sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Quando um copo conhece o chão,
partindo-se, não há como não pensar
no desprezo do solo, no cristal da liberdade,
no etéreo peso da humilhação

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Não suportava que lhe viessem falar de amores
quebrados, grandes dilúvios sentimentais.
Com ele ou é ou Noé.

La la la


Agora que com Trump a época la la la abriu oficialmente as hostilidades na América importa pensar por um outro ângulo a mais que repisada mutação do cinema mainstream americano. A crítica ao establishment mantém-se, a desejo de evasão é uma constante e pode subir de tom caso Donald comece de facto a cumprir muitas das coisas que disse e o seu proteccionismo começar a soprar o castelo de cartas das relações internacionais. A ver vamos. Mas ao constatar aquilo que os "modestos" 30 milhões do orçamento fizeram para construir este romance em tempos de dificuldades concorrenciais e luta pelo sonho do grande "american way of life" que é o mundo la la, o "La La Land", não pude deixar de pensar naquela velhinha máxima da suposta invisibilidade técnica no cinema clássico americano e da possibilidade de imersão num mundo. Pois bem, me dirão que isso não se aplica assim ao musical (ou mesmo à sua tentativa de reanimação). E é verdade, é até o seu contrário. O musical quebra essa invisibilidade, quer tecnicamente, quer no que diz respeito a um mundo chamemos-lhe "realista".

Se isto assim é, então parece-me que o paradoxo de um filme como "La La Land" pode assim ser desenhado. O onirismo, a fantasiam que marcavam os musicais de outrora, estabeleciam um corte epistemológico com o real e por isso eram considerados mundos à parte. Assim, seguindo as lições do género, o filme procura, pelo uso da cor, das canções, de uma câmara dançante, ou através dos aborrecidos dilemas das personagens de Ryan Gosling e Emma Stone cavar um fosso com o real, instaurando-o no território do maravilhoso musical. Contudo, eles continuam a dizer-nos as mesmas coisas que aponta um filme crítico do sistema de Hollywood como é "Maps to the Stars", de David Cronenberg, por exemplo. Ou seja, em certo sentido, "La La Land" procura escapar ao realismo, mas na forma como Gosling e Stone serão sempre Gosling e Stone - e não aquele casalinho de personagens indefeso e iludido que procuram sem sucesso representar, com aqueles valores e aspirações -, tal permite ao filme documentar o lado de cá da câmara. Um filme que se transforma num testemunho, ainda que involuntário, do brilho da máquina dos sonhos e seus habitantes. Isto é, "La La Land" é um filme extremamente realista na forma como mostra um real que é cheio de "irrealidade". 

Não é porque a personagem de Emma Stone, Mia, é aspirante a actriz e vai a castings, ou por Damien Chazelle filmar cenas em que há rodagens a acontecer no background que "La La Land" é meta-cinematográfico. Ele é-o na medida em que o mainstream hollywoodiano se torna cada vez incapaz de falar de outra coisa a não ser de si próprio, tornando-se por definição e essência meta-cinematográfico. Pormenores de adereços, episódios dramáticos, inserção de estrelas da música ou do social, a construção das personagens com os seus valores. Tudo isto são elementos que muitas vezes são fora do mundo que se pretendia filmar, antes pertencendo ao mundo que pega nas câmaras. 

Sabemos que Hollywood na sua história nunca foi propriamente realista, e que vários detalhes deixavam mais à mostra do que outros (penso no retrato do outro, estrangeiro) essa displicência. No entanto, havia um fundo de verdade no que dizia respeito à heroicidade, ao sacrifício, à grandeza no enfrentar do destino. Que outra coisa foi o cinema de Lang, Ford ou Peckinpah se não isso? A diferença entre o cinema americano dos grandes estúdios e o de hoje está no encolhimento dessa noção de verdade (mais do que de realismo). Dá a sensação que estamos hoje diante de um pesado espelho que é a forma que o cinema mainstream parece poder assumir neste momento. Um espelho que apenas vê realizadores, actores, egos, luxos e episódios vãos, cada vez com menos histórias para encaixar neste circuito glamoroso. Mas o mais perturbador é que este é um espelho disfarçado de janela. Isto é, quem faz impõe o que deve ser e parecer. E o que deve ser e parecer? O que é que nesse espelho performativo há para ver? Por enquanto nada: la la la.

A mesa

põe a mesa
come à mesa
levanta a mesa
trabalha à mesa

desmanivela-a 
desce 
é cama

faz a cama
abre a cama
brinca na cama
dorme na cama

desmanivela-a 
desce mais
é caixão

entaipa o caixão
forra o caixão
entra no caixão
fecha o caixão

era a brincar
era a brincar

manivela-o
sobe
é cama

manivela-o
sobe
é mesa

põe os cotovelos na mesa

Alexandre O'Neill

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

"La mort de Louis XIV" de Albert Serra


Em que capítulo havíamos ficado da novela: "Odiar o homem, amar o cinema" protagonizado por Albert Serra? Ah sim, no sangue virginal das vítimas de Casanova e no sangue alimentício de Drácula. Aqui, além da deambulação metafísica como tema que já vem do início da sua carreira, havia esta coisa da sedução, de Serra piscar o olhar sedutor do cinema de autor por via destes conquistadores da carne e da mente. Agora - será a maturidade que chega? - o sangue parou e mais... gangrenou. 

"La mort de Louis XIV" procura assim, tarefa mais complicada, buscar a sedução na (quase) pura imobilidade. O rei morre aos poucos, Léaud que havíamos visto "nascer" no cinema, morre agora nele. Morte do cinema prêt-à-porter e mais, basta lembrar a agitação do corpo e da palavra de Doinel no cinema de Truffaut, para percebermos a dimensão da catástrofe que Serra propõe filmar. Um corpo que já não corre e vai perdendo as palavras. Morte do cinema moderno prêt-à-porter.

Falava de tarefa complicada pois é o espectador que atentará no desligar progressivo do ícone real, reactivando ele os seus sensores no que diz respeito à cor, à composição, às texturas dos tecidos sobretudo do quarto do rei, até à audição nessas palavras dos criados e do próprio súbdito que passam da plena voz ao murmúrio.

E ainda dois aspectos fundamentais. O primeiro, o humor. A corte como um sistema de burocracias a funcionar no espaço de centímetros (um dá de comer, o outro enche o copo, o outro ajeita a almofada, etc.) e a negação, até ao último suspiro do rei, de que este possa não vir a recuperar subitamente. As palmas até ao fim. Em segundo lugar, a tal questão de uma suposta maturidade de Serra. "La mort de Louis XIV" seduz no ocaso, indirectamente, procurando antes usar a câmara como testemunho de um corpo em falência, de uma presença que se extingue, de um tempo sem trejeitos que se escoa. 

O fim de Léaud , de um rei, de um cinema, de todo o cinema, tudo isto por certo. Mas o que faz de "La mort de Louis XIV" o melhor filme de Albert Serra até à data é a compreensão que um fim precisa de uma presença. Uma presença até que o tempo finde. E esse acto, em todo o seu esplendor, é aquilo que há de mais justo e de menos sedutor no filme.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Polaroid #1

Foi ter com o amigo. Não sabia bem se ainda o era, mas tinha na cabeça aqueles dias em que se vestiam com muita cor e carregavam câmara, tripé e acessórios por estradas cheias de buracos. Uma vez ajudou-o a levantar-se pois na ânsia de chegar a tempo tinha posto mal o pé e caído no asfalto, um buraco na sola das botas de couro, um vexame, um coxear ligeiro durante semanas. Quase sempre chegavam em cima da hora, pé ante pé, pelas traseiras do olival, pela parte da frente do museu, pela tábua mais fraca do barco prestes a sair para a faina. Era um tempo de alucinações, tudo a acontecer, a película nunca chegava e os planos duravam, douravam na montagem. E depois era aquele natural acender no ecrã, da projecção tão escura, olhos tão atentos e fundos, sem um respirar que fosse. As senhoras gordas e de pele tisnada açoitavam as árvores e cantavam-se coisas de assustar os grilos e as couves. Ou o menino Jesus apostado em prosperar num quadro brilhante, uma nuca também ela reluzente a espreitar, um passo furtivo no corredor principal.

Mas, há que dizê-lo, o principal eram as casas. A forma como estes dois homens as filmavam traziam à arquitectura um tiro, uma velocidade de partir o horizonte. Eram dignas as casas, mesmo na sua podridão. Às vezes passavam horas debaixo delas como se fossem jaulas e arrancavam-lhes as histórias que tinham entranhadas nas paredes, nas frinchas das portas, nas rachas cozidas pelo frio. Prédios que o tempo havia desgastado o amarelo em creme acinzentado. Os barquinhos que passavam perto deles nem olhavam para cima, só viam o lodo e o verdete do cais a coroar as habitações. Não valia a pena filmar o rio, as pessoas que viviam nesses prédios à beira deles faziam-no diariamente e prezavam muito o rio que traziam nos olhos, não valia a pena mostrá-lo em pobres imagens, numa sala tão seca, a esse rio farsante que era o vizinho mais querido que alguma tinham tido. Entretanto os dois amigos tinham passado todos estes filmes e já há muito que não punham o pé no mesmo caminho ou enchiam um copo de vinho na mesma sala. Talvez tudo se tivesse devido a uma enorme tempestade em que cada um se molhou para seu lado. Ou, quem sabe, o fim do cinema que lhes fez ganhar pança e roupas largas de velho. Tinham passado quê, vinte anos? Talvez mais, pouco importa. 

O que realmente importa, o principal, eram as casas de cada um. Nelas se chamaram pelo telefone, seriam amigos ainda (?), e marcaram na ponte D. Luís para daí a 3 dias. Nesses dias de espera, o primeiro, ansioso, passava o tempo em torno da janela a reparar nos gatos a dormir no quintal, enroscados uns aos outros, numa bola, por causa do frio. Quando chegou o dia, levantou-se muito cedo, fez a higiene matinal e vestiu-se. Uma camisa azul às riscas roxas, umas calças de flanela castanhas claras e um cinto de couro luzidio. Colocou os seus óculos de massa, grossos e habituais, e um barrete da cor das calças. As calças talvez estivessem um tanto puxadas para cima, para a zona do umbigo, mas caramba, tinha saudades. Fez o caminho todo a pé até à ponte, também não era muito. Mal chegou viu o amigo. Aproximou-se dele e encostaram-se ambos, ainda sem trocarem palavra, a um dos suportes laterais do tabuleiro. Estava um dia cinzento e a ponte, enferrujada, desenhava uma valente cruz violeta por detrás dos dois amigos. Seriam amigos? Essa cruz negava o horizonte feito monte de casas ao longe, um morro com vista para o rio sereno. Este rio era o rio daquele avolumar de gentes a acontecer num desenho como aquele que agora assistia a este encontro, um desenho assinado pelo lápis arquitectural da cidade.

O amigo, que talvez ainda o fosse, vestia calça escura, quase preta, um casaco castanho-escuro, muito largo, e um chapéu da mesma cor. O primeiro, o da camisa às riscas, estava de costas para o morro, mãos junto à cintura. Na mão direita faiscava o brilho de uma aliança. Olhava o amigo, curioso. O outro, de costas ligeiramente curvadas, não encarava o seu amigo. Olhava antes para baixo, para o rio, mão direita mergulhada no bolso e o rosto na penumbra.

Então, o primeiro, o que sempre escolhia os planos e dizia as palavras “acção” e “corta”, enfrentando o amigo, fez-lhe uma pergunta. Ao que o outro respondeu, a medo. E depois o gelo passou, o rio parou e conversaram toda a tarde.