quarta-feira, 8 de abril de 2020



"Há um duplo movimento na epidemia. Por um lado, ela revela sempre a inescapável continuidade do espaço e do tempo (impossível de dominar, impossível de interromper) e, por isso mesmo, ela expõe a condição irremediavelmente colectiva desse «milieu», desse meio-ambiente, que estamos (ainda) na «obrigação» de partilhar. Esse foi, aliás, o grande trauma que acompanhou a burguesia ao longo do século XIX. Cada epidemia tornava visível não apenas a miséria extrema do espaço urbano produzido pelo capitalismo, mas uma profunda, inevitável e «intolerável» continuidade corporal, física e espacial entre a burguesia e o proletariado pobre e insalubre, empurrado para dentro dos quarteirões ou para os fundos infestados das «ilhas». Não se tratava apenas da súbita consciência do «outro» (miserável e invisível), mas a consciência aterradora de um espaço comum, irremediavelmente comum, demasiado próximo. Neste sentido, a epidemia é uma espécie de inversão fantasmagórica do liberalismo (que foi aliás o grande opositor, durante os séculos XIX e XX, a qualquer medida que visasse melhorar as condições de salubridade das populações). Se, em parte, podemos ver na epidemia a realização absoluta do liberalismo, a sua utopia plena enquanto construção de um espaço global, único, liso, infinitamente rentável na exploração imunitária dos corpos pelo vírus, ela é simultâneamente o seu maior pesadelo, porque expõe as consequências e as contradições do princípio da concorrência que organiza o corpo social – «a guerra de todos contra todos», como lhe chamava Engels –, ao mesmo tempo que torna evidente um espaço-tempo que longe de ser individualizado e isolável é comum e interdependente."

segunda-feira, 6 de abril de 2020

A população humana está nos 7.8 biliões, aproximadamente. De momento existem quase 1 milhão e 300 mill infectados com coronavírus. Por definição, uma pandemia termina quando 60% da população ganha imunidade a um vírus. O JMT queria uma data para o fim disto. Portanto, é fazer as contas.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Três prenúncios ou três coincidências



Três prenúncios ou três coincidências. A primeira vemos que o cinema viu a persona de The Tramp (Kid Auto Races at Venice, 1914) acontece que…

1.Ele é o emplastro entre a câmara e o “acontecimento”. Isto é, o seu desajeito e inoportunidade são sinal também da sua persistência. Não basta ficar com a biografia de Chaplin para o comprovar, é preciso tirar ilações no que diz respeito à sua “lição humanista”. Bem precisados estamos da sua resiliência;

2.Ele não está no ritmo do “acontecimento”. A corrida de carros é (ou torna-se) background sem grande importância. Chaplin viverá sempre dessa inversão: no detalhe vive a relevância, no evento, muitas vezes, a banalidade;

3.Ele surge de improviso, no meio da multidão real. Sabemos como era perfeccionista no domínio do seu “relógio suíço”, o seu corpo. Mas esse domínio absoluto é para estar nas ruas, para dar às gentes. Na primeira vez que o espectador viu The Tramp ele já era símbolo do povo.

THE LOSERS CONSPIRACY

terça-feira, 31 de março de 2020

Pode um plano estragar um filme?


Será que o famoso efeito Kuleshov poderá ser pessoal, intransmissível e vagar em direcções além do avanço linear? Via no outro dia um filme que me pôs a pensar nesta questão. É "Susuz Yaz" (1963) de Metin Erksan, alvo de um restauro pelo World Cinema Project. É a história de dois irmãos, um deles quer bloquear a água de uma fonte que nasce na sua propriedade, impedindo os vizinhos de a ela acederem e assim cultivarem as suas terras. O irmão mais novo obedece à ordem do mais velho contrariado. Depois seguir-se-á uma escalada da violência e a vingança, que a água levará depois de consumada. A cerca de meia hora de filme, num plano breve e inesperado (felizmente), um vizinho mata de forma real e não encenada um cão a tiro de caçadeira. Pode um plano estragar um filme? Aliás, um bom filme? Obviamente que a sensibilidade para com a crueldade animal é um tema muito presente na contemporaneidade. Talvez não o fosse tanto em 63, ou na sociedade turca de então. Por isso, pensava nessa dimensão cultural e adquirida de cada espectador, em cada tempo, ler a sequência de certos planos num filme e lhes dar um dado valor. Isso parece-me mais ou menos evidente. Mas... à medida que os minutos se sucederam após a morte do cão a sangue frio comecei a sentir uma certa repulsa, uma vontade de não ver mais. Como se, de repente, "Dry Summer" (é esse o título em inglês) deixasse de ser a história de dois irmãos para ser a preparação para a morte de um cão. E como se tudo o que se lhe seguisse fossem as consequências desse acto atroz. O filme de Metin Erksan passara a ser um efeito Kuleshov que andava para a frente e para trás ao mesmo tempo, a partir desse plano de efeito-Magasaki na minha retina. Entretanto, lutei contra a vontade de parar e o sentimento de repulsa foi-se atenuando. Terminei com a distância suficiente para poder ver no filme algum mérito cinemático. Por isso, outra questão ainda: será o efeito Kuleshov também algo que possamos medir a partir de uma dada duração dos seus efeitos?

domingo, 8 de março de 2020

Os melhores filmes da década de 2010

  1. Cavalo Dinheiro de Pedro Costa
  2. Loong Boonmee raleuk chat de Apichatpong Weerasethakul
  3. A torinói ló de Béla Tarr
  4. Adieu au Langage de Jean-Luc Godard
  5. ‘Til Madness Do Us Apart de Wang Bing
  6. Visita ou Memórias e Confissões (1986-2015) de Manoel de Oliveira
  7. Història de la meva mort de Albert Serra
  8. Ji-geum-eun-mat-go-geu-ddae-neun-teul-li-da (Sítio Certo, História Errada) de Hong Sang-soo
  9. Leviathan (2012) de Véréna Paravel e Lucien Castaing-Taylor
  10. Post Tenebras Lux (2012) de Carlos Reygadas
Esta foi a década…
em que aprendemos a explodir cabeças com Carlos Reygadas; em que as GoPro passaram a ser barro para um novo capítulo do tale do não humano; em que conhecemos as variações sobre os pequenos prazeres de Sang-soo; em que Serra deu a ver o poder alquímico do cinema a partir de despojos históricos; em que partiu Oliveira mas em que cá ficou a olhar sobre o Douro; em que Wang Bing nos mostrou como Foucault e César Monteiro tinham razão; em que o velhinho Godard prognosticou a morte da linguagem e o início do ” que disparate, agora tenho lá tempo para isso”; em que Tarr fez beleza com Nietzsche e batatas; em que deixámos de ver o primitivismo como uma coisa que ande para trás com Weerasethakul; e em que Costa continuou a mostrar para que serve afinal a merda do cinema.
E esta foi a década… em que o cinema também não morreu. E viveu futuro.