Eutanásia vem do grego εὐθανασία que significa «boa morte». Em que circunstâncias pode uma morte ser boa? A boa morte é a morte digna, aquela que permite a um «ser vivo» passar a ser um «ser morto». A que termina a sua existência, o seu ser como um todo. É que, por vezes, acontece acabarmos aos pedaços, a mente aqui, um órgão acolá, uma lembrança no caixote do lixo, uma actividade — como passear no lago ou comer bolachas às mãos cheias — que sempre definia o nosso viver, agora parado para sempre, extinto como animal caçado irremediavelmente pelo destino. A boa morte é a que começa na expressão «eu quero morrer», a que se ri do mundo como bugiganga barata e que vê o fim tal qual jardim suspenso entre o cristal e a imundície. Quando o cavalo parte sem o cavaleiro, não faz sentido avançar com as patas sobre o solo. Já quando é o cavaleiro que fica apeado, cavalo morto, inchado na berma da estrada, o mínimo a fazer é despir a couraça, tornar-se leve para assim enfrentar e comer o pó. A «boa morte» talvez seja a que evite o desencontro, a falsa partida, que seja digna de um fechar das pálpebras como uma pedra sobre o assunto. Sem adiamentos, twists ou ecos improváveis. A liberdade serve sobretudo para isto: evitar as dessinscronias da natureza.
sábado, 11 de fevereiro de 2017
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
A ponte, o arco e as pedras
«Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.
—Mas qual é a pedra que sustém a ponte? — pergunta Kublai Kan.
—A ponte não é sustida por esta ou aquela pedra — responde Marco —, mas sim pela linha do arco que elas formam.
Kublai Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta:
— Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.
Polo responde: — Sem pedras não há arco.»
in «As Cidades Invisíveis», Italo Calvino, 1972
Raccords de homens sem filhos
Um bom double bill para «Manchester By the Sea», o filme que sem música erudita era um drama banal, é «The Invitation» de Karyn Kusama. Também aqui um homem que perdeu a prole agora a tentar recuperar e a refazer-se mentalmente. Mas enquanto Casey Affleck é chamado a Manchester-by-the-Sea, a sua casa de horrores, com o intuito de prosseguir numa tarefa de parentalidade interrompida (em relação ao seu sobrinho, devido à morte do irmão), já o barbudo Will (Logan Marshall-Green) é no interior do parque temático de obsessões e terapias que é Hollywood que terá de buscar reparação. Se o drama do primeiro filme filma um slice of life que lentamente produzirá um avanço, a suspeita do segundo - depois de anos de ausência, a ex-mulher de Will dá, com o seu novo companheiro, um jantar na sua casa para aquele e os amigos em comum - faz com que o terror se «entale» entre a loucura produzida pelo desgosto da perda de um filho e o terror das reparações espirituais automáticas veiculadas através de seitas religiosas.
O filme de Kusama, que por vezes trás à memória «The Rope», tem sobre a obra de Lonergan a vantagem de expor (e de se expor) sentimentos que podem estar errados, podem ser paranoicos e desajustados, mas precisam de sair. Já Lonergan parece usar a introversão de Affleck, que muito possivelmente lhe valerá um óscar, para mostrar o silêncio dos grandes pequenos e trágicos heróis como um antídoto ao frenesim da vida. O problema é que entretanto esse «silêncio» já há muito que foi convertido em viva voz autoral. Um tique audível, portanto.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017
Negrume
chega
da festinha,
comendo
nostalgia de catana.
Veio
assim vestidinha,
casaco
preto, neve de montanha
na
cintura, planície de dois sóis.
Depois
escancarou no sonho,
afogou
na piscina do ponche,
e
comeu fome de baile alheio.
Mas
agora que tudo passou,
sua alpinista de abismo,
estrábica
do acontecimento,
deixa
eu perguntar pr’a você:
e esse
negrume, queridinha:
é semente
de costela?,
ou iguaria
de quilo?
A prisão sem livros
«Por seu intermédio pude dispor de mais dinheiro, escrever à minha família e arranjar livros. Havia anos que não lia um único e seria difícil descrever a estranha emoção que me causou o primeiro volume - uma revista. Lembro-me de ter começado a ler à noite, depois de fecharem as casernas, e de ter continuado a leitura pela noite fora, até ao nascer do dia. Dir-se-ia que viera até mim um mensageiro de outro mundo. A minha vida antiga surgiu aos meus olhos com extrema claridade e tentei adivinhar, através do que lia, se me deixara ficar para trás, se eles - os outros, os livres - tinham vivido muito, sem mim.»
in «Recordações da casa dos Mortos», Fiódor Dostoiévski
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
O traço mais característico e impressionante do nosso povo é a sua consciência e a sua sede de justiça. Falsa vaidade, meter-se à frente, lutar para conseguir o primeiro lugar, sem ter em conta se se possuem ou não condições para o ocupar, não são defeitos que caracterizam o nosso povo. Desde que se levante a sua grosseira casca exterior e se observe com atenção, sem preconceitos, o que germina por baixo, descobrem-se nele qualidades insuspeitadas. Os nossos sábios não têm muito que lhe ensinar. Direi mais, os nossos sábios encontrariam muito que aprender no seu contacto.
(...)
Aliás, na prisão não havia grande estima pelo dinheiro nem pela riqueza, sobretudo se se considerarem os reclusos em conjunto. E mesmo, passando-os em revista um a um, não consigo recordar-me de ter visto um só humilhar-se pelo dinheiro.
in "Recordação da Casa dos Mortos", Fiódor Dostoiévski
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