantilização dos seus adultos e “seriedade” das suas crianças. Elemento que não por acaso surge como marca geracional no qual se integra algum do cinema contemporâneo português mais interessante dos últimos anos, designadamente em algumas obras de Miguel Gomes, Sandro Aguilar ou João Nicolau. É tudo gente com apuradíssimo sentido cinéfilo, mas livre dos constrangimentos de ser adulto antes do tempo, de ver o cinema como uma coisa de vida ou morte, seríssimo, um cinema que à laia de ser sério se tornaria muitas vezes bacoco. Ao invés, trata-se de um espaço de liberdade emocional onde se exorcizam sem traumas a experiência de ser “adolescente” adulto, ou seja, até bem mais tarde, como quase toda esta geração experienciou. Ozu e Playstation, Bresson e póquer, não são neste mundo sinais de estatutos opostos, mas a confluência de uma sensibilidade muito própria. Uma sensibilidade que não hierarquiza o que é próprio de velho e o que é próprio de novo. É nesse espaço de confluência, do qual resulta quase sempre uma ambientação onírica e postiça, que se produz uma identificação vital à geração mais jovem e que mostra um “mundo novo” àqueles com construíram durante décadas o discurso oficial do que deve ser cinema de qualidade.
“Embargo” estreia esta quinta-feira, dia 30, em todo o país, isto depois de já ter arrecadado uma menção especial do júri na edição do Fantasporto deste ano. A não perder.
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