sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

As imagens que se seguem


Volta e meia esbarro com a expressão "as imagens que se seguem podem ferir a sensibilidade dos espectadores mais sensíveis". Expressão que, como sabemos, não quer dizer absolutamente nada e tem tanta eficácia quanto o poema "fumar mata". Fumar também pode ferir a sensibilidade dos fumadores mais sensíveis, assim como as imagens também podem matar, por isso dá para ver o grau de seriedade da coisa. O que me pergunto é se a expressão "as imagens que se seguem podem ferir a sensibilidade dos espectadores mais sensíveis" não deveria vir já com a própria televisão, dando-se o caso de adquirirmos uma. É que as imagens que se seguem, quaisquer que sejam, sobretudo as mostradas na televisão, com elevado grau de certeza hão-de ferir a sensibilidade dos espectadores mais sensíveis. Sensíveis, isto é, com os olhos abertos, aqueles que não estão a cagar da mente ao final do dia (pois a estes tanto se lhes dá ver uma criança lá longe a ser esquartejada ou o Marcelo ali em Custóias a tocar xilofone). Para os espectadores ditos "sensíveis" (no sentido de sentirem alguma coisa que seja), a imagem que se segue não pára de ferir a sensibilidade. Porque é pornográfica e porque é, simplesmente, má. Por isso, autocolantezinho no cimo dos aparelhos com o dizer "as imagens que se seguem hão-de ferir a sensibilidade dos espectadores mais sensíveis". Pode ser que a moda pegue. Como os pirilampos mágicos. Afinal de contas, é Natal.



Que dizer desta monstruosidade, feita ao correr da pena durante o aninho de 1950? Apetece louvar cada página como cada grão de areia no deserto. Mais do que ler este livro pela avidez e curiosidade das referências, há essa relação puxada para o título entre os livros e a vida. Ler não para se distrair, ler nunca a cagar, mas ler como uma filosofia de vida, daquelas calçadeiras que vão ajudando a pôr o sapato ao longo dos tempos. Miller escreve: "Considero o meu contacto com os livros muito semelhante ao que tive com outros fenómenos da vida ou do pensamento. Todo os contactos são "configurados", não isolados. Nesse sentido, e neste sentido apenas, os livros fazem tanto parte da vida como as árvores, as estrelas ou os excrementos. Não me inspira qualquer reverência per se." Por isso os livros não têm de ser os certos (os clássicos), podem ser pessoas ("os livros vivos") e ajudam nessa ciência da vida como as plantas, os animais, o sexo. Como refere mais do que uma vez: a vida sempre primeiro. Os seus heróis eram esses doutorados na ciência de viver e é esse movimento entre o pensamento no papel, que salva ou dá a perdição, e as viagens, as conversas, a dureza dos trabalhos e dos dias aquilo que me ensina Miller. 

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Cansado das estrelinhas que damos aos filmes, proponho a partir de hoje novo método de classificação. Os filmes passar-se-ão a dividir em:

1- Dantes é que era.
2-A partir de agora é que vai ser.
3-Olha, é o que é.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

« A mente é infinita e capaz de entender tudo o que lhe põem à frente; não há limite para a sua compreensão. O limite é a pequenez das coisas e a estreiteza das ideias que lhe são apresentadas. As filosofias dos tempos antigos e as descobertas da investigação moderna nada são para ela. Não a enchem.  Depois de as decifrar, a mente segue em frente e pede mais. As mais complexas, todas elas juntas, constituem um simples nada. Essas coisas foram reunidas por meio de um trabalho extremo, de um trabalho tão árduo que só o pensar nele se torna fatigante; porém, tudo considerado, a mente recebe tudo isso com a mesma facilidade com que a mão colhe flores. É como uma frase, que se lê e que se esquece. »

 in Story of my Heart de Richard Jefferies
« Vou ser vago voluntariamente; poderia ser completamente explícito, mas não é essa minha intenção. Isto porque, uma vez que uma coisa é definida, morre.»

 Krishnamurti      

domingo, 2 de dezembro de 2018

Eu sou o pavão mais belo

«Não creio que um pavão inveje a outro pavão a sua cauda, pois todos estão persuadidos de que a sua é a mais bela do mundo. Por consequência, os pavões são aves pacíficas. Imaginai agora como seria infeliz a vida de um pavão se lhe tivessem ensinado que é feio ter boa opinião a respeito de si mesmo. Sempre que visse um pavão exibir a sua causa, pensaria: “Não devo imaginar que a minha cauda é mais bela do que aquela, isso seria uma presunção, mas, oh, como eu desejaria que fosse! Essa ave odiosa está tão convencida da sua magnificência! Vou arrancar-lhe algumas penas! Então não teria receio de comparar-me com ela.” Ou talvez imaginasse fazê-lo cair numa armadilha para provar que um tal pavão era culpado de atitudes contra a sociedade dos pavões e o denunciasse à assembleia dos chefes. Gradualmente, estabelecer-se-ia o princípio de que os pavões com caudas particularmente belas são quase sempre maus e que como chefe sábio do reino devia ser escolhido um humilde pavão, cuja cauda fosse constituída somente por algumas penas sujas. Uma vez estabelecido este princípio, mandar-se-iam matar os pavões mais bonitos, até que por fim uma cauda realmente esplêndida se tornasse recordação obscura do passado. Tal é a vitória da inveja mascarada de virtude. Mas enquanto cada pavão pensar que é mais belo do que todos os outros, não haverá necessidade de uma tal repressão. Todos esperam alcançar o primeiro prémio na competição e cada um, porque estima a sua pavoa, julga que o conseguiu.»

Bertrand Russell in "A Conquista da Felicidade"

sábado, 1 de dezembro de 2018

A PORTUGAL

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço.
És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não

Jorge de Sena